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A Bienal e a Outra: o que você não vê nos corredores e diz muito sobre a mostra

por: Gabriela Rassy

A 33ª Bienal de São Paulo está prestes a abrir suas portas ao público. Os amantes das artes já se preparam para entrar pelos imensos espaços do Pavilhão dentro do Parque Ibirapuera e conhecer a proposta deste ano.

A edição, porém, não tem um elo que une todas as obras que estão espalhadas pelos 3 andares da mostra. O tema Afinidades Afetivas deixou a coisa toda bem livre. Tão livre, que na verdade são várias exposições ocupando o mesmo espaço e não um conjunto de ideias.

O curador geral Gabriel Pérez-Barreiro convidou 7 artistas para fazerem o papel de curadores e montarem mostras coletivas de acordo com sua vontade. Cada um conta uma história completamente diferente da outra. Uns vão pelo caminho das influências em seus trabalhos, como a artista sueca Mamma Andersson, que assina Stargazer II. Na mostra, suas inspirações conversam com suas obras, sempre com elementos expressivos e uso do corpo humano – as pinturas da curadora, além dos vídeos da cineasta experimental Gunvor Nelson e dos quadros Henry Darger valem a visita.

Outros uniram obras que têm interação com o público, como Wura-Natasha Ogunji. A artista nascida nos Estados Unidos e residente de Lagos, na Nigéria, é a mais interessante dentro das mostras físicas da Bienal. Primeiro por que ela reuniu apenas artistas mulheres em sua curadoria – coisa que a maioria dos artistas não se preocupou em fazer -, segundo pois os trabalhos unem histórias, corpos e territórios.

“O que eu acho mais interessante dessa exposição é que três trabalhos mostram a interação com o corpo. Lhola Amira (África do Sul), tem em sua obra uma espécie de altar onde se propõe a lavar os pés de afrodescendentes e indígenas, abrindo espaço de cura para as pessoas; Youmna Chlala (Líbano) fez uma série de namoradeiras que você pode entrar e sentir seu corpo na obra; e o de Mame-Diarra Niang (França) é uma instalação com projeções, sons criados para esse espaço para que te conecte com seu próprio corpo e sua harmonia com o espaço”, conta Wura-Natasha.


Mas um trabalho em especial me chama a atenção. Não está ali fisicamente, mas une tudo que acontece nesta edição. Outra 33ª Bienal é o outro lado da mostra. O projeto de Bruno Moreschi apresenta modos nada tradicionais de ver a exposição. Por ali você encontra o Audioguia Mais Vozes, que dá voz aos funcionários apagados da história da mostra.

“Seguranças, pintores de parede, montadores e profissionais de limpeza e da manutenção não têm espaço no espaço que ajudaram a criar ou preservar, reforçando um tipo alienado/estranhado de trabalho”, diz o site.

Na parte código aberto, um espaço para que programadores do mundo inteiro possam acessar o código-fonte do projeto e assim opinar ou aprimorar a proposta. O link seguinte até emociona. Com título Golpe, a sessão não deixa passar em branco o momento histórico no qual a Bienal se coloca dentro do país. O clichê do “política não se discute” vai para o lixo e coloca em catálogo todas as manifestações do público sobre o tema. Daqui 20 anos, quem buscar informações sobre a Bienal não vai ter esse fato da nossa realidade omisso.

O título desta matéria entra na análise de dados também, assim como tudo que for publicado pela imprensa. A redução dos trabalho a um título e o reconhecimento de palavras por inteligências artificiais fazem nova leitura da imagem que a megaexposição passa. Nesta ação entra a artista Letícia Cobra Lima, que construiu um texto experimental com citações literais de chamadas de capa de revistas femininas em 2014, e agora aplica sua metodologia sobre a 33ª Bienal. Outras ações analisadas por inteligências artificiais que tentam identificar pessoas nas obras – pedra vira gente e gente vira

Confira a entrevista com Bruno Moreschi:

Hypeness: O que é a Outra 33 Bienal?

Bruno Moreschi: Esse é um site que vai ser alimentado até o final da Bienal. As pessoas podem mandar fotos para que a gente possa alimentar a plataforma com outros discursos que não sejam só esse oficial e muitas vezes elitista da arte contemporânea

H: O ambiente da Bienal, assim como o de outras galerias e museus, causa um impacto visual nas pessoas. Mas é fácil se sentir perdida, deslocada e até não-parte daquele espaço. Como o seu trabalho entra nesta questão?

BM: O projeto vai tentar ao máximo para chamar o visitante para enviar materiais e impressões dele sobre a exposição. Isso faz com que o visitante de alguma maneira se torne também responsável por aqui que esta exposto. As pessoas reclamam muito da arte contemporânea, mas a ideia de um publico mais ativo, mas participante numa exposições requer algumas obrigações também: tempo, atenção, vontade de querer entender, de ouvir, concentração. O projeto também quer estimular essa responsabilidade de ser um público mais emancipado.

H: Como você pretende alimentar a Outra 33 com novos conteúdos?

BM: A gente já tem uma planilha de alimentação das ações que já existem e tem um material que vai entrar com certeza, mas por outro lado tem espaço no site para que novas ações e materiais sejam pensados a partir do que acontece na bienal de fato. Então não dá para saber como ele vai ficar no final por que ele está interessado em entender como vai ser a Bienal, isso vai se dar ao longo da mostra. Dependendo do que acontecer na Bienal, o projeto se transforma.

H: Seu projeto traz análises bastante palpáveis sobre o lugar da arte, contexto político e inclusão social. É a primeira vez que faz um trabalho neste sentido?

BM: Meus trabalhos tendem a pensar muito em inclusão social aonde as pessoas não especialistas em arte possam falar e participar. E também quase todos os meus trabalhos tentam discutir o que é esse lugar da arte e o contexto político. Tem um projeto que desenvolvo até hoje com pintores da Praça da República tentando fazer novas versões do quadro “Independência ou Morte”, que está no Museu Paulista, que está fechado para reforma. Então a gente fica pintando novas versões deste quadro e individualizando as pessoas, que são os populares nos cantos dessas imagens. Eu trabalho com eles há 5 anos e são pessoas mais velhas, de uma classe social mais baixa. Em relação ao contexto político, meus trabalhos estão muito interessados na representatividade de gênero, raça, localização geográfica. Um outro trabalho meu é o História da_rte, um panfleto gratuito onde a gente ficou quase um ano contando os principais livros de história da arte que são usados no ensino de artes no Brasil. Catalogamos quantas mulheres, negros, artistas de fora dos EUA e Europa que estão ali. Distribuímos esse panfleto para 150 museus no Brasil e 150 de fora.

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Fotos destaque: Arquivo


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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