Matéria Especial Hypeness

As dores e as delícias de ser uma mina que joga futebol americano no Brasil

por: Priscilla Sampaio

Poucas palavras podem descrever a sensação de entrar pela primeira vez em um campo de futebol. Ouvir o eco pelas arquibancadas em dia de jogo. Sentir a energia das vozes e da adrenalina coletiva, de um esporte coletivo.

O campo em questão é do estádio do Canindé, em São Paulo. Mas no lugar das linhas de centro ou pequena área, estão as delimitações de jardas. No gol, enormes traves em formato de Y.

O brasão da Portuguesa, time tradicional de futebol paulistano, agora estampa outros uniformes, dessa vez acompanhados por shoulder pads (ombreiras de proteção que lembram armaduras) e capacetes.

Ao meu lado, no corredor que dava acesso ao gramado, duas filas alinhavam 22 jogadoras prontas para entrarem em campo. São mulheres. Mulheres atletas que haviam se dedicado ao máximo para estarem ali.

O momento traduzia muito o espetáculo esportivo que seria protagonizado a seguir. Intensidade. A música começa, a fumaça verde e vermelha sobe no ar. Eu, com um bandeirão a tira colo, e minhas companheiras logo atrás, disparamos em direção ao meio de campo. Um dos melhores momentos da vida, devo dizer.

Entrávamos no nosso primeiro jogo de futebol americano.

Ganhando popularidade aqui no Brasil para além das transmissões dos jogos da NFL (National Football League), o futebol americano, que têm em seu imaginário atletas grandalhões e agressivos, pulsando a padronizada “masculinidade”,  vem quebrando barreiras de gênero.


Entrada das jogadoras da Portuguesa FA no campo do estádio do Canindé.

O amistoso era contra as vice campeãs paranaenses Cold Killers e marcava a estreia do time feminino da Portuguesa. Era o primeiro jogo de muitas ali em campo, inclusive para mim, que conheci o futebol americano há dois anos, quando participei de um treino aberto.

Lembro até hoje do quão desafiador foi, fisicamente e emocionalmente. O esporte sempre foi uma questão na minha vida, pois nunca fui estimulada a gostar de qualquer atividade por conta do meu porte físico. O que era para ser algo inclusivo sempre foi sinônimo de opressão para mim, mas, naquele primeiro treino, senti que seria diferente. As pessoas acreditavam em mim e diziam que eu era capaz, que eu sempre poderia ir além. E eu fui.

Assim como eu, algumas atletas estavam em formação desde 2016, quando o projeto foi iniciado pelos coaches Luana Magalhães e Alexssander Sawicki. Na época, haviam poucas mulheres que sabiam da existência da modalidade feminina no esporte.

A defensive end Camila Dantas, uma das atletas mais antigas do time, conta que, além da dificuldade de atrair visibilidade, outros fatores foram desafiadores no processo de formação da equipe. “Já tivemos apenas 6 atletas treinando oficialmente. Tratando-se de um esporte que é considerado como majoritariamente masculino, tivemos que trabalhar juntas para desmistificar algumas visões que existem por aí, como a de que não é um esporte para mulher, por ser intenso e agressivo“, conta.

O esporte como superação

Dentre tantas dificuldades enfrentadas pelo time, a estreia dentro de um estádio era um sonho se tornando realidade. Um sonho que se sonha junto mesmo, com um caminho traçado pela trajetória e evolução de cada uma.

Infelizmente, por conta de uma lesão no joelho esquerdo, precisei acompanhar tudo pela lateral do campo.  Mas, mesmo com a frustração de não poder jogar, não parei de pensar um minuto sobre a felicidade que era compartilhar esse momento com mulheres tão determinadas e que possuem tantas histórias, inclusive sobre superação.


Primeiro touchdown do jogo, feito por Letícia Saldanha

Por ali corriam também os sonhos da quarterback Soraya Oliveira, a Sol, que atravessa mais de 170 km todo o sábado para treinar no Centro Esportivo da Portuguesa e hoje é uma das capitãs do time ofensivo. De Caraguaratatuba, cidade do litoral norte de São Paulo, a atleta assim como muitas ali, estava vivendo a conquista do primeiro jogo com a camisa da portuguesa. “Era um turbilhão de emoções. Quando pisei em campo me passou um filme na cabeça, desde o primeiro dia que lancei a bola oval e até a minha evolução pessoal como atleta”.  Seu primeiro contato com futebol americano foi em junho/julho de 2015, quando ajudou a montar um time feminino na cidade, o Caraguá Ghost Ship Girls. “Tenho muita gratidão por toda a equipe e envolvidos pois a base que tenho hoje foi graças ao que aprendi com eles. O futebol americano me faz aprender a ser melhor como pessoa e a dar meu melhor em campo” afirma a jogadora.

Lições como essas também se unem a importância da representatividade dentro de campo.

Gordas, magras, altas, baixas, velozes, fortes; há espaço para todo o tipo de corpo e habilidade dentro de um jogo de futebol americano. A center e também capitã do time ofensivo Andreia Andrade conta que esse foi um dos fatores que a aproximou da modalidade. “O futebol americano é um esporte muito inclusivo, qualquer tipo de corpo que você tenha, tem uma posição para você jogar. Na linha ofensiva, onde eu jogo de center, por exemplo, são geralmente pessoas mais pesadas, que precisam bloquear as adversárias da defesa para proteger a quarterback. Aqui dentro a gente vê que não há limitações. A gente se sente muito útil e dona de si, isso traz um empoderamento muito grande

A coordenadora da linha ofensiva Mel Pagliato sempre foi atleta. Depois de algum tempo sedentária, procurava um esporte que fosse além de um hobbie de fim de semana, e se encontrou no futebol americano. Hoje, com 38 anos, a atleta sente que ainda pode ir além: “O esporte para mim diz muito sobre superação. Eu sou uma média de 12 a 14 anos mais velha do que a maioria das atletas do time. É um desafio, mas também é fazer parte de um sonho, de um grupo. É olhar para o outro e pensar no coletivo”.


Jogadoras da Portuguesa e Cold Killers alinhadas para o início da partida

Conquistas assim também são divididas por Letícia Saldanha, running back autora do primeiro touchdown do jogo a favor da Lusa. Ela lembra de quando conheceu o esporte em um momento delicado da vida. “Na época eu estava no auge da minha depressão, quando decidi me inscrever em uma atividade de extensão da Faculdade de Educação Física na Unicamp sobre Futebol Americano, pois precisava fazer alguma atividade física. Eu mal conhecia o esporte e era a única mulher da turma inteira”.  Após passar algum tempo treinando, a jogadora pegou gosto pela atividade, que a ajudou a superar limites. “O futebol americano me fez parar de dizer pra mim mesma que eu não conseguia fazer as coisas e me ajudou a diminuir o medo que eu tinha de me machucar (física e psicologicamente). O esporte me ensinou a deletar a passividade da minha vida para eu tomar as rédeas do que me pertence”, conta.

No país são 19 times formados por mulheres na modalidade tackle (com contato), muitos ainda em desenvolvimento. O campeonato brasileiro, que este ano foi composto por 7 times de todo o país, é o principal objetivo das atletas, que sonham com uma maior visibilidade para a prática.

De 2014 para cá, após o primeiro torneio de futebol americano feminino no Brasil, muitos times independentes se formaram. Clubes tradicionais como Corinthians e Palmeiras, também abriram espaço para a modalidade e agora, no último mês, foi a vez da Lusa (apelido carinhoso dado ao time criado por imigrantes portugueses).

Juntas somos fortes


Hoje, o time em campo, comandado agora pelo head coach Ben Brown, ex-jogador do Green Bay Packers, tem um elenco de 37 jogadoras e conseguiu superar algumas barreiras com muita união e motivação.

Com um placar de 22 a 14, a Portuguesa saiu vitoriosa da sua primeira partida e tem planos para seguir ampliando os horizontes do FA.

Assim como em outras equipes, ainda há desafios para o time como a arrecadação de verba para equipamentos (que não são fabricados no Brasil e, por isso, extremamente caros) e conquista de patrocínio.

Mas, para a capitã do time defensivo e linebacker, Larissa Pereira, a união entre os times femininos está fazendo a diferença para mudar este cenário. “As equipes estão se mostrando fortes e aumentando o nível de competitividade, com isso vamos conquistando o público nos jogos e crescendo cada vez mais dentro do cenário nacional. Quando nos equipamos e entramos em campo mostramos que somos capazes de fazer o que quisermos.”

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Fotos: Thiago Maia e Stevam Cassiano


Priscilla Sampaio
É jornalista, rata de filmes e playlists musicais. Trabalha com comunicação no universo da beleza, mas começou a carreira correndo atrás de bandas e assessorando shows e festivais. Deixou de ter vergonha e criou um perfil para o seus desenhos no Instagram. Me segue lá: @_zill4

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