Empreendedorismo

Compaixão, cuidado e ética podem tornar uma empresa mais próspera

por: Gabrielle Picholari

Sempre acreditei que só podemos inspirar transformação a partir da nossa própria experiência de vida. Em 2012 descobri que sofria da síndrome de burnout (esgotamento por estresse), e, a partir desse diagnóstico, venho percorrendo um longo caminho de auto investigação.

O burnout atinge 40% dos norte-americanos e 30% dos brasileiros. Síndrome do pânico, ansiedade, ou incapacidade de agir são manifestações comuns do quadro. Dentro desse contexto, os principais fatores que elevam os níveis de estresse são questões financeiras, de trabalho, e de saúde.

Uma das grandes descobertas da minha jornada, e que vem mudando minha forma de ver e estar no mundo, foi reconhecer que a desconexão interior que eu sentia é também a essência de muitas das crises que acontecem hoje coletivamente.

Estou falando de falta de consciência em relação à natureza, a intolerância de todos os tipos, preconceitos, insatisfação no trabalho, depressão, falta de prazer sexual, ou, de maneira geral, do entorpecimento das nossas próprias dores.

Convivemos com a falta de cuidado em todos os aspectos: cuidar do outro, cuidar-se e ser cuidado.  Alguns exemplos são: a mãe que cuida do filho e não cuida de si mesma, a executiva que cuida da empresa e do desempenho de sua equipe, e se culpa por não conseguir estar tão presente quanto gostaria no dia a dia dos filhos, o doente que não consegue pedir ajuda, etc.  

Você já sentiu vergonha em pedir ajuda? Culpou-se por estar atravessando um momento delicado? Viveu dilemas sobre como seguir a vida convivendo com dores sem prazo de validade? Acabou se fechando em si mesmo e deixando de acolher outras pessoas? Da onde vem essa dificuldade em se vulnerabilizar, pedir ajuda? É orgulho, é medo da rejeição? O cuidado, que passa por pedir ajuda e se vulnerabilizar para o outro, pressupõe uma abertura de nossa parte para com nossa própria intimidade.

A autocompaixão é uma forma de cuidado e uma poderosa ferramenta para a busca do propósito e do caminho da abundância. Sua prática permite uma abertura irrestrita para o novo, sem julgamentos e sem sentimentos de culpa, vergonha, incapacidade ou não merecimento.

Com o tempo, a prática contínua da autocompaixão contribui com a capacidade de pacificar esses diálogos internos. A pessoa deixa de se criticar tão severamente diante de uma falha, modifica comportamentos improdutivos, assume novos desafios e desperta o desejo de ter saúde e bem-estar, o que fortalece a coragem para fazer as mudanças necessárias na vida.

Estamos acostumados com noções rígidas e polarizadas de conceitos como “certo e errado”, “mérito e punição” e “pertencimento e exclusão”. A educação formal, familiar e a cultura em que nos inserimos usualmente nos arrastam para juízos de valor, atitudes e sentimentos destrutivos, tais como a culpa, o insulto, a depreciação, a rotulação, a crítica e a comparação, tudo isso vai na contramão da ideia de autocompaixão.

Na tradição tibetana, a compaixão é reconhecida como o mais alto ideal espiritual e a mais alta expressão de nossa humanidade. Mesmo a palavra compaixão em tibetano, nyingjé, que literalmente significa o “rei do coração”, demonstra que a compaixão é uma prioridade. Para sermos verdadeiramente compassivos em relação a nós mesmos, precisamos examinar se nos aceitamos e nos perdoamos. Assim como a compreensão nos leva a perdoar os outros, compreender nossos pensamentos e ações e acolher nossos erros como parte da condição humana faz nascer o auto perdão. Somos apenas humanos.

Marshall Rosenberg, o criador do método da comunicação não-violenta (CNV), fala  que “um aspecto importante da autocompaixão é a capacidade de abraçar empaticamente as duas partes de nós mesmos: a que se arrepende de alguma ação passada e a que realizou aquela ação.” Se somos pouco tolerantes e bondosos com nós mesmos, essa atitude provavelmente se manifestará também nas interações com os outros, especialmente aqueles que amamos, convivemos, trabalhamos e lideramos.

Pesquisas apontam que a autocompaixão é uma característica que está presente entre as mulheres que ocupam posições de liderança no meio corporativo. Porém, o paradigma de liderança que ainda prevalece nasceu do patriarcado e é fundamentalmente baseado em competências, de fora para dentro, com valores comumente atrelados à ideia do masculino. É um paradigma hierárquico e centralizador, baseado em recompensa e punição.  

Mas há novos valores e sistemas sendo tecidos. Por exemplo, no Capitalismo Consciente, os negócios não se restringem apenas à geração de lucro, renda e empregos mas também a valores de bem-estar sociais. Talvez o pilar mais fundamental do Capitalismo Consciente seja transformar o papel da liderança dentro das organizações. Líderes conscientes são basicamente altruístas. Eles se importam mais com as pessoas e com o propósito do empreendimento do que com seus próprios interesses. Eles buscam o poder de construir as pessoas. Trata-se de despertar habilidades femininas inatas de liderança dormentes dentro de cada um, como a empatia, flexibilidade cognitiva e a  confiança.

Mulheres líderes que utilizam ferramentas como o autoconhecimento e a autocompaixão, protegem-se da armadilha de adotarem como defesa abordagens de liderança de “estereótipos masculinos”, com resultados previsivelmente infelizes para elas próprias e para as organizações que lideram, já que não estariam sendo naturais e estariam desprestigiando qualidades inerentes ao princípio feminino que habita homens e mulheres.

Há vinte anos víamos apenas uma mulher CEO dirigindo uma empresa Fortune 500; hoje vemos vinte e duas. A porcentagem ainda é muito baixa, mas é possível perceber a evolução, isso nos encoraja a imaginar um mundo com mais mulheres e homens na liderança das corporações, comprometidos a agir de forma mais humana.

Como, facilitadora em desenvolvimento humano, assumo diariamente o compromisso de fomentar redes que apoiem o empreendedorismo feminino. Acima de tudo, o que me instiga é desmistificar temas tabus que envolvem saúde, vergonha e compaixão.

Quero trazer reflexões sobre a essência da liderança feminina a partir da ética do cuidado. Em agosto, o Olhar Fértil – movimento cultural que busca propagar a ética do cuidado – apresentará talks gratuitos na Unibes Cultural e na FGV, com mulheres líderes que já percorrem o caminho de busca por maior harmonia entre vida pessoal e sustentabilidade dos seus negócios.

Se esse tema também te move, tenho alguns convites a fazer:

  1. Live na Página do Facebook, com mediação de Max Nolan, quarta, dia 5/9 às 20h: Max Nolan Shen (cultural hacker), será o mediador da mesa redonda formada com algumas das facilitadoras do programa Experiência AHNIMA, que conversarão sobre temas relacionados aos princípios femininos no contexto de liderança, desafios e crenças à expressão e ascensão de mulheres no mercado de trabalho e possíveis caminhos para lidar com este cenário.
  2. Encontro Vivencial Experiência AHNIMA, na Base Colaborativa, dia 15/9 às 10h: Uma degustação gratuita de 2h para vivenciar aspectos como receptividade, flexibilidade cognitiva, atenção ao entorno e empatia. O convite é uma oportunidade para homens e mulheres que desejam trabalhar esses conceitos à luz da Ética do Cuidado. Se quiser se inscrever e receber mais informações por favor escreva para contato@olharfertil.co demonstrando interesse. O evento é sujeito a lotação.

Sobre a EXPERIÊNCIA AHNIMA:

A EXPERIÊNCIA AHNIMA é um curso de desenvolvimento pessoal voltado a mulheres que ocupam posições de liderança no mercado de trabalho, composto por 6 encontros presenciais, nos dias 21 e 28 de setembro, 19 e 26 de outubro e 9 e 23 de novembro, sempre às sextas-feiras, das 10 às 12h, na Unibes Cultural.

O programa conta com a presença de convidados como Graziela Merlina (Instituto Capitalismo Consciente e Liderança Shakti), Guilherme Valladares (He for She), Andrea Bueno (mentora executiva e ex-VP de multinacionais) e Petrina Santos (HLPF ONU e G20 Youth Summit), que, apoiados por metodologias e princípios da Teoria U (de Otto Scharmer), Abordagem Sistêmica, Comunicação Não-Violenta, Empatia, Neurociência, Inteligência Emocional, Psicologia Positiva, Teoria Integral (Ken Wilber), entre outros, conduzirão a reflexão e prática em relação à essência da liderança feminina a partir da Ética do Cuidado.

As vagas do programa são bem limitadas, então se você gostou da proposta e quer garantir o seu lugar, clique aqui. Oferecemos materiais didáticos bônus e condições especiais de pagamento para quem se inscrever até o dia 10/setembro.

 

Publicidade


Gabrielle Picholari
Há 10 anos, dedica-se ao desenvolvimento integral do ser humano e pesquisa, ao redor do mundo, medicinas integrativas e processos de autotransformação. Formada em Administração, com Master em Gestão Ambiental pela UNSW (Austrália), iniciou sua carreira na área de RH da IBM e depois seguiu atuando em consultorias de Inovação e Sustentabilidade como CoCriar e MateriaBrasil. Formou-se terapeuta integrativa no Hospital Albert Einstein e em Yoga no Instituto de Ensino e Pesquisa em Yoga (IEPY). É facilitadora pelo Instituto Ecosocial e formada em Coaching para o bem-estar integral pela MedIntegral. Também é parte da Rede Ubuntu, que apoia o Eupreendedorismo. Atua acompanhando jovens e adultos no processo individual ou coletivo de reconhecimento de seus potenciais e construção de habilidades socioemocionais, para que encontrem seu verdadeiro propósito e vivenciem mais bem-estar, autoconfiança e felicidade. É autora do livro "Autocompaixão: a essência da felicidade", que lançou em 2017 na FGV, onde leciona para estudantes de Direito. É fundadora do movimento Olhar Fértil e em 2018 palestrou no Festival Path e na HR.Rocks Conference.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Mulher cria sistema de entrega com bicicletas destinado a mulheres e transexuais