Matéria Especial Hypeness

‘De Mudança’: esta youtuber tem tudo o que você precisa para sair de casa

por: Kauê Vieira

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A hora de sair da casa dos pais é um processo complexo. Desejo de 10 em cada 10 jovens, é preciso investir em planejamento e deixar tudo nos conformes para que nada dê errado. Por mais que se deixe as portas abertas, quando a decisão é tomada, ninguém quer voltar atrás.

Em tempos de redes sociais, o YouTube se fixa como uma espécie de TV ondemand. Ou seja, por lá é possível mapear todos os assuntos e personagens para sanar dúvidas, entre elas a pergunta de 1 milhão de reais sobre o que é preciso para morar sozinho.

Entre os milhares de canais, um especial está chamando a atenção. Estamos falando o De Mudança, mantido pela jovem Mari, que usa a própria experiência pessoal para dar dicas, não só de como morar sozinha, mas do que fazer para deixar a casa mais bonita, como cuidar da limpeza e outras coisinhas mais.

“As pessoas estão tendo uma consciência financeira absurda e tão conseguindo sair de casa”

Atento aos sinais, o Hypeness conversou com esta jovem carioca, parte de um grupo crescente de mulheres negras plurais. Sim, são pessoas que não deixam de falar sobre racismo, mas usam a potência de suas vozes para mostrar que negras e negros são livres para tratarem das pautas que quiserem.

“Para a mulher negra, falar de assuntos positivos e inspiradores é incrível. Teve muita gente antes mim, não só na história, mas no próprio YouTube, abrindo caminho para que eu pudesse ter o meu canal. Não abordar nenhuma questão racial é sim uma opção minha.  

A minha militância é estar ali com meu cabelo, minha cara e falando sobre ser próspera, sobre ter conseguido conquistar coisas na minha vida. Sobre ser uma mulher independente.

Mari é formada em jornalismo pela PUC do Rio de Janeiro. Desde de cedo, a vontade de se expressar esteve presente em seus pensamentos. Interessada por cultura pop e artes, a jovem revela que apesar da mudança de curso, a comunicação foi o grande acerto da sua vida.

“Quero dar um passo a mais para que as pessoas consigam entender um pouco de investimento”

“Eu ganhei uma bolsa pelo Prouni e entrei na faculdade. Quando você tem o privilégio de estudar alguma coisa ou se dedicar para uma profissão, é muito mais fácil prosperar e ser independente.

A comunicação foi fundamental na minha vida e fez eu me descobrir muito como pessoa. Foi uma escolha super acertada.

Com pouco mais de dois anos, o De Mudança acumula quase 50 mil seguidores em sua página no YouTube. O canal mantido por Mari é justamente a junção da vontade de se comunicar com o sonho de morar sozinha. A jornalista de 28 anos conta que o planejamento de se tornar independente vem desde pequena. Essa identificação com a ‘vida de adulto’ pode ser percebida pelos vídeos.

“Desde os 13 anos de idade eu planejo essa coisa [de morar sozinha]. A ideia [do canal] surgiu porque eu estava saindo de casa e comecei a procurar na internet assuntos sobre isso.

O problema é que não achei nenhum canal próximo da minha realidade de vida. As pessoas romantizam muito, cara, eu tava na merda.

Ninguém falava sobre isso, então eu pensei, dane-se, vou falar. Meu namorado tinha uma câmera e trabalha com audiovisual e a gente fez o canal junto. Mas só eu apareço, roterizo e falo”, explica.

Em dois anos, o De Mudança acumula quase 50 mil seguidores

Desde o nascimento em 2016, o De Mudança acumula mais de 150 vídeos. Por causa do bom humor, das edições criativas e claro, da espontaneidade de Mari, é difícil parar de assisti-los. Ainda mais se você estiver iniciando a empreitada de gerenciar a própria casa.  

Os novos conteúdos são postados todas as segundas-feiras. Os temas, como foi dito, são diversos. Nós indicamos dois vídeos, o primeiro é um tutorial dos bons para quem deseja ter plantas em casa, mas não sabe como mantê-las vivas. Não se preocupe, Mari vai te ajudar.

A outra dica vai para o vídeo sobre educação financeira. Nunca é demais lembrar, que antes de assinar um contrato, você precisa ter certeza de que vai conseguir honrá-lo.

“O maior desafio prático de morar sozinha foi organizar as contas no início. Eu saí de casa organizada e planejada, mas foi tanto imprevisto, coisas para comprar, que minha reserva de emergência acabou rápido. Foi um grande desafio me organizar”, reflete.

Para Mari, o fato de ser mulher e negra, deixou a missão ainda mais complicada. Os efeitos do racismo são tão grandes, que não existem estudos específicos da quantidade de pessoas negras morando sozinhas. Ponto para o De Mudança, que por meio da comunicação, contribui para a transformação deste cenário.

Ser um corpo negro morando sozinha significou o resgate da minha autoestima. Eu me sentia frágil. Sou a pronta mais frágil da sociedade. Eu sou uma mulher e sou negra, então sempre tive medo das coisas.

Na mesma época em que me mudei, estava passando pela transição capilar. Mais importante do que isso, era o fato de fechar contrato, o contato com os vizinhos. Estar fazendo isso sozinha e já esperar um retorno negativo das pessoas que estavam lidando comigo. Então, foi um resgate pra eu aprender a me impor. Eu falo muito isso no canal”, finaliza.

O sucesso do trabalho realizado pelo De Mudança se reflete no número de mensagens enviadas pelo público. São tantos os relatos de gente que conseguiu concretizar o desejo de alugar ou comprar a própria casa, mudar de cidade, que Mari fez um vídeo especial com os depoimentos mais inspiradores.

“As marcas e o mercado ainda estão muito longe de ver o nosso potencial com influenciadoras”

Os mais atenciosos certamente notaram um grande número de mulheres e homens negros preenchendo a caixa de comentários. Tá vendo como representatividade importa? Diante de uma constante estereotipação do afro-brasileiro – comumente associado aos assuntos negativos como a violência, a possibilidade de ouvir uma mulher preta falando sobre conquistas e dando dicas sobre gestão financeira, atrai olhares e ouvidos de pessoas ávidas por conhecimento. Inspiração é isso.

“A receptividade do público negro é enorme, enorme. A gente pode sim falar de qualquer coisa.

O racismo não é um assunto que eu não falo na minha vida, sempre que precisar falar, que me perguntarem ou precisar palestrar, eu vou. No meu canal e eu não falo sobre isso. Eu falo sobre mudança. Poder fazer com que outras pessoas se identifiquem comigo.

Principalmente as muitas pessoas negras que seguem o canal e que tiveram uma trajetória de vida muito parecida com a minha, sabe?  Eu sempre tento ser muito vida real no canal. O máximo possível. Não romantizar as coisas, porque meu objetivo é realmente ajudar. Acho que quando você romantiza, você acaba alimentando a cabeça das pessoas com coisas que não são tão reais. Então, eu acredito muito que a inspiração venha daí, das pessoas poderem olhar pra mim e realmente identificarem algo real, algo que elas possam ser até. Por que não?”

O trabalho de Mari está auxiliando muita gente no processo de sair da casa dos pais

Ok, ok, ok, já sei que querem a minha opinião

Os efeitos da consolidação da internet como principal ferramenta de comunicação ainda estão sendo mensurados. Neste percurso de erros e acertos – descritos com perfeição na nova música de Gilberto Gil, Ok, ok, ok, uma coisa é fato, há espaço para todo mundo. Sobretudo para a produção de conteúdo inspiracional. Não existe uma fórmula perfeita para o sucesso e consequentemente a atração de investidores, entretanto há o consenso de que para ser bem aceito, é preciso trabalhar com profissionalismo e estar sempre atento para novas tendências.

“Acho que a gente inspira e cada vez mais pessoas negras entram no YouTube falando sobre diversas coisas”

“Cara, a internet mudou muito. É muito bizarro como em dois anos as coisas tenham mudado tanto. Eu fui percebendo que se não encarasse o YouTube como um trabalho, não ia dar certo, sabe?

O YouTube não é mais aquela zona de ninguém, de você subir um vídeo e ficar viral. Eu profissionalizei o meu canal e realmente encaro como um segundo trabalho. Isso foi muito empurrado pela própria plataforma.

Eu acho que demorei um pouco para perceber que o fato de ser uma pessoa negra, mesmo não falando sobre questões negras, ia me impedir de entrar em alguns lugares. É mais difícil as pessoas me darem uma chance. De me assistir por causa disso. Sinceramente, acho que seria mais fácil uma pessoa branca falando do mesmo assunto, sabe? Do ponto de vista tecnológico pra mim foi o que mais mudou. Um algoritmo não tem interesse no meu conteúdo e isso eu vejo”, pontua.

Mari e Gabi Oliveira são duas das principais comunicadoras do YouTube

Para Mari, não só o De Mudança, mas canais diversos no YouTube sublinham demandas de um público ansioso por se contemplado nas discussões da vida moderna. Dos assuntos considerados mais simples, aos mais complexos, não dá pra ignorar a demanda reprimida carregada por uma nova geração de pessoas.

“Eu não consigo nem dimensionar o quanto a representatividade representa. As pessoas têm que entender de uma vez por todas que ter negro na televisão, na publicidade não é pra preencher cota. É porque as pessoas que consomem precisam se sentir representadas ali.

Representatividade traz autoestima, você saber que é uma pessoa capaz de fazer as coisas. Existe um público ali que está ávido por esse tipo de conteúdo e por uma cara preta falando sobre diversos tipos de conteúdo. Então, eu acho muito importante. Eu me sinto muito fortalecida. Quanto mais pessoas negras estiverem falando sobre isso, colocando a cara pra falar, mais nos fortalecemos juntos.

O quanto eu puder ajudar nesse movimento, pra mim essencial, eu vou junto.  A gente é responsável por mudar a comunicação. Enquanto a gente tiver no poder, vai ter mais diversidade e mais empatia com o público consumidor. E eu acredito que isso muda o mundo e estou muito feliz por fazer parte disso”.

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Fotos: Reprodução/Facebook Oficial


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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