Debate

Estudantes de escola ao lado do Museu Nacional encontram e recolhem destroços

por: Kauê Vieira

O incêndio do Museu Nacional, aos poucos, revela pequenas histórias de pessoas que mesmo atravessando um momento difícil, lutam para manter viva a memória do lugar. Durante mais de seis horas, 20 milhões de itens que contam a história do Brasil foram perdidos em uma tragédia anunciada.

No ano em que completa dois séculos de existência, o Museu Nacional viu agravar os problemas de infraestrutura. Rachaduras, infestações de cupins e até animais mortos no teto colocavam em risco objetos como o crânio da mulher mais antiga que se tem notícia no  Brasil.

Bianka Vitória Cezar Simplicio é aluna do terceiro ano do curso técnico em dança na ETE Adolpho Bloch, que fica no bairro de São Cristóvão, ao lado do Museu Nacional. Em entrevista ao Hypeness, a jovem diz que desde o incêndio, a escola foi invadida por pedaços de documentos vindos do museu.

Está rolando na internet uma campanha para juntar os fragmentos de arquivos

Tinham cinzas pelo pátio da escola e dentro do prédio. Nós encontramos pedaços de um livro, manuscritos, alguns insetos soltos e um pedaço que tinha muitos insetos reunidos 

Os usuários nas redes sociais também estão mobilizados. Rodrigo Lima é aluno de pós-graduação e trabalhava com documentação histórica no Museu Nacional. Em conversa com o Hypeness, ele diz estar à frente de uma campanha para reunir os fragmentos, queimados ou não, carregados pelo vento.

“Eu compartilhei para as pessoas poderem visualizar, não esperava que fosse ser tão compartilhado. Afinal, eu trabalhava com documentação histórica do Museu”.

Entretanto, o pesquisador diz ser necessário um envolvimento maior da comunidade. “Poucas pessoas têm falado comigo, algumas postaram fotos no meu post, mas foram bem poucas. Ainda não há um destino certo para esse material, o que eu peço agora é que se possível guarde da melhor maneira possível e aguarde até que as coisas se organizem um pouco mais”, salienta.

Os fragmentos foram encontrados na escola próxima ao Museu Nacional

Bianka conta que, apesar de abalados, os professores estão organizando os fragmentos junto aos alunos. “Tudo que foi encontrado por nós e por outros alunos foi entregue à uma das professoras de biologia que se encarregou de reunir esse material e entrar em contato com a UFRJ para devolver”.

O incêndio mudou a vida de moradores das redondezas e frequentadores da Quinta da Boa Vista. Com alunos da ETE Adolpho Bloch, entre eles Bianka, não foi diferente.

Foi um dia atípico. Embora a iniciativa fosse manter as aulas, porque o incêndio já tinha sido controlado, dava pra sentir que o clima tava pesado, alguns professores estavam muito sensibilizados e chegaram a chorar. Por mais que a gente tentasse seguir, toda hora mais algum objeto era encontrado e nos lembrava do acontecido, lamenta.

Os documentos foram encontrados em uma escola próxima ao Museu Nacional

Rodrigo Lima, há pelo menos três meses presença frequente no Museu, diz que conviva com preocupações constantes sobre as condições de armazenamento das milhões de peças do palacete da Quinta da Boa Vista.

“É aquilo, nós sempre vivemos com o orçamento lá embaixo, setores enormes com milhões de documentos com poucas pessoas para trabalhar, material se deteriorando porque não existia a menor possibilidade de conseguirmos cuidar do acervo todo com o que tínhamos. O que víamos que estava muito ruim, colocávamos separado para ir para restauro, que também estava sempre com muitas coisas pra fazer”.

Durante o último ano, Rodrigo Lima fez especialização em geologia do quaternário no Museu Nacional. Ele manifesta o desejo de trabalhar com paleontologia e ao longo do curso de curadoria do material paleontológico, encontrava dificuldades no trabalho diário.

Já foi lançada uma campanha para reunir os itens perdidos

“Trabalhei com curadoria informacional, eu procurava documentos que pudessem me fornecer informações acerca dos fósseis presentes na coleção do Museu, por ser uma instituição muito antiga, haviam fósseis que estavam lá há tanto tempo, que as informações de procedência, quem coletou, até mesmo  de espécie do ser vivo não estavam mais disponíveis, fazendo os fósseis perderem muito importância científica”.

Além dos objetos históricos, como o esqueleto de 13 metros do dinossauro brasileiro, que viveu há mais de 80 milhões de anos, o incêndio no Museu Nacional atingiu o trabalho de cerca de 90 pesquisadores. Incluindo Rodrigo. Vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Museu Nacional era frequentado por alunos e pesquisadores dos programas de mestrado e doutorado.

Tenho amigos próximos que perderam todo o material de trabalho, tenho amigos que por sorte já estavam em uma etapa do trabalho em que ainda é possível continuar e tem gente que perdeu material, mas ainda dá para continuar. No meu caso, perdi todo material da minha pesquisa, os documentos todos, de 200 anos de Museu Nacional se perderam.  É por isso, que talvez, por menor que seja o fragmento, menor que seja a informação que as pessoas consigam reunir nesses pedaços um pouco carbonizados que estão voando pela cidade, são de fundamental importância.

Professores e alunos estão reunindo os materiais encontrados

Trocando em miúdos, as chamas comprometem também o futuro da pesquisa do Brasil, provocando rachaduras no processo de desenvolvimento social. Rodrigo Lima – matriculado na pós-graduação do Museu Nacional, reconhece as responsabilidades da UFRJ, mas chama a atenção para as responsabilidades da comunidade.

O que faz sentido, afinal em 2017 o número de brasileiros visitando o Museu do Louvre foi superior ao recebido pelo Museu Nacional. Segundo a assessoria de imprensa do órgão brasileiro, foram 192 mil pessoas em 12 meses. Já em Paris, 289 mil brasileiros passaram pelo Louvre, na França.

O Museu é uma instituição vinculada à UFRJ, mas a sociedade tem que perceber que o Museu é um espaço dela, acredito sim que a universidade vá dar o suporte, mas eu espero de coração que as pessoas se deem conta de que tá na hora de cobrar os direitos delas, o museu não era só meu espaço de trabalho, o museu era a minha casa, era a sua casa, vejo muita gente reclamando que nem conhecia o Museu. O nosso papel é exatamente esse de divulgar as informações. Acho que vamos ter ajuda da UFRJ e ajuda externa, já vi muitos museus se pronunciando em ajudar, muitas instituições, agora é esperar para nos reerguermos, reflete. 

No caso de Bianka, fica a sensação de tristeza por nunca ter tido a chance de conhecer pessoalmente o Museu Nacional.

É difícil traduzir em uma palavra, tem a dor da perda irreparável, a culpa de não ter conseguido tempo para apreciar e prestigiar. A sensação é de vulnerabilidade, porque se um pedaço tão importante da história nacional, latina e mundial não foi preservado, não consigo acreditar que a educação e a arte realmente serão valorizadas algum dia, finaliza.

Até o momento, os itens achados nas redondezas da Quinta da Boa Vista estão sendo encaminhados para o Laboratório de Conservação e Restauro do Museu Nacional, que fica em um anexo subterrâneo e não foi atingido pelo incêndio.

Se você mora nas redondezas do Museu Nacional e se deparou com fragmentos de documentos ou objetos que possam ter sido vítimas do incêndio, procure representantes da instituição ou o próprio Rodrigo. Cultura é uma construção coletiva.

Confira algumas imagens enviadas por Bianka para nossa reportagem: 

 

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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