Roteiro Hypeness

Feito 100% com material de demolição, complexo O Velhão encanta multidões em SP

por: Brunella Nunes

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Tudo o que vai, volta? Talvez o certo seria dizer que tudo o que é bom resiste ao tempo. Seguindo a ideia à risca, O Velhão é o que podemos chamar de gabinete de curiosidades e relíquias. Com cara de mini-cidade, esse pequeno império em plena Serra da Cantareira, em São Paulo, começou com um sujeito simples que viu a beleza e o verdadeiro valor naquilo que seria jogado fora.

Foi em meados de 1960 que o Rei da Sucata, personagem principal dessa história, o engenheiro mecânico Moacyr Archanjo dos Santos, começou a sua trajetória rumo a um verdadeiro reinado. Depois de trabalhar numa viação famosa em Presidente Prudente, acabou sendo transferido para atuar no almoxarifado da empresa, na capital paulista.

Na terra das oportunidades ele se encantou com a magnitude dos edifícios antigos como o Teatro Municipal. Do fascínio, veio o desejo de construir para si um palácio à altura. Enquanto caminhávamos entre os labirintos do Velhão, Ubiratã Archanjo compartilhava comigo as histórias de seu pai, que também teve outros dois filhos, Ubirajara e Eliane.

“Onde é hoje o Hospital 9 de Julho existia uma casa muito bonita, com um portão enorme de ferro, que estava para ser demolida quando meu pai passava por ali. Ele então combinou com o pessoal da obra de retirar, limpar e alojar as portas, janelas e até os tijolos para reaproveitar. Assim começou tudo. O meu pai democratizou os materiais de demolição nobres no Brasil.”

De fato, até hoje o relicário só trabalha com aquilo que seu Moacyr julgava ser “material artístico”, como Peroba Rosa, Pinho de Riga e Cabriúva. Ele comprou então um terreno de 3 mil m² para montar seu lar rodeado de natureza e uma oficina. De início, O Velhão funcionava apenas como loja, onde eram vendidos os tesouros que encontrava em demolições de casas, mansões e galpões.

Na foto, um dos primeiros portões que Moacyr pegou para si; abaixo, o filho Ubiratã na serralheria, onde hoje são restaurados e refeitos portões, janelas e pórticos

Como não há reinado que perdure sem uma rainha, é a matriarca da família, Dona Iracema, que administra o local até hoje. Ela contou ao Hypeness que ao lado de Moacyr ergueu, tijolo por tijolo do complexo, no qual absolutamente tudo  —  incluindo mesas, cadeiras e armários  —  veio de material de demolição. Boa parte das coisas estão à venda, sendo bem comum a retirada de portas e portões de ferro.

A ressignificação de materiais foi parte do trabalho da dupla desde o início, quando eles começaram a entrar no viciante garimpo de sucata.

“A gente gostava de ir no ferro velho porque lá encontrávamos bastante coisa legal. Víamos que teriam outra utilidade e criamos muitas coisas juntos”, contou, relembrando sua trajetória.

“Antigamente todo mundo jogava as coisas fora, achava que era lixo, que não prestava para nada. Na época, não tinha quem fizesse esse tipo de trabalho de restauração. Hoje vemos quanta coisa bonita é feita com o que seria descartado. É muito interessante ver essa mudança. Eu sou muito encantada com esse material”, completa ela.

O deslumbre é tamanho que até mesmo a casa onde vive poderia ser uma extensão do Velhão, segundo ela. “Se eu faço para os outros e não vivo disso, estaria sendo falsa. A gente só faz bem feito quando gostamos pra gente, aí sim levamos para os outros coisas de qualidade”.

Com o passar dos anos, o espaço aumentou para 57 mil m². O complexo foi ganhando cada vez mais fama por suas características únicas e por conta do restaurante, batizado de “As Véia”. Servindo comida de fazenda no fogão a lenha, dali sai almoço de domingo a domingo, além de café da manhã aos finais de semana e feriados. São 680 lugares, dos quais ao menos 400 são ocupados entre sábados e domingos. Conta também com uma cachaçaria, uma cervejaria, uma pizzaria, um bar de sinuca e outro de música ao vivo.

De tijolinhos à vista, a aparência é um misto de vilinha italiana e industrial, com aspecto rústico devido às sucatas que o permeiam. Aliás, sucata nada. São verdadeiras joias que nem o tempo conseguiu apagar. Na era onde tudo é descartável, chega a dar até um conforto no coração ver que tanta coisa pode ganhar novos significados, adaptações e donos.

Engajamento social

Por ser afastado da região central de Mairiporã, o acesso à saúde e educação no entorno era difícil, até que os Archanjos resolveram ceder um terreno de 20 mil m² logo em frente para a construção de uma capela, um posto de saúde, em 2003, e de uma escola pública, em 2005, que atende 200 crianças com idade de 3 a 10 anos.

“Cedemos graciosamente o local, sem cobrar aluguel ou qualquer valor da Prefeitura. O acordo é de que eles administrem, enquanto nós pagamos os impostos, oferecemos quatro micro-ônibus para transporte e mandamos água para o posto e a capela”, explicou Iracema.

Quando montaram uma marcenaria dentro do complexo, passaram a oferecer capacitação de restauração para jovens em situação vulnerável, projeto mantido até hoje, com expansão para as atividades da serralheria. As atividades geram renda para até 35 pessoas, contando com a cozinha do restaurante. A administradora ressalta que a ideia do projeto como um todo já havia sido pensada juntamente a do marido. “Tudo o que foi feito aqui envolve nós dois. Quando ele faleceu, apesar das dificuldades, eu quis dar continuidade. Já estou com 75 anos e não penso em desistir de nada do que está aqui. Meu objetivo é seguir em frente”, filosofou.

Seu Moacyr deve estar orgulhoso de ver, de forma material e imaterial, a beleza da permanência, a fluidez da continuidade, dos negócios à grande família que já deu até bisnetos para Iracema. Aparentemente, o lugar pitoresco a apenas 15 minutos da Zona Norte da cidade não tem a pompa dos grandes castelos ou a riqueza palpável dos palácios. Mas luxo é algo relativo, e o lixo, também.

 

Reciclar é tão importante que pode ser capaz de erguer castelos. Até uma simples lata de alumínio pode ser reaproveitada, ou melhor, principalmente ela. No Brasil, a taxa de reciclagem de 97,7% faz com que as latas de alumínio possam voltar ao mercado em aproximadamente 60 dias após seu descarte. Contando com a ajuda de catadores e pessoas conscientes, o material torna o país campeão mundial em reciclagem de latinhas, proporcionando ainda a redução de 95% das emissões de gases de efeito estufa quando comparado ao processo de produção do alumínio primário.

Esse ciclo sustentável é o foco do movimento Vá de Lata – criado pela Ball, maior fabricante de latas do mundo – que promove o uso e reciclagem das latas de alumínio, a embalagem mais confiável e amiga do meio ambiente. A segurança como embalagem é garantida pois o material isola a bebida dos raios ultravioleta e do oxigênio, não prejudicando sua integridade e sabor.

Por acreditar em um consumo com menos lixo e mais consciência, o movimento Vá de Lata dissemina informação e promove conscientização em seus canais de comunicação e em diversas ações espalhadas pelo Brasil.

Saiba mais sobre o assunto no Instagram e no Facebook do Vá de Lata!

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Fotos: Brunella Nunes


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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