Desafio Hypeness

Fiquei um mês sem Netflix e percebi que não me falta tempo, eu só uso ele muito mal

por: Helena Bertho

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A ideia de passar um tempo sem ver Netflix veio depois de um dia de semana qualquer em que decidi ver um episódio de Orange is The New Black na hora do almoço e acabei passando o resto do dia na frente da TV. Matei a temporada, mas deixei bem viva e atrasada a lista de trabalhos do dia e, como era sexta, precisei desmarcar um monte de compromissos e passar o sábado trabalhando.

Nada grave. Mas, convenhamos, também nada inteligente, né? Mas o pior: nada raro na minha vida. Perdendo meu sábado na frente do computador, comecei a questionar se minha relação com as séries andava saudável e decidi me propor o desafio de ficar longe delas por um mês. Achei que seria moleza. Mas não foi bem assim.  

Um vício de longa data

Ver séries é um hábito na minha vida desde bem antes do Netflix existir. Começou com o advento da pirataria e o sucesso de Lost, a primeira grande série a me pegar na maldição do gancho: aquilo que te faz precisar desesperadamente ver o episódio seguinte.

Naquela época, baixar série dava trabalho (quem nunca pegou um vírus assim?) e o episódio seguinte levava uma semana para chegar. Então, por mais que eu gostasse, não dava pra exagerar tanto assim.

Acho que meu primeiro binge watching (ou fazer maratona, em bom português), foi com Breaking Bad. Quando descobri, a série já estava na terceira temporada e lembro que passei um fim de semana inteiro na cama, com pipoca e chocolate, vendo as duas primeiras.  

Tinha várias outras que eu acompanhava religiosamente. Elas eram tão, mas tão importantes para mim, que decidi que queria fazer séries e me matriculei em uma pós-graduação em roteiro.

Daí veio Netflix (fui checar, assinei em novembro de 2011), colocando à minha disposição temporadas e mais temporadas de séries antigas e, um tempo depois, novas temporadas lançadas com todos os episódios numa tacada só. Simplesmente ficou MUITO fácil ver cinco ou seis episódios de uma vez e isso virou um hábito.

Culpa de ter tempo livre?

Naquela época, eu achava que ver série era algo muito descolado. Que estimulava a criatividade, me fazia pensar sobre diversos assuntos e me mantinha antenada. Para mim, era completamente diferente da minha mãe que todo dia ligava a TV na Globo às seis da tarde pra ver novela e desligava depois das 22h.

Imagina que eu seria só mais uma mente se alienando diante de uma grande companhia de mídia (como a gente se engana, né?). Minha relação com as séries, sem dúvida, era ativa, eu escolho o que vejo, reflito sobre o conteúdo, etc e tal. Tá bom, senta lá Cláudia.

Minha primeira semana longe da TV já veio com tudo para mostrar como eu estava errada. E a primeira percepção que ela trouxe foi: eu não vivo sem tempo, só uso ele mal pra caramba.

Sou a típica paulista, que vive sem tempo pra nada, sempre fodida e devendo umas horas pra família, pros amigos e pra minha própria saúde. Engraçado é que, apesar de estar sempre fodida, estava sempre em dia com as novas séries. Normalmente, nunca levava mais de uma semana para matar a recém-lançada temporada de qualquer coisa.

Então nos primeiros dias Netflix-free me deparei com algo novo: um enorme vazio de tempo que eu não sabia preencher.

Mas sabe o que é pior? É que ao invés de ficar feliz com o tempo livre, ele começou a me angustiar. Vendo TV, eu não reparava que estava à toa. Sem ela, comecei a ter de encarar o tempo ocioso e algo muito bizarro que veio com ele: a culpa por não estar produzindo.

Abracei meu direito ao ócio

Por que eu não posso ter tempo livre e de lazer? Eu preciso estar produzindo 24 horas por dia?  

Acho que essa é uma questão que todos nós devemos ter de alguma forma. A gente vive num mundo que cobra produtividade, muita produtividade. Aquela coisa da disputa: “nossa, essa semana virei a noite trabalhando todo dia”, “eu estou pior, não tenho tempo nem pra comer”, e por aí vai…

 

O Netflix só me ajudava a não pensar sobre essa paranoia.  

Agora eu estava me deparando com horas e horas nas quais podia fazer o que quisesse e, ao invés de fazer isso, ficava remoendo a culpa. Que loucura, né? Isso durou uns dias. Até que eu decidi que, já que não estava escrevendo o novo Harry Potter de qualquer forma, era melhor pensar em algo para fazer como o ócio.

Mas o que eu queria fazer? Minha primeira reação foi tentar marcar rolês com amigos, mas nem sempre tinha gente disponível e, bem, sair em São Paulo custa caro. Não dá pra fazer todo dia, né?

Precisava pensar em como ocupar meu tempo sem ir à falência.

Nunca li tanto na minha vida

O Kindle foi meu grande companheiro para sobreviver a esse mês

Daí vem uma outra questão, pelo menos para mim, as séries não só preenchiam meu tempo, mas preenchiam meu tempo de uma forma muito passiva. Era só apertar o play, deixar a história me levar e esquecer da vida.

Agora eu precisava fazer escolhas e agir para usar esse tempo livre. Decidi ler mais. Fazia tempo que eu achava que andava lendo pouco, seria uma boa forma fazer a substituição, contando ainda com ficção pra me ajudar a desligar do mundo real.

Porque já no segundo dia eu já estava bem ciente que a TV também cumpria um papel de me levar pra realidades paralelas, vidas mais interessantes que a minha e, por algum tempo, esquecer dos problemas reais. Não dava para abrir mão por completo dessa necessidade de alienação.

Desatei a ler então, praticamente em todo o tempo que via séries. Fato: nunca li tanto na minha vida. Dois ou três livros por semana!

Pedi indicações para amigos, peguei livros emprestados, comprei alguns e descolei PDF de outros.

Por mais que tenha me restringido à ficção, ler é muito diferente de ver série. Na TV tudo está ali, entregue para você, não sobra espaço para a imaginação. Na verdade, até o ritmo é imposto. Com o livro não, metade do trabalho está ali, escrito, a outra metade cabe à sua cabeça. Formar as imagens, imaginar a aparência dos personagens e dos cenários, e escolher como vai ler. Dá para parar entre um parágrafo e outro para pensar sobre as palavras e isso faz toda a diferença.

E por isso mesmo, por exigir mais de mim, ler também cansa mais rápido. Por mais interessante que seja a história, para alguém que trabalha lendo e escrevendo o dia todo, alguns dias simplesmente não conseguia ler mais do que uma ou duas horas.

Minha saúde agradece

Até comecei a fazer exercícios!

Isso quer dizer que, na minha vida “tão corrida”, ainda sobrava algum tempo livre. O que me possibilitou estar um pouco mais disponível para os amigos e também para mim mesma. Comecei, por exemplo, a fazer academia. Algo que vivia adiando porque “não dava tempo”.

Em geral, também passei a sair mais de casa. Às vezes simplesmente ligava para alguém, procurando companhia para dar uma volta, ou ia passear sozinha.

Acho que minha saúde agradece!

A recaída

Mas nem tudo são flores. Depois de pouco mais de 20 dias sem ver um episódiozinho sequer, tive uma recaída.

Era um domingo. Domingos são os piores dias para mim. Costumava ser o dia da semana de passar com o boy, em casa, descansando, curtindo uma ressaca e tal. E como me separei há pouco tempo, ainda costuma ser um dia bem solitário. Normalmente estou com ressaca demais para ir aos almoços de família ou para passear, então acabo ficando em casa, deprimida.

Nesse domingo estava chovendo e frio. Enquanto jurava que nunca mais ia beber de novo, tentava decidir se comia miojo ou pedia um hamburguer, e repensava todas as minhas decisões, vi que tinha entrado no Netflix a temporada 14 de Grey´s Anatomy. Daí decidi ver só um episódio, pra me distrair.

Corta para 14 horas depois. Vi meia temporada e passei o dia todo na mesma posição. Encontrei um belo jeito de não ter que encarar a minha tristeza. E percebi que as séries funcionam muito bem como um anestésico, o que até pode ser legal de vez em quando. Mas não quero passar minha vida anestesiada, né?

Com dor nas costas de ficar tanto tempo na cama, na segunda estava me sentindo derrotada e fiquei na dúvida se dava o desafio por encerrado. Mas decidi aceitar a falha de um dia e continuar na missão. E assim, cheguei até o último sábado sem ver mais nada, totalizando 30 dias menos um sem Netflix.

Para celebrar a conquista, vi a metade da temporada que faltava de Grey´s Anatomy.

Dá para ser dependente de seriados?

Durante todo esse tempo, eu fiquei me questionando se seria viciada em séries ou se existe isso. Para checar, liguei para o Dr. Cristiano Nabuco, psicólogo do Grupo de Dependências Tecnológicas da USP. Ele me disse que ninguém ainda estou as séries especificamente, mas que acreditava que sim, pode existir dependência. “O nosso cérebro é suscetível a se viciar a qualquer comportamento que você repita por muito tempo. Ele rapidamente passa a ocupar um papel importante, porque existe a liberação de dopamina”, explicou ele. Dopamina é o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer.

Mas, de acordo com a explicação dele, eu ainda não sou dependente. Ela considera que existe o vício quando isso passa a atrapalhar outras áreas da vida, como a social ou profissional. Apesar de andar exagerando, nunca deixei de entregar um trabalho para ver Netflix. Mas para quem se enquadra na dependência, é preciso tratamento.

Não quero viver anestesiada, mas de vez em quando é bom

Acho que, no fim das contas, esse um mês (menos um dia) sem Netflix me fez muito bem. Não quero deixar de ver séries por completo, mas parei para refletir sobre o uso que faço do meu tempo. Não, eu não quero ser aquela pessoa que produz 24 horas por dia. Mas também não quero ser a pessoa que passou a maior parte do tempo em que não estava trabalhando anestesiada diante de uma TV.

De vez em quando uma anestesiazinha vai bem, mas é preciso moderação. Para isso, decidi me colocar limites: não posso ver mais do que dois episódios de uma vez. Assim vai sobrar tempo para ler, malhar, ver gente e, principalmente, viver com a sensação – com a qual estou cada vez mais acostumada – de que tenho tempo para fazer o que eu quero.

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Helena Bertho
Jornalista e roteirista, é apaixonada por boas histórias e acredita no poder da informação de mudar o mundo. Gosta de falar de diversidade, sexualidade, direitos humanos e gênero. Não perde uma chance de passar vergonha e acredita que todo jornalismo deva ser feminista.

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