Matéria Especial Hypeness

Go Diáspora: baiana cria agência para racializar o turismo, “quero propor uma imersão entre cultura e história”

por: Kauê Vieira

O Ministério do Turismo aponta que o Brasil possui ao menos 58 mil empresas cadastradas nos bancos de dados. Recorde, é que diz o órgão federal, apontando que desde 2015, 4 mil novas empresas foram contempladas no cadastro, representando um acréscimo de 7%.

Neste universo de agentes sedentos em escolher o melhor destino para a viagem dos seus sonhos, você já parou para pensar onde entra a diversidade? Não se trata apenas de pensar a questão racial – embora ela ocupe um espaço importante na reportagem. Na verdade, de que maneiras a monocultura de destinos e concentração de agências nas mãos de um mesmo perfil aumentam ainda mais as dificuldades de carimbar o passaporte?

Quer dizer que viajar no Brasil é ‘coisa de rico’? Bom, tirando raras exceções, sim. A máxima se comprova em um levantamento promovido pela revista Viagem e Turismo, em parceria com o Núcleo de Turismo da Abril Mídia. Dos mais de 6 mil leitores viajantes de 17 estados ouvidos pela publicação, 48% pertenciam à chamada Classe A. Nem é preciso dizer que o quesito raça não foi levado em consideração no estudo. Aqui pra nós, isso se resolve com um passeio no saguão de um aeroporto brasileiro.

Não existem registros oficiais sobre o número de viajantes negros no Brasil

Com intuito de racializar e contribuir para a mudança do cenário atual, nasce a Go Diáspora, agência de intercâmbio especializada em países africanos. Fundada pela baiana Sauanne Bispo – graduada em estatística e com larga experiência no mercado turístico, a companhia une experiências pessoais de uma mulher negra viajante para não só democratizar os aeroportos, mas, sobretudo, afirmar o perfil contemporâneo do negro brasileiro.

Eu queria fazer coisas com a minha cara, então foi aí que descobri  o intercâmbio. Era minha paixão. As pessoas me procuravam pra isso e eu consegui prestar um serviço de excelência. Foi assim que eu me descobri uma empresária do ramo de intercâmbio. A Go Diáspora veio para que eu deixasse de ser uma exceção no quesito negra que viaja e fala outros idiomas. Veio para que eu pudesse formar um mutirão de gente e passasse a ser regra, explica a empresária soteropolitana em entrevista ao Hypeness.

A Go Diáspora foi fundada em 2015, mas como a própria Sauanne destacou, “eu já não sou tão nova assim e tenho muita experiência no mercado”. Para chegar aqui foi preciso romper barreiras, inclusive as impostas por uma insistência institucionalizada de olhar para o mundo a partir do Norte.

“Eu sempre fui uma aluna muito aplicada. Durante a graduação de estatística já me identificava muito com a área de economia e sabia que queria fazer mestrado em econometria.

Até que um dia, uma professora chegou e falou que tinha passado as férias na Disney e que seria interessante pra gente aprender inglês por causa do mestrado e da experiência em si. Foi aí que eu busquei a modalidade de intercâmbio. Mas eu estava tão voltada para o inglês no mestrado, que eu não me percebia no mundo.

Fui para os Estados Unidos e trabalhei no McDonald’s. Fiquei três meses nessa modalidade de intercâmbio. No Brasil tive dificuldades com a repatriação e minha mãe, percebendo a minha tristeza, falou de uma empresa de Santos que estava em Salvador recrutando pessoas para trabalhar em navio cruzeiro. Me inscrevi e fui trabalhar durante 9 meses”, lembra.

“Diáspora é a dispersão de povos do seu local de origem em busca de exílio”

Como diriam os Novos Baianos, ‘vamos para o mundo’. Daí em diante, Sauanne percebeu que sua vocação era conhecer novas culturas. Após o período no navio, a baiana se mudou para Nova Délhi, na Índia, onde trabalhou com pesquisa de mercado em uma multinacional. Era a reafirmação da paixão pelo intercâmbio.

As andanças pelo mundo proporcionaram para a empresária a chance de conhecer 23 países de culturas e regiões diferentes. Tirando a Rússia, onde Sauanne afirma ter sido vítima constante do racismo, as outras nações foram fundamentais para a construção da Go Diáspora. No entanto, ela reconhece que nada foi tão impactante quanto pisar pela primeira vez em África.

No continente africano eu quero, realmente, conhecer todos os 54 países. É uma sensação muito boa de retorno. Sem exageros, porque na minha criação, se parar pra pensar meu nome, Sauanne, é um nome que remete ao continente africano. Eu tenho primas que se chamam Namíbia, Quênia, então a cultura africana é algo que esteve presente na minha família. Eu não me descobri negra, sempre soube que eu era. Então, poxa, a primeira coisa que eu fiz, o primeiro país do continente africano que eu pisei foi Cabo Verde

Sauanne Bispo já conheceu 23 países

Sauanne Bispo conta com empolgação os sentimentos gerados em encontrar pessoas negras ocupando cargos diversos na sociedade. Diferente do Brasil, onde persiste uma prática excludente e que coloca o afro-brasileiro invariavelmente em posições subalternas em África, mesmo com a dificuldade enfrentada por algumas nações, a situação é bem diferente.

“Poder enxergar pessoas negras em outras posições, em outras condições. Não só as condições que são passadas na mídia, que a gente até vê nos livros, mas cara, que sensação boa. Você pensa, ‘não é bem assim não’ (risos).

Definitivamente a África do Sul é meu país no mundo, apesar de acreditar que quando eu pisar em Gana vai rolar um match.

Mas a África do Sul, Kauê, é meu lugar no universo. Eu amo a Cidade do Cabo e a gente tem uma conexão muito forte. Fiz viagens para conferências na África do Sul e aumentei minha estadia, vistei projetos, palestrei, fiz parceiros, fiz amigos. Convivi com vizinhos, saí da rota turística. Me senti em casa na África do Sul. É minha casa, cara”.

Apesar do relato empolgante de Sauanne, a África do Sul, distante 9 horas de voo da costa brasileira, ainda é pouco explorada por turistas deste lado do Atlântico. É preciso reconhecer que o cenário vem aos poucos se transformando e segundo pesquisa da South African Tourism, escritório do turismo sul-africano, o país registrou aumento de 176% no número de visitantes brasileiros em junho de 2017.

Foram mais de 32 mil pessoas curiosas em conhecer um pouco da história da humanidade, como Joanesburgo, onde fica o bairro de Soweto – lugar em que Nelson Mandela viveu, ou as belezas de palcos paradisíacos como a própria Cidade do Cabo e Durban.

Entretanto, em comparação com destinos como a Disney, os números apresentados pelos órgãos sul-africanos são irrisórios. No ano de 2016, os Estados Unidos receberam mais de 1 milhão de brasileiros, sendo que 87% deles se dividiram entre Orlando (sede da Disney), Miami e Nova York.

O continente africano ainda é desconhecido da maioria dos brasileiros

Com a Go Diáspora, Sauanne Bispo pretende transformar este panorama. Além de incluir os negros na brincadeira, a empresária tem como objetivo descentralizar o turismo e acabar de vez com a imagem estereotipada de África, disseminada há séculos mundo afora.

“A intenção era possibilitar a mesma sensação que eu tive nos países africanos para outras pessoas. Eu amei minha experiência e saí um pouco do comum. De acordo com a Associação Brasileira de Agências de Intercâmbio, em 2017 foram mais de 325 mil pessoas embarcando para um experiência no exterior, sendo que mais de 50% foram para Canadá, Estados Unidos e Inglaterra. Todo mundo indo para os mesmos lugares. Lugares também com comunidades negras, ou seja, também diaspóricos.

A Go Diáspora está aberta para todos os públicos, mas aquele público negro que percebemos que viaja menos, quando puder viajar, eu não quero que tenha uma experiência como eu tive na Rússia. Quero propor uma imersão entre cultura e história.  O que tem se tornado cada vez mais forte nos estudos aqui, que é a história africana.

Nossa, se você quer estudar inglês, vai para Inglaterra? Por que não ir para África do Sul? Por que não não ir para Gana? Além disso, existe o fator financeiro. A população negra brasileira tem uma remuneração inferior aos brancos e isso é comprovado por pesquisas”.

A chave é descolonizar o olhar. Longe de depreciar ou não reconhecer a riqueza e importância cultural dos chamados países de primeiro mundo, no entanto, você já parou para pensar no tamanho da diversidade e abundância cultural oferecida por um continente de 54 países?

Existe um turismo viciado apenas num pequeno grupo de países

“Eu vou apresentar algo que tenho certeza que nenhuma agência apresenta. Um olhar diferente sobre o país. Não é possível que a África seja só fonte de pobreza. Não é. As realezas existiram e existem no continente africano. Não é algo exclusivo da Inglaterra, sabe? É a necessidade de acabar com a mesma fantasia que muitos tem de que no Brasil todos vivem na Amazônia”, aponta.

Na última década o Brasil intensificou o contato com países de África e em 2011 possuía a quinta maior presença diplomática no continente. Ainda é pouco. Afinal, o que chega para a maioria da população são as mazelas. O que exatamente não reflete a realidade, por exemplo Adis Abeba, capital da Etiópia, é considerada o centro cultural da África. Além de sede da União Africana, a cidade com mais de 3 milhões de habitantes, possui 100 embaixadas internacionais, ficando atrás apenas de Londres, Nova York e Washington.

Sem contar as similaridades culturais entre os países africanos, especialmente os da África Ocidental, com o Brasil. A ligação está presente no vocabulário. Calcula-se que entre 200 e 300 línguas foram trazidas de lá pra cá. Samba, capenga, banguela, fubá, são algumas delas.

Adis Abeba é um dos centros financeiros e culturais de África

“É fantástico a gente poder perceber as relações que existem entre as culturas dos diferentes países. A gente conversar com o nigeriano e perceber ‘nossa, na Bahia a gente tem o acarajé. Na Nigéria é o acará’. ‘Aqui a gente tem o abará, lá moi moi’. Perceber o feijão de leite com moqueca de peixe pra comer na semana santa também lá. As semelhanças reforçam que não é uma coisa vinda do nada. É diferente de ler nos livros ou em qualquer outro lugar. Isso enriquece e inspira. O peso é estimular pessoas negras a viajar e a olhar para o continente africano ou os países diaspóricos como locais para o aprendizado do idioma, da história e cultura”, pontua Sauanne.

O perfil do turista

A inserção de exemplos como o da Gó Diáspora em um meio tão elitizado como o turismo, servem de alicerce para a democratização do verbo viajar. Embora exista a ausência de números concretos sobre a relação entre pessoas negras com o turismo, é possível traçar uma linha de pensamento e concluir que sim, no Brasil, quem pode viajar são pessoas brancas e com dinheiro no bolso.

Em pleno 2018, entrar em contato com costumes diferentes é um privilégio ou uma consequência de quem enfrenta obstáculos para ganhar a vida em outro país. Afinal, quais são as políticas de incentivo à diversidade no campo turístico?

O turista branco tem vários privilégios no quesito tratamento. O turista negro em muitos lugares, principalmente aqui no Brasil, não é visto como cliente em potencial, apesar da grande movimentação monetária da população negra. Enquanto isso acontece aqui no Brasil, em outros países onde existe essa semelhança no aspecto físico, a gente se sente parte daquilo. É inquestionável o fato do branco ser ainda considerado a galinha dos ovos de ouro. Eu já me hospedei em hoteis de luxo aqui no Brasil participando de conferências internacionais e fui tratada como turista. As pessoas vinham falar comigo em inglês. Por quê? Porque uma mulher negra brasileira não poderia estar naquele lugar. Então, é puxado falar disso. Eu, enquanto mulher negra para estar num hotel de luxo, tinha que ser automaticamente uma estrangeira.

Os desafios são grandes e o processo lento. Os resultados deste levante ainda estão para serem colhidos, mas para a Go Diáspora, o lema é propor um tratamento diferente e que traga consigo as disparidades proporcionadas pela desigualdade social.

Por isso, a agência se preocupa em integrar as comunidades periféricas ao seu redor e manter diálogo com outras empresas capitaneadas por pessoas negras. Sauanne revela que a participação em rodadas de negócios propostas pela aceleradora Vale do Dendê são de fundamental importância para o estabelecimento da Go Diáspora. Assim como acontece nos Estados Unidos, a ideia é fazer o dinheiro girar entre pessoas pretas.

Eu estive presente com mais de 10 embaixadores de países africanos. A gente conseguiu criar uma relação mais mais madura. Uma coisa mais objetiva, mais identitária. A própria mensagem do Go Diáspora no questio ‘vá e aprenda outro idioma’, ‘vá, é possível pra você também’. As nossas relações com instituições que viabilizam e facilitam a experiência para que ela seja realizada. Hoje, a Go Diáspora não deixa a pessoa comprar passagem com outra empresa, se preocupar com câmbio. A gente se preocupa com tudo isso. As coisas que foram mudando de 2015 pra cá. O próprio processo de aceleração na Vale do Dendê me permitiu perceber a importância se trabalhar com a Go Diáspora, tirar ela da gaveta e maturar o meu plano de negócio e partir pro ataque. A gente é carente disso e quem vai ofertar se não a gente mesmo?

É a partir de exemplos positivos e inspiradores que se faz a força. Com o crescimento de testemunhos de pessoas negras e de classes sociais menos favorecidas desbravando o mundo, a semente da representatividade ganha corpo para, no futuro próximo, se transformar em um lindo baobá.

“Eu acho que estamos nos tornando cada vez mais conscientes da nossa ocupação. De que nós podemos ocupar qualquer que seja o espaço. Daqui há 10 anos a gente vai ter…eu nem digo um movimento de pessoas negras viajando, eu acho que esse movimento chega antes. A gente consegue projetar para os próximos cinco anos. Mas para os próximos 10 anos, as crianças vão estar curtindo uma nova Disney. As crianças negras não vão idealizar apenas o Mickey Mouse, porque isso aí é o que já tá inserido na nossa cultura. Elas também vão querer ouvir histórias de princesas, reis e rainhas oriundas do continente africano. Vai vir uma geração da nova Disney. E eu tô dentro, porque a gente quer pregar isso aí mesmo.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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