Matéria Especial Hypeness

Incêndio no Museu Nacional é ataque à educação pública e à cultura no Brasil

por: Kauê Vieira

Durante mais de seis horas, parte considerável da história do Brasil e do mundo se esvaiu junto com as cinzas de um incêndio de proporções gigantescas. O Museu Nacional, criado há exatos 200 anos, na Quinta da Boa Vista, perdeu todo o seu acervo na noite do último domingo (2).

As imagens são difíceis de digerir. A força das labaredas, acompanhadas pela estátua do imperador Dom Pedro II, representam a grandeza do processo de desmonte capitaneado pelo poder público contra a cultura e educação brasileira.

O Museu Nacional está vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi criado por Dom João VI em 6 de junho de 1818. O então Museu Real foi inicialmente instalado no Campo de Santana, reunindo o acervo legado da antiga Casa de História Natural, criada em 1784 pelo Vice-Rei Dom Luís de Vasconcelos e Sousa, além de outras coleções de mineralogia e zoologia.

A instituição foi pensada para atender aos interesses de promoção do progresso sócio-econômico do país por meio da difusão da educação, cultura e da ciência. No século 19, ganhou notoriedade por ser o mais importante museu do gênero nas Américas.

O Brasil acordou órfão de um pedaço enorme de sua história

“O Museu do Louvre tem 226 anos. O Museu Nacional tem 200. Isso mostra como o contexto da sua criação era de contemporaneidade com o que estava sendo feito. Os museus antigos deveriam ser uma preocupação republicana. Apesar de ter sido feito na época da coroa, ele (Museu Nacional) carregava valores de democratização, do acesso à cultura, ciência e educação”, explica em entrevista ao Hypeness o arquiteto e atualmente professor nas Universidade São Judas Tadeu e Universidade Presbiteriana Mackenzie Vasco Caldeira, que durante 12 anos foi gerente do MASP, autor também do projeto museográfico do Museu da Língua e Museu do Amanhã.

A importância se refletia no acervo. Foram cerca de 20 milhões de objetos, todos consumidos pelas chamas. Entre os destaques estava o fóssil da brasileira mais antiga que se tem notícia. Os restos mortais de Luzia, que viveu entre 11 e 13 mil anos atrás, foram encontrados na década de 1970, em uma gruta no sítio arqueológico de Lapa Vermelha, na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais.

A missão, coordenada pela franco-brasileira Annette Laming-Emperaire e pesquisadores do Museu Nacional, deu força ao debate teórico sobre as origens do homem americano. A presença de Luzia, ao lado de elementos com o Trono do Reino do Daomé, presente recebido por Dom João IV entre 1810 e 1811, reforçam a vocação para pesquisa do espaço.

Entretanto, a comprovação do potencial de proporcionar o desenvolvimento social por meio da educação não foi suficiente para evitar sua deterioração. Para funcionários e frequentadores, o incêndio no Museu Nacional era uma questão de tempo.

A estátua de Dom Pedro II presenciou o resultado da negligência

Ironicamente, o relógio parou de girar justamente no ano do bicentenário do prédio. Em junho deste ano, o Museu Nacional celebrou 200 anos. Sem chamar a atenção das autoridades, as comemorações refletiram sua decadência. Aliás, não é de hoje. O museu, que já foi visitado por Albert Einstein, recebeu há mais de 60 anos a visita do último estadista brasileiro. Juscelino Kubitschek esteve lá em 1958.

“Fui aluna de mestrado e doutorando do programa de antropologia  social. Falo do meu lugar. Os problemas causados pela falta de recurso, como o corte de bolsas, eram visíveis.

Uma amiga estava falando sobre o cheiro forte de bicho morto que vinha do teto de uma sala de aula. Era um espaço de difícil acesso e isso acontecia o tempo todo,

contou em conversa com o Hypeness Carolina Castellitti, aluna de mestrado e doutorado do programa de antropologia e arqueologia do Museu Nacional entre 2012 e 2018.

Algumas pessoas apontam o governo de Michel Temer como grande responsável pelo desmonte. De fato, durante a gestão do pmdebista, cultura e educação sofreram golpes. Apenas nos últimos dois anos, foram cortados cerca de 60% dos recursos pelo Ministério da Educação (MEC) e pela UFRJ, responsável pela gestão do museu.

Todavia, pode-se dizer com segurança que estas nunca foram prioridades da administração pública brasileira. Para Vasco Caldeira, com envolvimento direto na recuperação do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, a questão vai além de responsabilizar o poder público.

“A questão não é apenas de governos. Nem dos anteriores, nem dos futuros, nem do atual. A questão é da sociedade brasileira e de cada um dos seus membros. Quem é responsável? Nós todos, mas não individualmente. Apenas na forma de relação que estabelecemos uns em relação aos outros. O nosso ser social. A nossa dimensão coletiva”, salienta.  

Em nome do progresso

O Brasil atravessa um dos momentos mais delicados de sua história. Com mais de 12 milhões de desempregados, o país tenta sair de uma situação caótica. Em 2018, brasileiros assistiram com surpresa ao movimento liderado pelos caminhoneiros. Insatisfeitos com as condições de trabalho, eles resolveram cruzar os braços. O resultado de alguns dias de paralisação foram catastróficos e a falta de habilidade do governo Temer em negociar com os grevistas cobrou um preço alto. Quem vai pagar o pato?

A revista Carta Capital publicou matéria mostrando que para compensar a queda de 42 centavos no preço do diesel, o governo federal vai tirar mais de R$ 200 milhões de iniciativas na educação, saúde e reforma agrária. Some isso ao congelamento por 20 anos dos investimentos em cultura e educação e voilà, a destruição de um patrimônio histórico inestimável.

O mundo do progresso onde cultura e educação são colocadas em segundo plano

“Estou sem chão. Esses cortes, esse ataque à educação pública vem sendo muito insistentes nos últimos anos. A gente está se mobilizando, só que a pesquisa, em geral, especificamente aqui no Rio de Janeiro, enfrenta a crise de financiamento do Estado, da FAPERJ, bolsas cortadas, editais não cumpridos.

Então, o ataque vem de várias frentes e agora essa última bomba. Realmente, parece que querem destruir a pesquisa e a educação pública. Sem falar que o Museu Nacional, por causa da localização, era um espaço marginal”, complementa Carol, que esteve no ato realizado por estudantes, funcionários e defensores do Museu Nacional.

Durante a gestão de Marcelo Araújo, que pediu exoneração do cargo de presidente do Instituto Brasileiro de Museus para assumir a direção de uma instituição cultural de São Paulo, até uma vaquinha online foi organizada para salvar o acervo. A ideia era levantar R$ 520 mil para reabrir a Sala dos Dinossauros.

Dinheiro ou a falta dele virou o ponto central para o funcionamento do Museu Nacional. Desde 2013, o orçamento do espaço sofre com cortes violentos. Só em 2018, os recursos caíram 77% em comparação com os anos anteriores.

A perda dos restos mortais de Luzia – humano mais antigo do Brasil, é imensurável

Levantamentos mostram que até julho deste ano, o órgão recebeu R$ 71 mil, sendo que no mesmo período do ano passado, foram R$ 309 mil. Enquanto isso, o aumento do salário dos membros do Superior Tribunal Federal, mais a manutenção do auxílio-moradia de magistrados, custam R$ 817 milhões à União em um ano.

“Os abalos na parte de infraestrutura começaram a aumentar antes do impeachment [de Dilma Rousseff]. Em 2015, tivemos uma grande mobilização por causa dos cortes, demissões de funcionários, problemas na secretaria, problemas de limpeza, enfim. Enfrentávamos dificuldades por se tratar de um patrimônio tombado. Nós tínhamos um cuidado especial por ser um prédio patrimonial.

Eu estive lá hoje de manhã e os professores chamavam a atenção para o fato do museu não ter escada de emergência. Os professores que trabalhavam lá tinham essa preocupação. O vice-diretor, que foi meu orientador, disse que existia um projeto de reforma com plano de combate a incêndios, mas era ignorado. Se isso acontecesse durante o período de aula, teria sido também uma tragédia humana.

O prédio não estava preparado para a evacuação”, comenta Carolina, ex-aluna do programa de antropologia social do Museu Nacional.

O Museu Nacional sofria com problemas como a infestação de carrapatos

Museus e pesquisa em risco

O ano de 2018 parece não ter fim. Quer dizer, o pesadelo vivido pelo Brasil já há alguns anos ganha contornos cada vez mais sombrios. O Museu Nacional não é o primeiro caso de descaso político-social. Em São Paulo, o Museu do Ipiranga, está fechado há mais de cinco anos. Peça emblemática para a história da independência brasileira, o órgão deve reabrir ao público somente em 2022.

Por sorte, os 30 mil objetos históricos – como telas feitas por Benedito Calixto – não viraram pó. O prédio apresentava diversas rachaduras e umidade por trás da tinta plástica. O Museu da Língua Portuguesa, que fica no centro da cidade de São Paulo, não teve a mesma sorte.

Em 2015, um incêndio atingiu três andares e a cobertura do prédio da Estação da Luz, matando uma pessoa. Para o Corpo de Bombeiros e a defesa civil, faltaram investimentos em medidas preventivas.

O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, também foi vítima de incêndio

“Por sorte não aconteceu nada nos anos em que o Museu Paulista (Museu do Ipiranga) esteve abandonado. Finalmente ele está em obra e espero que dê tudo certo. Que não ocorra nada. O Museu Nacional, assim como o Museu Paulista, está ligado à universidade. Precisamos olhar para as universidades públicas para entender porque os museus vinculados a elas estão assim”, alerta Vasco Caldeira.  

As cinzas do incêndio marcam o caminho de pesquisadores Brasil afora. Desde que o samba é samba, ouve-se a história sobre o país do futuro e um clamor popular para que a nação sul-americana mude de patamar. Agora, como fazer do sonho realidade sem investir em pesquisa? A história não nos deixa mentir e mostra que pesquisa e inovação foram sempre ingredientes valiosos para o desenvolvimento bem-sucedido.  

“O Museu Paulista carrega acervos inestimáveis, mas não como o Museu Nacional. O Museu Nacional é de importância latino-americana e mundial.

Existem coisas que foram levadas ao Museu Nacional por conta do cosmopolitismo de Dom Pedro II. Ele viajava, era um homem de cultura e ciência.

Nenhum país tinha uma coleção de arte egípcia como tinha o Museu Nacional”, reflete Caldeira, membro também da equipe responsável pela reforma do Museu da Língua Portuguesa.

Além de extinguir o Ministério da Ciência e Tecnologia, agora acomodado no Ministério das Comunicações, a administração federal cortou quase R$ 10 bilhões de investimentos no setor. Até a Capes, notável órgão do fomento de pesquisa em níveis de pós-graduação, pode sofrer com a perda de pelo menos R$ 580 milhões em 2019.

Os reflexos de cortes em educação, pesquisa e cultura são incalculáveis

Citando problemas em infraestrutura, como a infiltração de água e deterioração de uma biblioteca com um acervo precioso, a doutora pelo programa de antropologia oferecido pelo Museu Nacional, lamenta o cenário.

“Eu não tive problemas, porque defendi em fevereiro, então dei sorte. Inclusive, meu diploma ficou pronto há duas semanas, caso contrário teria sido incendiado. Muitas pessoas foram afetadas.

Tenho um amigo, colega do doutorado, e outra amiga que perderam documentos de linguística sobre tradições dos povos indígenas, que eram únicos. Alguns alunos possuíam fotografias, mas não de tudo obviamente. Isso vai ser bem complicado.

Sem falar que estava acontecendo agora o processo seletivo para o ingresso no doutorado de 2019. As coisas que não foram digitalizadas… Vai ser complicado. A secretaria não existe mais”, diz com tristeza.

Para Castellitti, existe ainda um processo de impedimento da democratização do ensino. Ela cita a localização do Museu Nacional – afastado da zona sul carioca – como um dos fatores.

“Ele fica em São Cristóvão, bairro fora da zona sul, que tem acesso principalmente pelo trem. Era um museu que, aos domingos, ficava cheio de gente. Pessoas da zona norte e da Baixada Fluminense. As pessoas iam com as famílias passar o dia.

É um ataque ao acesso à cultura de um tipo bastante específico de pessoas. Não é uma cultura de elite. Na antropologia, no meio deste contexto de ajustes e cortes, há quatro anos foram aprovadas as cotas. Então, hoje em dia no museu existem mestres e doutores indígenas e negros. Tudo isso representa um ataque à democratização do ensino no Brasil

A ficha não caiu e ainda vai demorar. Os reflexos de uma perda sem precedentes para a cultura brasileira serão sentidos gerações a fio, comprovando a vocação do país em não conseguir se libertar do ostracismo.

“Hoje fomos pra lá às 9h da manhã. Foi o primeiro chamado que fizeram e os professores estavam lá. Isso é muito duro, porque existem professores com mais de 70 anos e que tinham grande parte da documentação de pesquisa lá. Muita coisa foi feita nos anos 1970 e 1980. Tudo se perdeu. Tava todo mundo abalado, a gente ficou perdido vendo o cenário, o que tinha restado”, finaliza Carolina.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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