Roteiro Hypeness

Como teste para Olimpíadas, Paris recebeu megaevento LGBT+

por: Rafael Leick

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Os Jogos Olímpicos transformam uma cidade, a cada quatro anos, no centro do mundo para quem curte esportes. Mas a preparação para esse grande evento não é tarefa simples e exige muito planejamento para receber tanta gente sem impactar negativamente a rotina de seus habitantes.

Em 2024, depois das Olimpíadas de Tóquio, quem receberá a grande competição será a tão desejada (e mais visitada do planeta) Cidade-Luz ou, para os menos íntimos Paris. Apesar de ainda faltarem muitos anos para os Jogos Olímpicos Paris 2024, a cidade já começou a se organizar para isso e fazer inclusive alguns testes de logística e estrutura.

A maior prova até agora, e que caiu como uma luva nesse momento, foi no comecinho de agosto, quando a capital francesa sediou uma competição similar e com número equivalente de atletas e, sabiamente, o usou para testar sua estrutura. Estamos falando dos Gay Games. Nunca ouviu falar? Em um resumo chulo, são as “Olimpíadas LGBT+”.

Foram 10.317 atletas registrados em 36 modalidades e 14 eventos culturais. A programação contou com conferências, apresentações musicais e festa, além, claro, das competições esportivas.

Eu fui convidado pelos órgãos de turismo local para cobrir o evento e para conhecer o lado colorido da cidade. Mas e aí? Como Paris se saiu? Será que está preparada pra receber as Olimpíadas propriamente ditas? E para receber os turistas LGBT?

 

O que é Gay Games

Gay Games chega à sua décima edição em Paris - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Gay Games chega à sua décima edição em Paris – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

O Gay Games é uma competição mundial esportiva, promovida pela Federation of Gay Games que tem o intuito de promover a igualdade e a diversidade. E eles levam isso a sério. Não fazem, por exemplo, a contagem de medalhas por país e, se você for um atleta de esportes de equipe como futebol, vôlei ou pólo aquático, pode se juntar a algum time que esteja com vagas ou ainda formar um novo time com outros que também estejam sozinhos.

No início, confesso, foi até difícil de entender. Como assim, uma competição esportiva internacional que não tem contagem de medalhas? A resposta vinha sempre com o lema de promoção da igualdade e diversidade, além do entrosamento entre atletas de vários países (inclusive onde é crime ser LGBT+) em um ambiente inclusivo. Conhecendo um pouco sobre a história dos Gay Games, dá pra entender que não podia ser diferente com a origem que teve.

Os atletas do Gay Games Paris 2018 entraram no estádio e depois se acomodaram nas arquibancadas - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Os atletas do Gay Games Paris 2018 entraram no estádio e depois se acomodaram nas arquibancadas – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

O Gay Games nasceu em São Francisco, nos Estados Unidos, a cidade que é berço da diversidade e o assunto é sério por lá. Tanto que a delegação de São Francisco se apresenta na cerimônia de abertura dos jogos separada da delegação dos Estados Unidos e é a primeira a entrar em campo, com um número absurdo de atletas. Quando os primeiros a entrar no estádio já tinham passado por todo o campo e estavam saindo dele, ainda tinha novos atletas entrando.

O evento comemorou em Paris sua décima edição. Como ele acontece, assim como os Jogos Olímpicos de Verão, a cada 4 anos, já são 36 anos de existência celebrando a diversidade e sempre acontecendo em ano de Copa do Mundo de Futebol. Vale lembrar que a França levou o título em 2018 na Rússia poucos meses antes de receber o megaevento LGBT+. Foi o ano dos esportes… mas só até 2024, claro! As Olimpíadas de Paris serão o “pra valer”, já que o evento tem cobertura internacional muito maior.

A décima edição do Gay Games aconteceu em Paris e serviu de teste para Olimpíadas de 2024 - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

A décima edição do Gay Games aconteceu em Paris e serviu de teste para Olimpíadas de 2024 – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Antes de Paris, quatro das nove edições tiveram lugar fora dos Estados Unidos. Em 1990, Vancouver, no Canadá, estreou como sede internacional e a cidade holandesa de Amsterdã, na Holanda, foi a primeira europeia em 1998. A próxima também aconteceu fora de casa, em Sydney, na Austrália, em 2002, assim como a oitava edição, que trouxe de volta os jogos para a Europa em 2010 para tomar conta de Colônia, a cidade considerada como uma das mais LGBT+ friendly da Alemanha.

A próxima edição dos Gay Games irá para a Ásia e acontecerá em Hong Kong em 2022, celebrando seus 40 anos.

 

Paris engajada

"Militei toda" em frente à Torre Eiffel - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

“Militei toda” em frente à Torre Eiffel – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

A abertura dos Gay Games Paris 2018 aconteceu no Estádio Jean-Bouin, o principal da cidade, com a entrada das delegações e apresentações de música e dança. No mesmo dia, mais cedo, rolou a inauguração do ponto de encontro dos atletas, também conhecido como Gay Village. De modo bastante simbólico, ele ocupou o espaço em frente ao prédio da prefeitura.

As provas se espalharam por diversos pontos da cidade: estádio Charlety, piscina Georges-Vallerey, centro esportivo Jules Ladoumègue, hipódromo d’Auteuil, estádio aquático Maurice Thorez e o próprio estádio Jean-Bouin, além de vias públicas e parques que receberam corridas de rua. No total, foram 35 locais recebendo as provas e mais 10 com atividades culturais. Mobilizou a cidade toda. Os atletas ganharam passes de transporte público para se deslocar.

Jogadores de pólo aquático durante os Gay Games Paris 2018 - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Jogadores de pólo aquático durante os Gay Games Paris 2018 – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Mas o evento não ocupou somente locais de prática esportiva. O tradicional (e belíssimo) edifício público Grand Palais, por exemplo, recebeu a festa de abertura, que contou com apresentação do DJ israelense Offer Nissim; a Cité de la Mode et du Design foi onde o credenciamento dos atletas foi feito e praças e parques receberam atividades culturais como apresentação de corais, além do próprio pátio em frente à prefeitura, como já mencionado, que recebeu o Gay Village, aberto todos os dias.

Os turistas LGBT+ também puderam conhecer mais sobre o que Paris têm para oferecer no Centre LGBT Paris-ÎdF que, além de exposição temática para o Gay Games, têm informações sobre eventos culturais, festivais de cinema, festas e um guia LGBT+ da cidade.

A prefeitura de Paris foi casa do Gay Village durante os Gay Games - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

A prefeitura de Paris foi casa do Gay Village durante os Gay Games – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

O destaque, claro, ficou para o Marais, o “bairro gay” de Paris que foi enfeitado ainda mais com as cores do arco-íris em bandeirinhas e guarda-chuvas em frente aos bares à época da competição. É nesse bairro que se concentra a maior parte dos estabelecimentos voltados para o público LGBT+.

Mas a cidade como um todo recebe muito bem a comunidade e tem pensamento bastante vanguardista. Como exemplo, Paris abriu no ano passado seu primeiro restaurante naturista, O’naturel, onde de fato se janta nu. Eu fui conhecer o restaurante e, aparentemente, isso causou mais comoção no meu Instagram do que por lá. Sendo a cidade mais visitada do mundo, eles estão mais acostumados ao que é diferente.

Ruas do bairro Les Marais todas decoradas com as cores do arco-íris por conta dos Gay Games - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Ruas do bairro Les Marais todas decoradas com as cores do arco-íris por conta dos Gay Games – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Na cerimônia de abertura do Gay Games, inclusive, teve discurso da própria prefeita da cidade, Anne Hidalgo e das ministras do esporte e da saúde. O apoio vem de cima. E com mulheres à frente, uma delas negra. Quanto mais diverso, melhor.

A prefeita, aliás, foi protagonista de uma boa notícia para a comunidade LGBT+ meses antes dos jogos. Por conta da Parada do Orgulho, as faixas de pedestres em um dos cruzamentos do Marais foram temporariamente pintadas com as cores do arco-íris. Mas foram vandalizadas por homofóbicos. A prefeita, então, repintou as faixas e declarou que elas ficarão ali permanentemente.

Faixas de pedestres com arco-íris causaram polêmica em Paris - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Faixas de pedestres com arco-íris causaram polêmica em Paris – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Parabéns, Paris!

 

Performance brasileira

Essa foi a primeira vez que o Brasil participou dos Gay Games com uma delegação, chamada de “Espírito Brasil”. Até então, brasileiros só haviam participado de modo independente e, normalmente, eram atletas que já moravam na região onde os jogos estavam ocorrendo. Dessa vez, foram quase 60 atletas e voluntários, que levaram mais verde e amarelo para a competição em Paris.

Essa união deu resultado porque voltamos cheios de medalhas para casa. Ao todo, o Brasil conquistou 24 medalhas! Apesar de contagem de medalhas por país não ser a proposta, foi inevitável querer contabilizar para medir nossa performance. E, para uma primeira vez, fizemos muito bonito.

Fábio Lemes levou o bronze na Esgrima em dupla com atleta filipino em Paris – Foto: M. Faluomi – Paris 2018 / Gay Games 10

Fábio Lemes levou o bronze na Esgrima em dupla com atleta filipino em Paris – Foto: M. Faluomi – Paris 2018 / Gay Games 10

A comemoração de estreia veio da esgrima, esporte não tão popular no nosso país. Entre os 3 brasileiros competindo na modalidade, Fábio Lemes conquistou o bronze que foi a primeira medalha do Brasil, a primeira sul-americana e também a primeira medalha do país na esgrima. Ele também competiu no atletismo e levou uma medalha de prata no revezamento 4x100m misto.

“É o sonho de qualquer atleta que pratica o esporte de forma federada ou recreativa de participar de um evento como esse e representar o seu país. Falando de Brasil, nós somos ainda um país muito preconceituoso, então é bom a gente saber que existe um evento direcionado pra gente, que podemos ser quem somos livremente sem represálias, sem perder patrocínio, sem ter uma plateia xingando o atleta. E o Gay Games não é só pra homossexuais, ele é aberto pra todo mundo que quiser participar. É todo mundo igual e minha orientação sexual é só um detalhe”, destacou o atleta em entrevista exclusiva ao Viaja Bi!.

Ana "Animal" conquistou 3 medalhas de ouro para o Brasil no Gay Games - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Ana “Animal” conquistou 3 medalhas de ouro para o Brasil no Gay Games – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Outros atletas se destacaram. Ana Garcez, atleta paulistana que é ex-moradora de rua e que hoje mora no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, é uma aliada da comunidade LGBT+ e conhecida no atletismo como “Animal”. O apelido não é à toa. Ela é campeã de três modalidades do Grand Prix Mercosur e em mais três outras competições nacionais e internacionais. No Gay Games, ela comemorou o trio de medalhas de ouro (5km, 10km e meia maratona), incluindo o primeiro do Brasil, com figurinos chamativos e coloridos. Mas mesmo com um currículo desses, ela conta que não foi nada fácil chegar a Paris.

“Foi uma luta pra arrumar dinheiro, meus amigos fizeram vaquinha para me ajudar. Mas vamos arrasar, porque brasileiro não veio aqui pra passear, veio pra competir. Estou muito feliz de estar com esse povo maravilhoso, eu adoro esse mundo. E dá medo, porque se o atleta tem patrocínio, não tem coragem de falar para o patrocinador ‘eu sou homossexual’. O pessoal tem que parar com isso, tem que parar com o machismo”, defendeu a atleta. Antes que você questione, vale pensar se o machismo não é realmente o estopim para a LGBTfobia.

Eu com os atletas Diogo Oliveira, Fábio Lemes e Jerry da Costa, todos medalhistas no Gay Games - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Eu com os atletas Diogo Oliveira, Fábio Lemes e Jerry da Costa, todos medalhistas no Gay Games – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Outro destaque foi Jerry da Costa, que conquistou nada menos que 7 medalhas no atletismo. Foram 5 de prata, 1 de bronze e 1 de ouro. “Esse é meu primeiro Gay Games, estou curtindo bastante. O evento é importante para ter visibilidade e mostrar a diversidade, que existe e tem que ser respeitada”, afirmou Jerry.

O time carioca de futebol gay BeesCats, que participa do campeonato nacional Champions Ligay, também movimentou Paris. Além de trazer medalha de prata para casa, ainda teve um de seus jogadores pedido de casamento em frente à Torre Eiffel.

O Brasil ainda conquistou outras medalhas na natação, futebol, mountain bike, vôlei e em várias modalidades do atletismo.

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Rafael Leick
Criador do Viaja Bi!, primeiro e principal blog de viagens LGBT do Brasil. Publicitário paulistano, fez intercâmbio em Londres e lá começou a escrever sobre viagem. Trabalhou com órgãos de promoção turística da Argentina, Espanha, Reino Unido, Curaçao, entre outros, e empresas como AccorHotels. Ministrou palestras no Brasil e no Peru e foi Diretor de Turismo da Câmara LGBT do Brasil. E, claro, é pai do Lupin.

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