Matéria Especial Hypeness

“Quem faz careta para o funk hoje é neto de quem discriminou o samba”, o adeus a Mr. Catra

por: Vitor Paiva

Entre uma voz profunda, grave, rouca e característica e a ironia iconoclasta de um bufão, o cantor carioca Wagner Domingues Costa, imortalizado como Mr. Catra, tornou-se um verdadeiro símbolo do funk carioca. Diante de sua precoce morte aos 49 anos, em decorrência de um câncer gástrico, assim ele deverá ser lembrado: para além de todo folclore, como um artista interessante, provocador e complexo, representando diversas facetas da cultura de periferia do Rio de Janeiro.

Catra foi sem dúvida uma das mais importantes figuras da história do funk, em especial no processo de popularização do estilo para além dos bailes e favelas cariocas. Sua trajetória de vida, no entanto, foi absolutamente inesperada  – e mais se parece com um roteiro cinematográfico quase inverossímil de tão inacreditável. Filho de um frentista com uma doméstica, o jovem Wagner migrou do morro do Borel para o nobre bairro do Alto da Boa Vista ao ser adotado pelos patrões de sua mãe – seu nome artístico veio justamente da Rua Dr. Catrambi, onde cresceu.

Tal mudança de uma realidade com poucos recursos para uma vida de classe média levou Catra a se tornar também um símbolo de como a educação determina a vida de uma criança: foi a partir de sua adoção que o cantor pôde estudar no Pedro II, um dos melhores colégios do Rio de Janeiro e, a partir disso, se formar em direito e se tornar poliglota – Catra falava inglês, francês, alemão, hebraico e grego.

Como em muitos casos em que nossos preconceitos culturais, de classe ou raciais rotulam como inesperada a personalidade ou a própria bagagem que traz um artista popular de sucesso, por trás do personagem Mr. Catra havia um homem inteligente, estudioso e profundamente dedicado.

E mesmo sua relação com a música apresentou-se de forma singular e não-usual dentro do universo do funk: Catra começou como guitarrista de uma banda de rock intitulada O Beco, e diferentemente do estilo quase falado ou gritado, pouco melódico e intensamente interpretativo que costuma marcar os funkeiros, Catra se colocava em uma canção como um cantor.

Dono de uma voz grave e densa, Catra sempre utilizou sua voz como marca indelével de sua música, tornando-a especialmente peculiar, fosse cantando proibidões pornográficos, fosse em cânticos religiosos ou em um disco de rock – gênero ao qual ele voltaria no disco Mr. Catra & Os Templários.

A religião ocupou parte importante também da vida de Catra, que após uma viagem a Israel, onde visitou o Muro das Lamentações para, segundo ele, morrer e reviver, se converteu ao judaísmo – ou ao que ele chamou de “judaísmo salomônico”. Lembrando que o Rei Salomão teve mais de mil mulheres, tal rótulo inevitavelmente nos leva a uma das características mais memoráveis da vida de Catra, pela qual ele se tornou material infinito de memes: suas três esposas “oficiais” e seus 32 filhos com mais de 15 diferentes mulheres.

Catra com parte de sua família

Ainda que Catra afirmasse categoricamente jamais trair suas esposas, e que tudo era feito em comum acordo e abertamente, naturalmente que tal realidade aponta para um forte traço de machismo – e essa não foi a única posição controversa tomada pelo artista. Críticas aos negros e comentários tortos sobre escravidão e democracia ou ditadura também colocaram Catra na berlinda da opinião pública, mas talvez seu carisma, sua ironia, sua personalidade bruta tenham diluído os efeitos nefastos que, em outros casos, tal natureza de opinião acabaria por provocar – ou simplesmente pelo seu jeito de ser Catra não foi muito levado a sério.

De seus 32 filhos, dois deles são adotados – duas crianças soropositivas, sobrinhas de uma funcionária de sua casa, adotadas pelo artista depois que mãe das crianças morreu. “Onde comem 30, comem 32”, ele teria dito. E suas frases de efeito não só ajudaram a imortalizar sua personalidade e a relação com seu público, como também revelaram em muito suas opiniões e visões sobre temas caros para a sociedade atual – como o preconceito de modo geral. “Deixa os gay ser gay, deixa os gordos comer, deixa as mina dar, deixa eu ter meus filhos. Deixa as pessoas”, ele escreveu. “Quem faz careta para o funk hoje é neto de quem discriminou o samba ontem e bisneto de quem condenou a capoeira anteontem”, também disse, coberto de razão.


No início dos anos 2000, Catra abandonou os proibidões sobre violência em sua música e começou a falar sobre relacionamento e principalmente sobre sexo – sem pudores, sem timidez, de forma muitas vezes pornográfica, mas necessariamente com franqueza e estilo – e foi seu estilo o que parece ficar como seu mais forte legado artístico, que fez com que artistas tão diversos quanto Valesca Popozuda e Caetano Veloso lamentassem seu falecimento.

Na intimidade o artista era conhecido por sempre ajudar a quem podia, e sua franqueza e seu humor o conduziram sempre, mesmo depois de ter diagnosticado no ano passado o câncer que viria a lhe tirar a vida.

Se o funk é hoje um dos mais populares e fortes estilos musicais do país, isso se deve também a Mr. Catra – que, assim como ele próprio fez em sua trajetória pessoal, ajudou a tanto solidificar o estilo dentro dos bailes e das favelas, como leva-lo para fora de tais limites, na direção das classes mais altas, e lembrar nem somente de violência e pobreza as favelas são feitas – são também, e muito, feitas de arte. Sem jamais abandonar o estilo, Catra fez uma carreira de sucesso que hoje o coloca como uma figura fundadora dentro do gênero: seja qual for o futuro do funk, ele passará direta ou indiretamente pela voz rouca, grave e inconfundível de Mr. Catra.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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