Matéria Especial Hypeness

Tudo que você precisa saber sobre BlacKkKlansman, o novo filme de Spike Lee

por: Vitor Paiva

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Desde o sucesso de Faça a Coisa Certa, de 1989, que o diretor Spike Lee parece tomar o pulso da sociedade americana para medir os batimentos da tensão racial no país com seus filmes. Em plena era Trump, em que a divisão social nos EUA vem retornando ao níveis de sombrias décadas atrás, BlacKkKlansman, o novo filme de Lee volta justamente ao final dos anos 1970 para contar a inacreditável história real de um policial que se infiltrou no Ku Klux Klan, a maior organização racista e terrorista do país. O ponto nevrálgico da história é o fato nada discreto de que Ron Stallworth, o policial infiltrado, é negro.

O diretor Spike Lee

Impondo o sentido de seu filme como uma extensão quase literal da realidade que tanto se pronuncia na sociedade americana, Spike Lee não deixou ponto sem nó para escolher a data de lançamento nos EUA: BlacKkKlansman chegou aos cinemas no último dia 10 de agosto, quando completou um ano dos protestos racistas da extrema-direita estadunidense em Charlotesville – em que a militante Heather Heyer foi assassinada por um extremista branco ao ser atropelada enquanto participava de um contraprotesto. O produtor do novo filme de Lee é Jordan Peele, diretor e roteirista de Corra!, que também se tornou símbolo recente da crescente tensão racial no país.

John David Washington em cena do filme

Reconhecida por seus capuzes brancos e cruzes em chamas, e pela violência extrema que marcou suas atividades racistas, a organização de extrema direita Ku Klux Klan, apelidada de KKK ou Klan, foi o maior grupo terrorista dos EUA, fundada em meados do século XIX e chegando durante os anos 1920 a alcançar cerca de 6 milhões de membros. Pregando a supremacia branca, a xenofobia, o antissemitismo e principalmente a perseguição aos negros e a dita “purificação” racial do país, a KKK linchou, enforcou e assassinou milhares de pessoas ao longo de sua história – com intenso apoio popular ao longo dos anos. A organização ainda existe, hoje em um número profundamente mais reduzido, e alegando não mais praticar crimes.

O mote do novo filme de Lee começa quando o policial Ron Stallworth, vivido por John David Washington (filho do astro Denzel Washington) o primeiro detetive negro da cidade de Colorado Springs, encontra em 1979 um anúncio do grupo terrorista em um jornal local, convocando novos membros à organização. O detetive decide telefonar para o número oferecido no anúncio, se passando por um racista branco e marcar um encontro. Naturalmente que o próprio policial não pode comparecer ao encontro marcado, e ele então convoca seu parceiro de trabalho Flip Zimmerman, vivido pelo ator Adam Driver, para se passar por ele. Flip vai ao encontro munido de um microfone escondido para registrar tudo – e a missão é um sucesso.

Adam Driver e John David Washington

Assim começa uma insólita investigação contra o grupo, em que um policial negro, através de telefonemas constantes e do uso de seu parceiro para encontros presenciais, consegue se filiar a um dos maiores grupos racistas do mundo – na vida real Ron mandou enquadrar seu diploma de filiação a KKK, e o manteve na parede de seu escritório até sua aposentadoria, em 2005.

À esquerda, o diploma e a carteirinha de Ron; à direita, o verdadeiro Ron, nos anos 1970

Detalhe da carteirinha real de Ron

E essa é outra parte incrível dessa história: apesar de ostentar como um troféu o sucesso de sua investida em sua parede, Ron só veio a revelar sua infiltração no grupo ao grande público em 2006, em uma entrevista. Sua investigação revelou a identidade de diversas autoridades americanas ligadas ao grupo terrorista, incluindo membros do alto escalão do exército dos EUA. Em 2014 o policial detalhou a história em um livro, intitulado Black Klansman (O homem negro do Klan, em tradução livre) no qual o filme de Lee foi baseado.

Lee dirigindo Driver em cena com o uniforme da KKK

A atriz Laura Harrier vive uma militante por quem Ron se apaixona

Além da incrível e reveladora história que conta, e do imenso talento de Lee para realizar filmes profundos, simbólicos, provocativos e excitantes sobre o tema, BlacKkKlansman ainda conta com uma presença verdadeiramente histórica e emocionante em seu elenco: o ator, cantor e militante Harry Belafonte. Amigo pessoal e confidente de Martin Luther King nos anos 1950 e 1960, Belafonte foi o primeiro artista negro americano a se engajar na luta pelos direitos civis, tornando-se um porta voz do movimento à época e desde então.

Harry Belafonte em cena do filme

E não se trata de qualquer voz: Harry Belafonte é um dos grandes cantores da cultura americana. No filme ele vive um ativista mais velho, que em uma reunião reconta como foi o linchamento de Jesse Washington em 1916, um dos mais brutais e horríveis assassinatos cometidos pela KKK, e assistido por mais de 10 mil pessoas em praça pública.

A multidão se preparando para o lichamento de Jesse Washington em 1916

BlacKkKlansman participou com destaque do Festival de Cannes, recebendo críticas bastante positivas, ainda que algumas tenha destacado as alterações na história real realizadas por Lee para aprimorar seu roteiro. O próprio Ron Stallworth comentou tais críticas: “Eu vi o filme duas vezes”, disse Ron, hoje com 65 anos. “É um filme poderoso. Spike conta sua história ao redor da minha história. Ele fez um trabalho incrível em contar a história e ao mesmo tempo conecta-la com a tendência atual, dos Confederados de Charlotesville, David Duke [líder da KKK que também é retratado no filme, e que declarou apoio a Trump durante a campanha] e Donald Trump”, disse Ron. A estreia no Brasil está prevista para o dia 22 de novembro, e por aqui o filme vai ganhar o título de Infiltrado na Klan.

Ron hoje em dia

Trata-se, portanto, de mais um capítulo do compromisso de Spike Lee em contar a história e a realidade negra nos EUA. Seja em obras efetivamente históricas, como Malcom X, em filmes semi-biográficos como Crooklyn ou em obras de ficção em que retrata a dureza e a violência da realidade negra como Faça a Coisa Certa e Febre da Selva, Lee afirmou-se ao longo de sua carreira como um verdadeiro cronista de tal cultura e luta.

BlacKkKlansman parece vir como mais um ponto forte em tal trajetória, contando uma história que, não fosse real, pareceria absurda em qualquer roteiro original – tanto pela coragem e o caminho trilhado por Ron, quanto pelo horror que tanto marcou e ainda marca a questão racial nos EUA.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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