Matéria Especial Hypeness

Violência sem fim: Homens apertam o gatilho, mas também são mortos pela masculinidade tóxica

por: João Vieira

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“A gente costuma dizer que o homem é o grande protagonista da violência, em todos os aspectos.”

A fala é de Caio César, professor de geografia, escritor e pesquisador no campo da masculinidade. Caio também é youtuber e, nos últimos meses, fez sucesso na rede com seu canal homônimo, onde aborda temas como racismo, machismo e a concepção convencional do que é ser homem.

O trecho da conversa que Caio teve com a nossa reportagem que separamos acima, reflete alguns dos números recentes de pesquisas de violência, tanto no Brasil, quanto no mundo.

Por aqui, homens são os principais atores em praticamente todas as estatísticas de violência existentes. Eles se suicidam quatro vezes mais do que mulheres, segundo o Mapa da Violência da Flacso de 2017. Também morrem 10 vezes mais vítimas da violência cotidiana do que elas, de acordo com o Atlas da Violência de 2017. São, ainda, maioria entre jovens de 15 a 19 anos que perderam a vida, entre presos, no crime, tráfico e outros conflitos urbanos.

Atlas da Violência de 2017 também destacou alto índice de violência contra a mulher

Os homens só não aparecem na liderança entre as vítimas quando o responsável pelo crime é ele e a motivação é a misoginia. O Brasil tem a quinta maior taxa de feminicídio no mundo, que é quando a mulher é assassinada pelo simples fato de ser mulher. Entre 1980 e 2013, 106.093 mulheres morreram vítimas desse crime.

“Boa parte da nossa construção de masculinidade é baseada na demonstração de força e superioridade física sobre outras pessoas, principalmente outros homens. Então sempre escutamos que se a gente ‘apanhar na rua, vai apanhar em casa também’. Essas concepções fazem a gente enxergar a violência como algo naturalizado”, afirma Caio. Esse modelo de criação do homem é o que hoje se entende por masculinidade tóxica.

O termo ganhou popularidade pegando carona com a primavera feminista que tomou o Brasil e o mundo nos últimos anos. As discussões por igualdade de gênero levaram alguns homens a questionarem como os efeitos da sociedade patriarcal impediram que eles tivessem um desenvolvimento mais saudável, tanto do ponto de vista psicológico, quanto do físico.

A pesquisa Google Consumer Surveys, divulgada no primeiro semestre desse ano, mostrou, entre outros números, que mais da metade dos homens que demonstrou alguma fragilidade ou expressou algum sentimento foi chamado de “gay” ou “afeminado”, de forma pejorativa, por outro homem. Na outra ponta, a maioria dos caras também prefere caçoar ou até mesmo não comentar quando um amigo, mesmo que próximo, muda de aparência.

Dados da pesquisa Google Consumer Surveys 2018

“É sufocante porque, com essa barreira do diálogo, não conseguimos estabelecer vínculos afetivos fortes. Como já mencionado, homens tendem a manter mais laços de amizade com outros homens, mas essas relações acabam sendo mais mecânicas, menos aprofundadas e afetuosas”, diz Caio.

Tá doendo? Imagina para as mulheres 

Não dá para falar sobre masculinidade tóxica sem levantar como isso afeta as mulheres. A falta de igualdade de gênero historicamente se colocou como uma enorme barreira para o desenvolvimento pessoal e profissional delas. Sem contar o lado violento disso tudo. Além do feminicídio, as mulheres são constantemente sensualizadas em excesso e exploradas sexualmente pela sociedade patriarcal. Afinal de contas, vivemos em um país que estupra uma mulher a cada 11 minutos.

O levante delas em busca de interromper essa realidade exploratória levou à construção de diversos movimentos feministas poderosos, como o #MeToo, que destruiu reputações de agressores a torto e a direito no cinema hollywoodiano nos últimos dois anos.

“Acredito que a gente precisa entender que nossas práticas são nocivas não só a nós mesmos, mas a todos”, explica Caio. “As mulheres são a vanguarda, inclusive, no próprio debate sobre masculinidade. A escritora norte americana Bell Hooks, por exemplo, tem trabalhos excelentes sobre homens e suas relações com mulheres. Acredito também que o feminismo veio para deixar ainda mais evidente uma série de questões e atitudes problemáticas causadas pelos homens e isso certamente estimulou muitos caras a refletir e buscar mudanças”, diz ele.

Abandono parental e a masculinidade tóxica como “herança”

Já dizia Mano Brown no começo do século que, no Brasil, família brasileira é “dois contra o mundo”. Uma mãe e um filho. Quando esse número varia, é sempre na quantidade de primogênitos, e pouquíssimas vezes no número de responsáveis. 83% das crianças de até 4 anos no Brasil possuem como primeira responsável uma mulher, seja mãe, madrasta, avó ou tia, segundo pesquisa do IBGE de 2017. Quando presente, o pai se torna o primeiro referencial de masculinidade da criança e, portanto, o mais decisivo.

“Um dos assuntos que a gente mais discute dentro das masculinidades é o abandono parental. E como a falta de uma figura paterna, seja total ou parcial, afeta nossa construção enquanto homens”, opina Caio.

O campo das masculinidades tem debatido com certa frequência o desenvolvimento de uma nova masculinidade. A ideia é que o homem seja criado com a mentalidade proposta pela igualdade de gênero, e que, aos poucos, o viés machista seja eliminado de novas gerações. O processo é longo e lento, uma vez que, no Brasil, 75% dos homens entre 25 e 44 anos nunca sequer ouviu falar em masculinidade tóxica. Mas precisa começar logo.

“Estou em processo de desapego da masculinidade tradicional. Parafraseando Mano Brown, sou machista por ser homem”, diz o jornalista e comunicador Amauri Eugênio Jr. “A nova masculinidade está pautada na igualdade: ouvir e agir de modo que a equidade seja a premissa na relação entre mulheres e homens. E isso passa por jogar no lixo o pressuposto de que devemos ganhar no grito e na agressividade para sermos o que se entende por homem.”

“É muito fácil falar de cima de um sistema que reflete basicamente o patriarcado em todos os meios. Não acho também que esta discussão deva ser feita de maneira radical, pois pensamos sempre na bolha que estamos. Para efeito amplo, tudo deve ser didático”, acredita o jornalista Marco Bezzi. Ele tem 44 anos e já trabalhou no antigo Jornal da Tarde, Estadão e na Editora Abril. Atualmente, é mais conhecido por ser um dos fundadores da página e canal no Youtube Galãs Feios, ao lado de Helder Maldonado.

Marco Bezzi (à dir.) e Helder Maldonado, fundadores da ‘Galãs Feios’

A Galãs ficou famosa por tirar sarro de homens considerados referências de beleza masculina pelo grande público. “A pergunta que nos fazíamos era: ‘por que todo homem branco que aparece na TV é chamado de galã?'”, destaca ele, que lembra que a família Simas, sucesso entre o público adolescente, foi uma das primeiras grandes estrelas da página.

O tom de brincadeira suaviza a popularização de um debate sério sobre os efeitos que o padrão social de ser homem causa em uma pessoa, algo diretamente relacionado com os altos índices de vítimas de depressão e suicídio dentro do sexo masculino. Além disso, a crítica se volta para dar uma prova ao homem do sentimento de ser tratado como uma mera mercadoria pelas publicações, como historicamente aconteceu com mulheres nas mídias de massa. “É só lembrar do frequente ‘antes e depois’ que tratava a mulher como um pedaço de carne”, afirma Bezzi.

Mesmo que a página retrate parte da discussão sobre padrões de masculinidade, quem mais se interessa pelo conteúdo, mais uma vez, são mulheres. Elas representam 75% do público no Facebook, onde a Galãs tem quase 600 mil seguidores, e estão na faixa de 25 a 35 anos. “As pessoas se sentem acolhidas na página. É claro que às vezes saltam héteros alfas tentando rebater nossos argumentos da maneira mais peculiar possível: mostrando força, xingando, mas é raro”, garante ele.

Como isso afeta o homem negro? 

Historicamente, o homem negro foi colocado pela sociedade em uma posição onde lhe é negado o direito de desenvolver sensibilidade, intelectualidade e ter qualquer tipo de preocupação psicológica. A exploração do corpo negro é um dos mais expressivos legados da escravidão para a sociedade moderna. Naturalmente, pouco se considera o preto como parte do debate sobre uma nova masculinidade.

Ou assim seria se não existisse Terry Crews.

O ator e ex-jogador da NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos, tem um currículo em Hollywood com grande holofote sob seus músculos e potencial físico no geral. Tem sido ele, no entanto, o principal puxador deste debate no país em que vive.

Uma das atitudes que demonstrou a vontade do ator de se distanciar da masculinidade tóxica foi o fato dele, no ano passado, acusar em público um executivo do cinema norte-americano de abuso sexual. “Essa coisa toda com Harvey Weinstein está me dando stress pós-traumático. Por quê? Porque eu passei por algo assim! Minha esposa e eu estávamos em uma festa em Hollywood no ano passado quando um executivo veio e simplesmente agarrou meus órgãos sexuais”, declarou ele na ocasião.

A afirmação de Crews fez com que ele fosse elogiado por mulheres integrantes de movimentos contra a exploração sexual no mundo do entretenimento, mas provocou atitudes típicas dos efeitos da masculinidade tradicional. O rapper 50 Cent, por exemplo, tirou sarro e fez pouco caso da fala do ator, dando a entender que ele, pelo porte físico que possui e por ser homem, não deveria “morrer de medo” de um abusador.

“Nossas pressões relacionadas a masculinidade são mais fortes porque incluem a animalização do nosso corpo através do recorte de raça. Vigora muito, ainda hoje, o estereótipo de ‘negão’, aquele cara alto, musculoso, com o pênis avantajado, que não demonstra sentimento, fraquezas ou sensibilidade”, afirma Caio César, que é um homem negro. “Isso tem um impacto muito grande na construção da nossa autoestima, pois entendemos que só seremos valorizados se for desta maneira”.

A caminhada do Terry Crews é brilhante não só pelo discurso, mas pela imagem dele. Por anos, ele foi a personificação do estereótipo, então ver alguém como ele tomando a frente de um debate como esse é fundamental.

“Pressupõe-se que nós, homens negros, temos de nos privar de demonstrar sentimentos ou de optar por uma carreira que esteja, em certa medida, relacionada à intelectualidade. É como se fôssemos apenas aptos a realizar atividades braçais”, complementa Amauri.

Os efeitos do debate na política 

As discussões sobre igualdade de gênero extrapolam os gritos em manifestações populares e conversas entre grupos de ativistas e apoiadores. Ela chegou no mais alto cenário da política eleitoral brasileira.

O principal candidato à Presidência da República hoje, sem considerar o ex-presidente Lula, é Jair Bolsonaro (PSL). O capitão da reserva do Exército tem 24% das intenções de voto no primeiro segundo pesquisa Datafolha. Seu crescimento, porém, esbarra principalmente na rejeição do público feminino.

O deputado federal pelo Rio de Janeiro tem sua crescente brecada por 43% de eleitoras que não votariam nele “de jeito nenhum”. As mulheres representam mais de 52% dos 147,3 milhões de pessoas eleitoras no Brasil. Delas, apenas 13% declaram voto no candidato.

Bolsonaro ficou marcado por declarações consideradas racistas, machistas e homofóbicas. Ele tem sido constantemente confrontado sobre esses temas em debates recentes. No caso mais emblemático, ocorrido durante o debate da RedeTV!, viu a adversária Marina Silva (Rede) relembrar suas declarações polêmicas e se sobressair em um embate entre os dois.

“Vamos levar em conta que o pressuposto do ‘pulso firme’ está diretamente conectado à masculinidade [tóxica]. Logo, esse conceito está interligado ao autoritarismo, o que tem adesão popular, em especial na parcela conservadora, ainda mais porque estamos começando a discutir e colocar em xeque o machismo e a estrutura patriarcal. Logo, o debate de ideias e de pautas sociais, inclusive relacionadas à igualdade de gêneros e à onda de relatos de tentativas de estupro, o que está relacionado ao poder que homem acha ter sobre mulher e não tem relação alguma com sexo, são escanteados”, opina Amauri.

Para ele, a masculinidade tóxica, por mais que não seja um termo conhecido dentro da sociedade brasileira, está ativamente ditando os caminhos do debate eleitoral.  “Está posto que o machismo tóxico está cada vez mais isolado em espectro social que flerta com o fundamentalismo e o autoritarismo, que inclusive vê mulheres como agentes passivos – coincidência ou não, elas têm rejeitado cada vez mais o candidato que é a epítome da masculinidade tóxica”, garante.

 

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Imagens: foto 1: Atlas da Violência/Reprodução; foto 2: Google Consumer Surveys/Reprodução; foto 3: Reprodução; foto 4: Fcebook/Reprodução; vídeo 1: Youtube/Reprodução; vídeo 2: Twitter/RedeTV!/Reprodução


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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