Matéria Especial Hypeness

Visibilidade bi: mulheres contam como é ‘sair do armário’ como bissexual

por: Helena Bertho

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Dia 23 de setembro é o dia da visibilidade bissexual. Dia de lembrar que existem pessoas que se sentem atraídas, afetivamente e/ou sexualmente, por pessoas de ambos os gêneros. De lembrar que isso é completamente normal, não é fase, curiosidade, nem fetiche.

Entre convites para ménage (nada contra, mas ser bi não precisa envolver isso), e comentários irônicos dizendo que “bi é igual unicórnio, não existe”, quem é bi vive tendo sua sexualidade diminuída e, muitas vezes, metade dela reprimida. Principalmente porque quase não se fala em bissexualidade por aí. Ou você é hétero, ou homo e, sem referências, muitos bis acabam “escolhendo um lado” e escondendo o outro. 

Mas no fim, o resultado é a sensação de não pertencer a nada. Uma pesquisa de 2015 da organização Equality Network, do Reino Unido, mostrou que 66% das pessoas bissexuais se sentem pouco ou nada parte da comunidade LGBT, ao mesmo tempo em que 69% têm o mesmo sentimento em relação à comunidade heterossexual.

Por isso, se aceitar bi pode ser um longo e doloroso processo. Para entender como acontece, conversamos com mulheres bissexuais que contaram como foi “sair do armário” como bissexual e as questões que encararam. 

“Senti medo e confusão”

A advogada Victora Liz sempre teve relacionamentos heterossexuais, até a faculdade. Foi lá que começou a se relacionar com mulheres e a confusão surgiu, ela mesma não reconhecia a própria bissexualidade no começo.

“Imaginei que as experiências que eu estava tendo com mulheres seriam casos isolados e logo aquilo passaria. Quando me dei conta de que eu, de fato, me atraía também por mulheres, senti medo e confusão. Medo por não saber o que minha família pensaria disso e confusão por achar que deveria me encaixar como hétero ou lésbica”.

Com o tempo, porém, ela entendeu que poderia se relacionar com pessoas, independente do gênero, e conseguiu se entender bissexual. O passo seguinte foi criar coragem para contar para a família. “Cheguei a negar um relacionamento com uma moça que gostava muito por medo do que pudesse acontecer”, conta. Mas reuniu forças e contou para sua mãe, que aceitou e decidiu que não precisava sair expondo sua orientação sexual por aí. “Deixo apenos quem tenho mais apreço ter conhecimento disso”.

“As pessoas não me dão credibilidade”

Todas as pessoas do mundo eram bissexuais na cabeça de Thais Rodrigues, quando tinha nove anos de idade. “Achava que elas que optavam por ficar com um dos sexos”, lembra. E ela sempre soube que gostava dos dois, nunca foi motivo de dúvida.

Por isso, nunca ficou de fato dentro do armário. “Para mim, sair do armário foi tratar minha bissexualidade com respeito. Foi quando retruquei piadas e casais tarados, quando tive que escutar que a probabilidade de eu trair era em dobro. Eu saí do armário da hipocrisia alheia, pois nasci livre”, conta ela.

Aceitar e respeitar sua sexualidade nunca foi uma questão. A dificuldade mesmo ficou por conta dos outros.  “É o mesmo que a mulher sempre passa, ter que se explicar ou se defender. Como se não me dessem credibilidade”.

“Já passou da hora de gostarmos de pessoas e não de genitais”

Foi a ajuda de um amigo que possibilitou que a youtuber Tuy Potássio se entendesse cedo, aos 15 anos, com sua bissexualidade. “Comentei com ele que tinha curiosidade de ficar com uma menina e ele falou com uma amiga que tratou de matar minha curiosidade. Beijei, gostei e nunca mais parei”, diz.

O resto foi bastante natural, tirando a parte de contar para a família, que ainda levou oito anos. “Não via a necessidade de falar para eles antes”.

Hoje ela vive um relacionamento aberto com um homem bi e os dois têm um canal onde falam do assunto com muita naturalidade. “Ninguém deveria ver problemas em gostar de dois gêneros, já passou da hora de começarmos a gostar de pessoas não de genitais”.

“Ia a retiros para tirar aquilo de mim”

G.R, 20, que preferiu não se identificar, contou que começou a se dar conta da atração por homens e mulheres aos 12 anos. Na época, frequentava uma igreja evangélica e sentia muita vergonha dos seus desejos. “Ia a vários retiros para tirar aquilo de mim”.

Uma mudança de cidade fez com que se afastasse um pouco da religião, mas a aceitação ainda demorou para vir. “Foi um processo lento de desconstrução, pois eu era nova e não me entendia direito”. Foi pesquisando e lendo sobre, entendendo que era normal, que ela começou a lidar melhor.

O passo seguinte: família. “Fui dando indiretinhas para minha mãe e quando me assumi oficialmente, foi tranquilo. Meus pais respeitam”. Já os primos e outros parentes não foram tão fáceis. “Eles me tratam como hétero, falam que foi uma fase e que eu saí dessa”. Também teve amigas que pararam de falar com ela, por medo de que desse em cima.

“Tinha medo que as amigas pensassem que forcei intimidade”

Tanto com a família, quanto com uma parte dos amigos, sair do armário como bi foi fácil para a estudante Stefanne Jacob, 28. “Minha mãe sempre disse que sabia que eu gostava de ambos os gêneros”.

A dificuldade mesmo veio com as amigas heterossexuais da adolescência. Não que elas foram preconceituosas, mas Stefanne ficou com medo de como reagiriam. “Elas sempre me conheceram como hétera e eu era muito íntima. Então tinha medo de me assumir e acharem que em algum momento eu tinha forçado intimidade por também sentir atração por mulheres”.

Esse processo de medo, de ficar entre contar e não contar foi bem chato para ela. Mas quando criou coragem, suas amigas levaram numa boa.

“Foi um processo de desconstrução”

Quando começou a entender sua orientação sexual, a estudante Claudiane Silveira, 27 anos, passou por uma fase difícil, porque não conseguia aceitar a bissexualidade. “Não achava normal, porque na minha mente o certo era lésbica, gay e heterossexual. Bi era indecisão”.

Passar a se aceitar foi um processo de desconstrução. “Eu era bem alienada, mas eu tive contato com o feminismo e contei com ajuda de amigas que conheci em uma roda de conversa”, conta.

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Helena Bertho
Jornalista e roteirista, é apaixonada por boas histórias e acredita no poder da informação de mudar o mundo. Gosta de falar de diversidade, sexualidade, direitos humanos e gênero. Não perde uma chance de passar vergonha e acredita que todo jornalismo deva ser feminista.

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