Seleção Hypeness

10 das capas de discos censuradas mais incríveis de todos os tempos

por: Vitor Paiva

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Com a digitalização da música e a redução à irrelevância da parte gráfica de um disco (especialmente diante da quase extinção dos suportes físicos), as capas perderam o sentido áureo e impactante que um dia tiveram. Em um passado recente, as capas eram partes fundamentais dos discos, como complementos determinantes para o sucesso ou o fracasso de um álbum. E, sabendo do tamanho desse impacto, muitos artistas aproveitavam esse suporte para provocar seu público, e especialmente levar à loucura a ala conservadora do planeta.

Assim, como não poderia deixar de ser, muitas vezes a provocação era tamanha (ou o puder dos conservadores) que alguns discos tiveram suas capas censuradas – tendo de ser refeitas, adaptadas ou até mesmo recolhidas das lojas. Na maior parte dos casos, a censura só ampliou o interesse do público pelos discos, e transformou as capas originais em valiosas raridades.

Os exemplos são muitos ao longo da história da música, mas selecionamos aqui alguns dos melhores e mais importantes discos que tiveram suas capas parcial ou completamente censuradas.

Unfinished Music No. 1: Two Virgins (John Lennon e Yoko Ono)

Se hoje ainda é veladamente proibido a nudez na capa de um disco, imagine em 1968. E não era qualquer nudez: em Two Virgins, o mais famoso artista do mundo aparece frontalmente nu, ao lado de sua companheira Yoko Ono. Como se não bastasse, o disco é uma radical e experimental colagem sonora, sem canções ou refrões, que desafia até hoje as noções da música pop de qualquer época. A contra capa do disco, como não poderia deixar de ser, trazia devidamente o casal de costas, igualmente nu. Para ganhar as lojas, Two Virgins teve de “se vestir” com uma sobrecapa marrom, mostrando somente o rosto dos dois artistas.

Jóia (Caetano Veloso)

Um tanto inspirado em Two Virgins, de John Lennon e Yoko Ono, Caetano Veloso decidiu que, para a capa de seu disco Jóia, uma foto traria ele, sua então esposa Dedé, e seu filho Moreno, todos nus, cobertos somente por alguns desenhos de pássaros. Acontece que, para além da sempre escandalosa nudez, corria no Brasil o ano de 1975 e, com ele, o auge da ditadura militar. Para poder ser lançado sob a brutal censura que marcava o Brasil de então, uma nova versão da capa, somente com o título, os pássaros e a assinatura de Caetano sobre um fundo branco, foi rodada às pressas.

Índia (Gal Costa)

Para embalar graficamente essa obra-prima de 1973, a cantora Gal Costa decidiu que a capa do disco Índia traria um sensual close em sua tanga vermelha e sua barriga de fora. Na parte de trás do disco, Gal ainda aparecia com os seios de fora, fazendo jus ao título. A censura evidentemente quedou em escândalo, e só permitiu o lançamento do disco devidamente coberto por uma horrível capa plástica azul. Ainda assim – ou por isso – Índia foi um sucesso, tornando-se rapidamente um clássico da música brasileira.

Nevermind (Nirvana)

Mesmo nos anos 1990 a censura e os conservadores permaneciam – como ainda são – capazes de se escandalizar e ver imoralidade em tudo, até mesmo em um bebê. Quando, em 1991, o Nirvana lançou seu segundo disco, o imortal Nevermind, algumas das mais importantes lojas dos EUA se recusaram a coloca-lo nas prateleiras, pois a icônica capa mostrava um bebê nadando atrás de um dólar preso a um anzol. Engana-se quem pensa que a crítica ao capitalismo é que provocou o escândalo: a questão foi o fato de aparecer o diminuto e inocente pênis do bebê. Assim, algumas tiragens foram impressas com o órgão devidamente retirado da foto.

If You Can Believe Your Eyes and Ears (The Mamas and the Papas)

Um dos grandes discos da história do rock, o disco de estreia dos The Mamas and the Papas, de 1966, tornou-se um sucesso instantâneo, mas para isso acontecer uma adaptação precisou ser feita na foto da capa – e o motivo é um dos mais espantosos e ingênuos que se pode imaginar. Não era o fato da banda estar amontoada dentro de uma banheira que incomodou os censores, mas sim a presença de um vaso sanitário que aparecia ao canto da foto. Primeiramente a privada foi coberta por um quadrado com textos, e depois foi cortada totalmente da capa.

Yesterday and Today (The Beatles)

Tudo que acontecia com a maior banda de todos os tempos se amplificava e ganhava os holofotes do mundo com intensidade única – e foi esse o caso desse disco. Prensado para ser lançado somente nos EUA e no Canadá, o disco Yesterday and Today, dos Beatles, de 1966, trazia canções de seus discos originais Help!, Rubber Soul e de alguns compactos. Seria somente uma singela coletânea, não fosse pela polêmica ao redor da capa original, mostrando os membros da banda vestidos com roupas de açougueiros, cobertos por pedaços de bonecas desmontadas e peças de carne sobre seus corpos. Quando viu a capa, a gravadora mandou recolher o disco imediatamente, mas já era tarde: das 750 mil cópias impressas na primeira tiragem, muitas já tinham sido vendidas ou enviadas para DJs. O disco foi relançado com outra capa, e a versão com a arte original se tornou um dos discos mais caros do mundo.

Beggars Banquet (The Rolling Stones)

A censura à sensacional capa original do clássico Beggars Banquet, dos Rolling Stones, de 1968, é mais um caso de como à época os banheiros, e principalmente as privadas, incomodavam os censores. A foto de vaso sanitário com a parede toda pichada, tirada em uma revendedora de carros em Los Angeles, teve de ser substituída por uma capa branca com o título escrito em um estilo formal e cafona, como de um convite de casamento, ou o disco simplesmente não seria lançado. Somente na década de 1980 que o disco com a capa original, como planejada pela banda, pôde ganhar as lojas.

Diamond Dogs (David Bowie)

Não era o visual andrógeno e alienígena de Bowie, nem os bizarros animais meio-mulheres-meio-cães atrás do cantor que provocaram que a capa de Diamond Dogs, seu disco de 1974, tivesse que ser alterada. O escândalo se deu pois quando o disco era aberto, via-se que o corpo deitado de Bowie se transformava no corpo de um cachorro – com o pênis do animal incluído. Assim, não teve outro jeito que não alterar a arte, e sombrear a região do órgão do cão-Bowie em preto.

Appetite For Destruction (Guns n’ Roses)

Nenhuma censura deve ser admitida, mas o caso da capa do sensacional primeiro disco da banda Guns n’ Roses, Appetite for Destruction, de 1987, é um raro exemplo em que a capa original era criminosamente terrível – literalmente. Mostrando uma mulher estuprada por um robô sendo atacado por outro robô maior, a capa é um perfeito sinal da cultura do estupro e de como tal crime era relevado e quase romantizado à época (e um tanto até hoje). Rapidamente o disco teve de ter sua arte substituída pela icônica cruz trazendo os membros da banda estilizados como caveiras.

Electric Ladyland (The Jimi Hendrix Experience)

Para muitos o melhor trabalho da carreira do maior guitarrista de todos os tempos, Electric Ladyland, o segundo disco de Jimi Hendrix com sua banda Experience, de 1968, originalmente trazia uma bela foto com diversas mulheres nuas, mostrando principalmente os seios. Nada parece provocar mais repúdio do que a nudez, e a capa original precisou ser substituída por outra com uma foto do rosto de Hendrix em vermelho.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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