Entrevista Hypeness

Como robôs atuam nas redes sociais para manipular seu voto nas eleições de 2018

por: Brunella Nunes

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Época de eleição no Brasil nunca foi tão caótica quanto agora. Polarizados e com os nervos à flor da pele, os eleitores foram colocados à beira de uma guerra civil mediante as escolhas democráticas, que estão em risco. Mas existe um personagem novo no meio dos conflitos virtuais que não apenas alimenta a briga como espalha notícias falsas e por vezes passa despercebido pela população: os Bots, robôs que atuam nas redes sociais para manipular o seu voto.

O assunto é complexo, um tanto assustador e cheio de probabilidades. Ainda um tanto desconhecidos, os tais Bots agem de forma desonesta, coisa que a nação já deveria estar de olho, já que a bandeira anti-corrupção foi tão bradada nos últimos anos. Fazendo uso da inteligência artificial, cada vez mais avançada, os robôs vêm causando polêmicas e, consequentemente, colaborando com o mal estar social que paira no ar no Brasil e no mundo.

Desenfreados, estes mecanismos de apoio automatizado se passam por pessoas reais realizando postagens no Twitter quando lhes convêm, ou seja, a medida em que são diversificadamente programados para ir a favor ou contra um candidato, espalhando boatos e notícias falsas, interagindo com demais usuários e basicamente levando discussões aos Trending Topics, os assuntos mais quentes do momento dentro da rede social. Não é à toa que debates na TV, resultados de pesquisas e entrevistas chegam rapidamente aos temas mais falados da rede, já que a motivação é feita por uma máquina e não exatamente um ser humano fanático.

Feito o estrago, as informações migram para o Facebook e por fim chegam ao WhatsApp, criando toda uma rede de mentiras porque, em primeiro lugar, não estamos falando de uma pessoa real que espalhou um fato, e sim de um robô que age de maneira canalha, sutil e praticamente sem a chance de identificação de fonte. Ou seja, é quase impossível rastreá-los a ponto de saber sua origem, isentando os políticos em questão de quaisquer culpa.

Em 2014 foi provado o uso de robôs para inflar assuntos nas eleições brasileiras, assim como nas últimas eleições americanas e na votação do Brexit. Foi confirmado por meio de estudos que o charlatão Donald Trump foi eleito com a massiva ajuda de mais de 50 mil robôs, responsáveis por mais de 470 mil compartilhamentos das postagens dele no Twitter, popularizando seu nome e ideias.

Aqui na América Tupiniquim, colocada como o 8º país com a maior população de bots do mundo, foi identificado por um levantamento do instituto InternetLab, no primeiro turno, que Alvaro Dias liderou o número de seguidores robôs, com 60% do total e Jair Bolsonaro com 33% de perfis falsos, enquanto Guilherme Boulos tinha a menor porcentagem, com 14%.

Mas talvez pior ainda seja perceber que, ao alimentar o ego alheio, os Bots não são os verdadeiros culpados da lama política e sim os eleitores, iludidos em suas próprias bolhas, vestindo camisas que convêm apenas com interesses pessoais e acreditando que têm razão quase 100% do tempo, por conta do robozinho “amigo” de cada dia alimentando suas teorias mais malucas. Instalou-se a paranoia coletiva sem direito a remédio controlado.

Como o conhecimento ainda é a melhor solução para a ignorância, saiba que existe uma plataforma que monitora a concentração de robôs ativos no Twitter, com base na mensuração de dados de engajamento artificial. Batizada de Trending Botics, a ferramenta online foi criada pela agência FCB Brasil e o Congresso em Foco para informar as pessoas diariamente o quanto os Bots estão trabalhando para determinado candidato à Presidência da República.

Segundo estudo da FGV/DAPP, cerca de 20% das discussões envolvendo política nas redes sociais são motivadas por bots. Se isentando de juízos de valor e focando em números, a plataforma serve como um termômetro do jogo da política, na qual as fake news pintam e bordam para beneficiar os candidatos que fazem uso dessa prática.

O provável bot mais ativo que identificamos produziu quase 2 mil tuítes nas últimas 72 horas: todos apoiando Bolsonaro, grande parte como fake news.

Conversamos com a publicitária premiada Joanna Monteiro, que atualmente atua como CCO (Diretora Geral de Criação) na FCB Brasil para entender melhor o frenético mundo dos Bots e informar o eleitor de uma “velha novidade”: sorria, você está sendo manipulado (a)! 

Hypeness: Joanna, esse assunto é tão novo e tão desconhecido pelos brasileiros, que é difícil convencê-los de que não é conversa mole. Então, explica pra gente o que é um BOT, onde eles atuam (quais redes) e como são implantados pelas equipes de marketing dos políticos.

Jonna Monteiro  - Um BOT é um “robô” virtual, criado para realizar automaticamente uma série de tarefas específicas que parecem ser feitas por pessoas desde enviar spam para nossa caixa de e-mails até iniciar um atendimento quando entramos em contato com a empresa de energia elétrica. Aqui é importante deixar claro que os Bots são usados e muito bem usados em várias circunstâncias , do atendimento ao jornalismo.

Os vilões dessa eleição que temos que combater são os “Bots Políticos” das redes sociais, que são “materializados” em perfis de usuários que parecem reais, mas que na verdade são programados para interagir e atuar nesses ambientes de acordo com os interesses, que podem ir desde replicar notícias falsas até inflar artificialmente um tema para que ele se torne relevante entre os “usuários reais” e vire uma pauta.

O problema é que esses bots estão ficando cada vez mais sofisticados, de modo que alguns já conseguem reproduzir o comportamentos de usuários reais: desde o linguajar até os horários de atuação.

H: O estudo ou coleta de dados envolvendo Bots é baseado apenas em probabilidades? Como é feita essa conclusão?

JM -  Trata-se de um tema novo e sem uma metodologia de análise definitiva. Se alguma dessas metodologias fosse 100% precisa, o problema dos bots do mal, que espalham fake news, estaria resolvido.

No Trending Botics a análise é focada nos prováveis bots do Twitter e utiliza o algoritmo do Botometer, que é aberto ao público e foi desenvolvido pela Indiana University Network Science Institute e pelo Center for Complex Networks and Systems Research, que são referências no assunto.

Esse algoritmo - que pauta centenas de matérias no Brasil e no mundo - classifica uma conta como “humana” ou “robô” por meio do cruzamento dezenas de milhares de parâmetros e definições.

Mas é sempre importante reforçar que o nosso projeto não tem caráter “científico” nem a pretensão de traçar afirmações categóricas sobre a origem e o uso desses prováveis bots, mas sim de jogar luz sobre a questão da manipulação do debate político, um problema de escala global em que podem ser destacados os episódios das eleições americanas de 2016 e do Brexit.

H: Como as pessoas podem identificar um BOT?

JM -  Por mais que alguns desses bots sejam mais sofisticados, grande parte ainda tem características bem específicas como poucas informações pessoais, seguir muitos usuários e ser seguido por poucos, e grande volume de postagens por dia (quase sempre sobre o mesmo assunto ou candidato). Baixa atividade também pode ser um indicativo, já que alguns deles funcionam em redes de bots que servem apenas para se retroalimentar com curtidas e retweeets.

H: Como funcionam as respostas de um BOT numa notícia ou debate virtual, por exemplo? Eu, você e todo mundo que usa Twitter já deve ter falado com algum ao menos uma vez na vida. Já notei que, ao comentar uma notícia no Twitter, o bot vem até mim, faz um comentário (geralmente grosseiro) e se eu respondo uma vez, depois não sou mais respondida.

JM -  Eles atuam de várias maneiras, mas talvez a mais comum seja essa que você citou. Eles fazem isso pois provavelmente são programados para interagir especificamente com determinados conteúdos ou palavras-chave. O objetivo ali é criar - artificialmente - uma ideia de que mais pessoas concordam ou discordam do conteúdo daquela postagem, criando um “conforto” para que o usuário real emita a sua opinião. Algo conhecido entre os especialistas como “Efeito Manada”.

H: A inteligência artificial é o grande aliado do momento das campanhas políticas? Ela ajuda a influenciar os votos?

JM -  Sim, mas aliada a uma série de outros fatores. O poder dessa inteligência já foi mostrado ao mundo nas eleições americanas e na votação do Brexit.

H: Os bots são os que mais ajudam a propagar um assunto/hashtag no Twitter e, de lá, se espalha para outras redes sociais? São eles que pegam um assunto quente, como pesquisas de intenção de voto ou debate em algum programa de TV, e o leva aos Trending Topics?

JM -  Não podemos afirmar que são os que mais ajudam, mas certamente podem colocar lenha na fogueira e ajudar a criar o próximo assunto quente do momento. O Twitter é uma das redes sociais mais imediatas que existem, a segunda tela. Tudo o que acontece no mundo repercute primeiro lá. Os próprios usuários costumam brincar que as piadas nascem lá, migram pro Facebook e depois vão parar no Whatsapp.

H: Segundo os números que vocês colhem e o mecanismo dos Bots, podemos concluir então que: o robô eleitoral mais ativo do twitter é pró-bolsonaro e espalha fake news como se não houvesse amanhã. Ou seja, não só faz com que o nome dele se propague numa velocidade e frequência muito maior do que poderíamos imaginar, como também espalha mentiras na mesma proporção. É isso?

JM -  Sim, mas é importante deixar claro que as citações exibidas no Trending Botics, tanto podem ser pró ou contra. A plataforma não faz juízo de valor. Só em leituras de casos específicos, como o do provável bot político mais ativo identificado pela nossa plataforma, no dia 05/10, podemos afirmar ser pró.

Desde que fizemos aquele card (04/10) - foram mais de 6,5 mil novos tuítes e retuítes, sendo a maioria esmagadora fake news.

H: Com essas discussões desenfreadas, chegamos ao mal estar social atual, motivado pelo o que está na internet, que na verdade é um engajamento falso, ou seja, feito por um robô e não por uma pessoa tão fanática a ponto de colocá-lo nos assuntos mais comentados do momento. Esclarecido isso, podemos finalmente concluir que a manipulação de dados também é uma forma de corrupção e, pior, é difícil de ser controlada?

JM -  Sem dúvida é a tentativa de manipular. Hoje a forma mais segura de se proteger é verificar em fontes seguras. Mas sabemos que se a informação estiver reafirmando o que a pessoa quer ouvir a tendência é que ela acredite e ponto final.

H: Esse tipo de coisa não deveria ser um cybercrime? É passível de denúncia?

JM -  O TSE regulamentou a ação de robôs políticos nas redes sociais durante as eleições, mas a fiscalização esbarra no volume de bots atuando e na falta de uma metodologia definitiva de identificação.

H: Há um jeito de impedir a ação dos Bots? Ou a maior ferramenta contra isso seria realmente educar as pessoas a ponto delas saberem identificá-los?

JM -  No momento é difícil de controlar a atuação deles. A maior ferramenta contra isso é educar as pessoas não só a identifica-los, mas a terem um pensamento crítico sobre a veracidade e a credibilidade do conteúdo que eles levam até elas.

H: O uso das siglas em inglês (fake news, big data, machine learning, bots…) num país com quase 12 milhões de analfabetos não dificulta as coisas? Como a gente pode aproximar o público leigo de conceitos um tanto complexos nem sem ao menos traduzi-lo ou adaptá-lo à nossa língua?

JM -  É realmente difícil. Mas uma das saídas é tentar jogar luz mais diretamente no problema e nas suas consequências, como estamos tentando fazer com o Trending Botics.

Os termos em inglês são usados principalmente porque as ferramentas, tecnologias e plataformas envolvidas são globais e os termos técnicos quando traduzidos mais confundem do que esclarecem. Ninguém fala em sítio ou rede mundial de computadores. A falta de educação causa problemas muito maiores do que a não compreensão de outro idioma.

H: A plataforma em si já recebeu críticas do público ou dos candidatos? Vocês já foram acusados de “comunistas”, mentirosos, manipuladores e etc? Como lidam com a pós-verdade, onde crenças pessoais sobressaem os fatos?

JM -  O feedback até o momento tem sido bem positivo, até porque, como eu já disse, a proposta da nossa ferramenta não é fazer juízo de valor sobre os conteúdos das postagens dos prováveis robôs. A ideia é jogar luz sobre o problema da manipulação do debate político nas redes sociais apresentando somente os dados coletados  -  que realmente são impressionantes  –  para que cada pessoa faça o seu próprio julgamento.

 

Para saber mais:

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Imagens do post via Trending Botics
Foto da Joanna Monteiro: divulgação


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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