Sessão Hype

Exclusivo: Roteiristas da série ‘House of Cards’ contam os rumos da última temporada

por: Brunella Nunes

Publicidade Anuncie

A premiada série House of Cards, da Netflix, retorna no dia 2 de novembro com mais peripécias megalomaníacas do mundo da política, mas dessa vez sem Frank Underwood. Em material exclusivo cedido ao Hypeness, os roteiristas Melissa James Gibson e Frank Pugliese contam os rumos da última temporada, na qual a personagem central enfrenta seus primeiros 100 dias como viúva e presidente do Estados Unidos.

Para esse desafiador capítulo da história, os showrunners da série (no cargo desde a terceira temporada) se juntaram a Robin Wright, David Fincher, Joshua Donen, Dana Brunetti, Eric Roth, Michael Dobbs e Andrew Davies na produção executiva, numa união de esforços e complexa busca para um desfecho digno, autêntico e entrelaçado com tudo o que já aconteceu.

A saída conturbada e inesperada de Kevin Spacey (acusado de assédio por vários colegas da produção, entre outras denúncias) certamente abalou as estruturas. “Nós sabíamos há um tempo que a sexta temporada seria a última, mas com certeza tínhamos a intenção de que Francis fosse parte integral disso. Então quando nós ficamos sabendo que não seria o caso, nos reagrupamos”, explicou Gibson, que continuou:

Nós sabíamos que qualquer versão que pretendíamos fazer, o personagem de Francis nunca ter existido seria falso. Queríamos ter certeza de que terminaríamos a história com integridade. Basicamente voltamos ao DNA da série - tudo que foi construído ao longo das cinco temporadas - e sabíamos que a resposta sobre como proceder seria encontrada lá.

O primeiro passo, revelado ainda nos trailers, foi matar o então Presidente do Estados Unidos e marido de Claire. “São seus primeiros 100 dias de ofício e quaisquer que sejam as circunstâncias em torno da morte de Francis estão ajudando a informar esses 100 dias. Melissa e eu conversamos muito sobre a temporada final ser uma meditação e exploração sobre: quem realmente domina a Casa Branca?, apontou Pugliese.

De fato, desde a primeira temporada é a igualmente ambiciosa Claire (Robin Wright) que vai, pouco a pouco, se mostrando e se colocando como personagem dominante e dominadora, ainda que fosse sob a tutela de Frank. Ela cria uma teia de seu próprio espaço e conquistas, seja através do então marido, ao redor dele ou batendo de frente. Um sempre representou perigo ou ameaça para o outro a partir de seus jogos de poder. A quinta temporada deu sinais muito claros de que as coisas iam mudar por bem ou por mal. E, parafraseando Frank para ilustrar o momento atual, “se não gosta de como a mesa está posta, vire a mesa”.

Nessa temporada, Claire revisita o passado, coleciona inimigos no presente e aponta para um futuro incerto. Quem surge em cena como um de seus principais desafios são os poderosos e influentes irmãos Bill Shepherd (Greg Kinnear) e Annette Shepherd (Diane Lane), herdeiros da Shepherd Unlimited, uma rede líder de empresas, atuante nos bastidores do cenário político americano. Segundo Gibson, colocá-los na história é uma forma de puxar a cortina para analisar o poder por trás do poder, como já havia indicado o próprio Frank no último episódio da 5ª temporada, que é fundamental para resgatar a que ponto está o governo.

“Eles tiveram uma empresa familiar poe gerações. São incrivelmente ricos. Eles estão gastando dinheiro para exercer influência. E há muito desse tipo de dinheiro na política desde Citizens United*, esclareceu Pugliese. O motivo do interesse dos Shepherds, porém, vai vir do questionamento da audiência a partir da observação da narrativa. “Eles são mais parecidos com liberais. Não se amarram explicitamente em nenhum partido”, confirmou Gibson. “Nunca iriam se identificar como republicanos. Estão praticamente acima disso. Eles se veem como manipuladores de marionetes, comprando quem quer que seja necessário, completou.

*comissão eleitoral federal, que regula financiamento de campanhas políticas por parte de organizações

Annette e Claire são amigas desde a infância e, com a ajuda de flashbacks, conseguimos captar alguns momentos entre as amigas mais rivais que a Netflix já viu. As provocações entre as duas são constantes e o espectador fica sempre na expectativa de que tudo de pior pode acontecer entre elas.

A junção desses fatores nos fazem enxergar as dores e as delícias de ser Claire Hale, as camadas do que foi e do que será a mulher sem Underwood no nome e no cotidiano. Empoderada ela sempre foi, mas será que vai dar conta de ocupar um cargo onde todos querem vê-la falhar? Para nós no Brasil, sabemos as duras penas que uma presidente enfrenta ao chegar no poder. E se ainda não está esclarecido o quanto é tóxico ter pessoas duvidando da sua capacidade o tempo todo por questões não apenas de ofício, mas de gênero, dá para ter alguma ideia. Ah, os privilégios masculinos…

Apesar de haver lá suas semelhanças com a vida política real dos norte americanos, Gibson disse que a narrativa de Claire começou a ser pensada antes mesmo da vitória de Donald Trump em cima de Hilary Clinton, em 2016. “Então esses temas foram aumentados. Será que a América ficcional está preparada para uma presidente mulher? E quais foram as reverberações disso no mundo real e vice-versa?”, questionou Gibson.

O que sobrou de Frank Underwood

Claire mantém ao menos uma tradição do falecido marido: se dirige ao espectador de vez em quando. Segundo Pugliese, as razões disso, porém, são diferentes. “O direcionamento de Francis ao público soava mais como campanha. O de Claire é mais uma negociação de confiança. Ela está trabalhando a diferença entre o que ela escolhe revelar a outros personagens sobre ela mesma e o que ela conta somente para nós. A questão é: onde está a verdade?”.

Após a misteriosa morte de Frank, a teia de relações vai se estreitando cada vez mais, sempre em meio a muitos conflitos, ambições, chantagens e planos maquiavélicos. É claro que Doug Stamper (Michael Kelly) vem à mente quando lembramos das temporadas anteriores e do que pode acontecer agora, afinal, ele é também uma viúva de Frank. Gibson fez questão de colocar em cheque a reflexão de quem, no final das contas, era uma parceria melhor e mais leal a Francis: Claire ou Doug?

Doug é um viciado, e ele é viciado à lealdade que deu à Francis. Nessa temporada nós o vemos lutando com onde colocar essa lealdade agora. Mas, eu argumentaria que nesta temporada, quase bizarramente, Doug se torna o centro moral do show. Eu acho que o que Francis e Claire fizeram com Doug ao longo dos anos o forçou a confrontar sua humanidade de maneiras que outros personagens não fizeram - até as pessoas que ele mais machucou. Foi uma descoberta profunda para nós como escritores para esta temporada final.

Como se nos agarrássemos no passado ao longo dos capítulos, entre personagens antigos e novos, vemos Doug como uma fonte de confiança. Ele se torna uma peça fundamental pois ainda trás a tona uma profunda ligação com o falecido, ao mesmo tempo que precisa criar e, na mesma proporção, fugir de uma conexão com a presidente. A gente sabe do que ambos são capazes e também sabemos as maneiras que Frank os manipulou. Colecionando tantas relações, interesses e maldades no currículo, eis que surge a assombrada House of Claire, com rastros de tudo o que aconteceu no passado.

O maior tema de todos nessa temporada é cumplicidade. A navegação e negociação de todas as coisas que Claire fez com Francis”, Gibson constatou, enquanto Pugliese complementou. “Melissa e eu sempre acreditamos que essa era, em sua essência, uma série sobre um casamento”.

Gibson foi certeira ao definir como o relacionamento moldou, e ao mesmo sufocou, a personagem: “é uma parceria realmente incomum. E a certo nível, ela ainda está agarrada a isso nessa temporada. Está seguindo em frente, mas existe uma parte do passado que ainda tem as mãos ao redor de seus tornozelos. Uma das coisas mais interessantes para mim é que ela é uma Primeira Dama em luto, uma viúva, e presidente ao mesmo tempo. Num primeiro momento, ela tem que ser as duas coisas”.

Falando em sentimentos e sobre o amor entre o casal, que de alguma maneira estranha sempre nos fazia torcer por eles, os showrunners preferem manter o enigma no ar. “Acho que eles negociaram a ideia de amor por si mesmos”, disse Pugliese. Sua busca pelo poder foi a força por trás do casamento. Na verdade, essa busca pode ter sido a versão deles de fazer amor.” Gibson adicionou que “foi absolutamente simbiótico. Se eles eram o autor da glória ou da morte um do outro, ou ambos, é uma pergunta muito boa que persiste.”

Ao devorar os cinco primeiros episódios da última temporada, o que podemos afirmar por enquanto é que Francis e seus diálogos primorosos realmente fazem falta. Seria injusto dizer que os telespectadores não ficarão de luto por ele. Desajustado, o começo é um pouco desanimador, confesso. Mas a medida que rostos conhecidos vão surgindo e Claire vai movendo suas peças no tabuleiro, a coisa vai fluindo num ritmo melhor. Jane Davis (Patricia Clarkson), Tom Hammerschmidt (Boris McGiver) e Viktor Petrov (Lars Mikkelsen) também dão o ar da graça com suas interpretações fantásticas, agitando os ânimos.

Assim como a viúva, estou fazendo esforços para enterrar Frank e ver até onde Claire pode chegar. A questão é: conseguiremos nos livrar dele? Porque de início ainda falta entregar mais individualidade e autonomia a uma personagem tão forte como ela, afinal, é o tipo de pessoa que não cabe à sombra de alguém. São muitas as perguntas que ainda pairam no ar, mas colocar interrogações sobre o que Claire é capaz de fazer pelo poder não combina com ela.

 

Publicidade Anuncie

fotos: divulgação


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Mais Médicos: Cubanos atendiam rincões e mais pobres. Quem vai fazer esse trabalho?