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Fomos até o Rio Grande do Norte ver de perto o festival Mada, que há 20 anos alimenta almas com música independente

por: Aline Feitosa

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Natal, Rio Grande do Norte. É aqui, nesta capital com cerca de 800 mil habitantes, em pleno Nordeste brasileiro, que existe um dos mais importantes festivais para a cena independente do país. Nascido em 1998, o Mada (Música Alimento da Alma – eita, nome bonito!), surgiu em um momento em que vários outros festivais explodiam em pequenas e grandes cidades. Eram a principal vitrine para artistas e bandas que estavam em processo de formação de público e para os “olheiros” das gravadoras conhecerem novos trabalhos (afinal de contas, há duas décadas, gravar um disco ainda era um sonho atrelado à uma relação de dependência. Ter contrato com uma major estava entre os principais objetivos de quem fazia música).

Rincon Sapiência, MC e beatmaker, esteve entre os destaques do lineup.

Vinte anos se passaram. O mercado se transformou e a internet se tornou o principal meio de difusão da produção independente. Que bom, né? Mas, e os festivais no meio disso tudo? Perderam seu papel? “Os festivais deixaram de ser descobridores de novos sons para serem os reverberadores. Como dizia Carlos Miranda, banda precisa tocar. São nos festivais onde os trabalhos divulgados pela internet ficam fidelizados pelo público. O palco jamais vai deixar de ser o melhor lugar de contato e trocas”, explana Jomardo Jomas, idealizador do Mada.

Com sucesso, a banda escocesa Franz Ferdinand é a primeira investida internacional do Mada.

No último final de semana, dias 12 e 13 de outubro, cerca de 12 mil pessoas estiveram presentes na 20ª edição do Mada. Realizado há cinco anos na Arena das Dunas, estádio construído para a Copa do Mundo de 2014, o festival que nasceu pequenino no bairro da Ribeira, se consolida, mesmo em plena crise política e econômica, com estrutura de “gente grande”.

Três palcos se intercalaram para apresentar 26 atrações. Dessas, 12 bandas potiguares, não deixando escapar a essência que fez o evento surgir: mostrar para o público de Natal a sua própria produção musical. Alinhado nesta base de sustentação, o Mada ganha ainda mais pontos com a ação “Mada faz escola”, levando as bandas de Natal para instituições de educação da cidade, com pocket shows e bate-papo, chegando só este ano a quase cinco mil adolescentes. No quesito de movimento da cultura pop local, realiza ainda, desde a sua primeira edição, a Feira Mix, reunindo trabalhos de arte, moda e artesanato criativo.

Cerca de 12 mil pessoas estiveram presentes na Arena das Dunas, em dois dias de festival.

Outra atitude que chamou a atenção, ao observar o funcionamento da produção, foi ver que as mulheres dominavam os espaços profissionais do festival. Em um ambiente historicamente masculino, ver as minas nas funções de coordenação, direção de palco e roadie era de dar gosto. Aplausos! Mais um mérito da programação do Mada está em misturar a cena da cidade, como Luísa e os Alquimistas, Angela Castro, Ardu, Far from Alaska e Alphorria, ao que há de mais bacana por esse Brasilzão afora. Sendo assim, trouxe acertadamente um lineup com o Cordel do Fogo Encantado, Nação Zumbi, Baiana System, Rincon Sapiência, Francisco El Hombre, Larissa Luz, Pitty, ÀTOOXÁ e, pela primeira vez, arriscou e teve resposta positiva ao escalar uma atração internacional. “Natal foi a única cidade do Nordeste a receber o show do Franz Ferdinand em sua turnê brasileira. Queremos, cada vez mais, incluir a cidade nesses roteiros das bandas gringas”, afirmou Jomardo.

Cordel do Fogo Encantado em show da turnê “Viagem ao coração do sol”, que marca o retorno do grupo.

Os escoceses não pouparam hits e entraram discretamente no clima de protesto da plateia ao tocarem “Michael”, canção que fala de dois homens dançando juntos. Os gritos em coro de “Ele não” estavam presentes em todos os shows. Quando não puxados pelo próprio público, eram instigados do palco, pelas bandas com unanimidade, inclusive com mensagens escritas em projeções no telão de fundo de palco.

Larissa Luz, com um show potente, questionou: Para mim, esse negócio de intolerância religiosa não existe. O nome disso é racismo”. Logo em seguida, um dos momentos mais fortes veio com a banda Francisco El Hombre. Antes de iniciar a canção Triste, louca ou má, a vocalista Juliana Strassacapa convocou todas as mulheres para a frente do palco. Após a execução da música, em interpretação visivelmente emocionada, com punho cerrado, ecoou: “Nenhuma a menos”.

Francisco, El Hombre, entre outros grupos, expôs posicionamento político durante o show: “Nenhuma a menos”.

Estar no Mada, naquele final de semana a 15 dias do segundo turno da eleição que escolherá o próximo presidente do Brasil, significava revelar um posicionamento político e social. Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, mostrou porque a banda precisava retornar aos palcos. Havia uma legião de fãs à espera do grupo pernambucano, que declamava com ele as poesias que falavam de amor, Sertão e resistência. Rincon Sapiência, por sua vez, nem precisava levantar discursos entre uma música e outra, afinal de contas o show do rapper já transborda tudo que precisaria ser dito. Sim, o papel de um festival ultrapassa a missão de reverberar trabalhos musicais. Neste momento (e em tantos outros da nossa história), também nos serve, e com muita potência, na exposição democrática dos artistas e público em relação ao atual cenário político do país.

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fotos: Aline Feitosa

 


Aline Feitosa
Aline é jornalista desde que começou a falar, conta a mãe. Nascida no Rio de Janeiro, mudou-se aos 15 anos para Olinda, Pernambuco, carregando até hoje e com muito orgulho o sotaque da nova e permanente morada. Trabalhou em diversos veículos de comunicação do Recife, com foco em coberturas no meio cultural, assinando no início dos anos 2000, por três anos, a coluna Uma pitada de Tudo, no Diario de Pernambuco. Na primeira década como repórter, se debruçou na cultura popular, pesquisando maracatus de baque solto, cavalos-marinhos e tantas outras brincadeiras e brincantes pelo interior do estado. Daí surgiram matérias especiais como A geografia do Coco, finalista na categoria de reportagem cultural no Prêmio Embratel de Jornalismo e, ainda, a publicação A Cambinda do Cumbe, livro de fotografias sobre o maracatu rural mais antigo do Estado. Interessada em positividade e qualidade de vida, criou em 2008 a Trago Boa Notícia, agência de comunicação que desenvolveu trabalhos de consultoria para artistas e importantes projetos de música de Pernambuco, entre eles o Porto Musical e o MIMO Festival, onde contribuiu por dez anos consecutivos. Festeira por natureza, realiza há dois anos, em seu quintal, no bairro do Espinheiro, o projeto de micropolítica intitulado Pequeno Latifúndio, onde convida músicos com trabalho autoral para um sarau e conversas com um público de até 50 pessoas.

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