Matéria Especial Hypeness

Popular na Nigéria e Brasil, app ensina iorubá para crianças: “Que a diáspora africana aprecie sua origem”

por: Kauê Vieira

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A África se destaca por países cada vez mais interessados em usar a tecnologia como ferramenta do desenvolvimento sustentável. Protagonizada por Nigéria, Gana e Etiópia, os impactos já podem ser sentidos na mudança das relações entre pessoas, cidades, seus espaços de trabalho e claro, com o meio ambiente.

No Quênia, por exemplo, o M-Pesa está revolucionando a relação das pessoas com o dinheiro. Com mais de 9 milhões de usuários, o sistema de banco por celular é responsável por representar 11% do PIB do país. Pesquisas dão conta que ao menos 45% da população adulta do país utiliza o sistema.

Outro berço do desenvolvimento endógeno é a Nigéria. A capital Lagos tem mais de 7 milhões de habitantes e um potencial criativo sem precedentes. Diferente de anos anteriores, as iniciativas tecnológicas são capitaneadas pelos próprios nigerianos. Aquela velha máxima de dar o protagonismo a quem lhe é de direito.

Adebayo mira nos mais jovens para conseguir manter viva tradições nigerianas

O CC Hub é um grande case de sucesso. O espaço de co-criação fica em Yaba – um distrito de Lagos e foi fundado em 2010 por Bosun Tijani. O hub oferece uma plataforma onde as pessoas são orientadas para usar a tecnologia como método de resolução dos problemas sociais do país. A marca despertou interesse de gigantes como a Samsung e o Facebook.

Duas iniciativas que se unem ao Asa (lê-se asha), aplicativo para celular criado pela Genii Games, empresa nigeriana voltada para o desenvolvimento de aplicativos interativos para smartphones. Em entrevista ao Hypeness, Adebayo Adegbembo – professor formado pela Universidade de Lagos e idealizador do Asa, explica que a ideia é passar aos mais novos valores sobre a cultura africana de um modo divertido.

A ideia do Asa surgiu quando minha prima nasceu em 2012. Eu comecei a perceber que crianças como ela corriam o risco de não entender e apreciar nossa língua materna – incluindo o iorubá – porque seus pais talvez optassem em se comunicar em inglês. Então, o Asa pretende fazer nossas línguas e cultura atraentes para crianças, revela o nigeriano.

A aplicativo apresenta elementos da cultura iorubá com desenhos e brincadeiras divertidas

De forma lúdica, abusando dos sons e imagens, o Asa reúne ensinamentos sobre ética e etiqueta, além de resgatar algumas brincadeiras que já não estavam, digamos, tão populares entre as crianças nigerianas. Adebayo conta que desde o surgimento, o Asa está fazendo bastante sucesso entre as famílias da Nigéria.

Eu diria que ele está sendo bem recebido na Nigéria, porque estes são temas atuais em nossa sociedade. Nosso problema em lidar com a cultura e linguagem local são bastante óbvios. Pude constatar o mesmo problema em conversas que mantive com africanos fora da Nigéria. Por isso, a ideia de preservar e promover a cultura proporcionada pelas línguas africanas é bem-vinda.   

Os tais estereótipos, disseminados, sobretudo, por uma rede de informação centrada no Ocidente – principalmente nos Estados Unidos e Europa, faz com que as pessoas acreditem que países como Senegal e Moçambique tenham como língua materna francês e português, respectivamente.

É claro que as crianças adoram e não se desgrudam dos tablets

 A Nigéria possui registros de pelo menos 521 línguas, entretanto, por causa do domínio exercido pelos colonizadores do Reino Unido, o inglês se tornou a língua oficial e com isso o número de crianças familiarizadas com o Iorubá foi diminuindo com o passar do tempo, o que acendeu o sinal amarelo para pessoas como Adebayo.

Acontece que este conceito deturpado embaça a visão, fazendo com que não seja possível compreender que a maioria dos países africanos sofreu uma imposição colonizadora na sua maneira de falar. Durante séculos, o continente berço da humanidade foi alvo de saques e invasões de exércitos europeus, que além de roubarem suas riquezas, contribuíram e muito para o processo de escravização.

Por volta de 1482, embarcações vindas de Portugal atracaram no Oeste da África com o intuito de construir uma fortaleza para se defender das ameaças de outros países colonizadores. Localizado Gana, o Castelo de São Jorge da Mina fez parte da chamada Costa do Ouro. Dali, partiriam mais de 30 mil pessoas escravizadas em navios que tinham como destino o Brasil.

Assim como o Brasil, a Nigéria ainda sente os reflexos da colonização

Ao longo de três séculos, 4,8 milhões de africanos foram trazidos para terras brasileiras e aqui vendidos como escravizados. Detalhe, mais de 670 mil morreram na travessia Atlântica. Os efeitos foram devastadores e macularam costumes enraizados nestas terras tão antigas.

Existe uma máxima entre negras e negros do Brasil que o seguinte: “Eles tentaram nos enterrar mas não sabiam que éramos sementes”. O fato se comprova através da resiliência de pessoas como Adebayo Adegbembo. Com o Asa ele está conseguindo ressuscitar os ensinamentos ancestrais que fazem da Nigéria um país de tamanha importância para a humanidade. 

Apesar de algumas mudanças, a tradição iorubá está viva entre milhões de nigerianos. A língua iorubá está diluída entre os mais jovens, especialmente em centros urbanos como Lagos. A moda exerce um papel fundamental nesta engrenagem. O Asa é um membro desta gama de plataformas imbuídas em promover e preservar uma cultura tão rica. Nosso objetivo é fazer com que o iorubá dialogue com crianças e adultos. Para isso, propomos uma combinação entre desenhos, jogos, comandos de voz e contação de história. Nosso aplicativo é de fácil acesso e basta possuir um smartphone.

A Nigéria reflete um boom tecnológico que toma conta de países da África

Disponível para download  via Google Play e Apple Store, curiosamente o Asa está fazendo muito sucesso do lado de lá do Atlântico. Adebayo nos conta surpreso que o número de brasileiros enviando e-mails pedindo uma versão em português é enorme.

No começo, fiquei surpreso com a recepção dos brasileiros. Embora soubesse da conexão história entre afro-brasileiros e a África, fiquei lisonjeado e inspirado em presenciar a prática por meio do meu trabalho. Meu objetivo é que a diáspora africana aprecie suas origens.  

O professor formado pela Universidade de Lagos arrisca um palpite. Para ele, a proximidade entre os dois países, principalmente por meio da religião, faz com que seguidores do Candomblé, por exemplo, encontrem no Asa um meio de falar sem preconceito sobre a história dos orixás.

Um dos motivos do grande interesse dos brasileiros é justamente a influência do Candomblé

Youruba101, que ajuda crianças a aprender iorubá, conta com representações dos orixás Xangô, Oyá e Oxum. O objetivo é dividir informações sobre este símbolos tão entrelaçados com nossa cultura. Eu acabei descobrindo um grande interesse dos brasileiros, porque eles também  estão associados com estas divindades por causa do Candomblé. Então, sim, eu recebi um retorno positivo do Brasil sobre o Youruba101. Posso dizer que já estamos trabalhando em uma versão para o português.

Assim como o Asa e o Yoruba101, o Igbo101, também segue no mesmo caminho, formando uma tríade imbatível para a sedimentação de um território mais seguro paras as gerações futuras. E a atual também.

Realizado em parceria com o CC Hub, o trabalho da Genii Games comprova o que foi dito no início da reportagem, a África é muito, mas muito mais do que um continente marcado por mazelas ou com abundância de natureza.

Com 54 países, o continente africano é também o berço da vanguarda tecnológica. Mas, diferente de seus algozes do colonialismo, no século 21 as descobertas pretendem combater desigualdades que começaram lá atrás e foram alimentadas por um sistema corrompido que já não se sustenta.

Eu acho que a tecnologia oferece oportunidades incríveis para todos os setores. É um fenômeno em pleno desenvolvimento na Nigéria. Acho que a tecnologia nos oferece uma grande chance de combater o racismo e as desigualdades. Como? Oferecendo empoderamento, educação, habilidades e sustentabilidade financeira. Assim, temos plena capacidade de reverter rupturas em nossa sociedade. É um longo caminho para derrubar as barreiras da desigualdade econômica.

Você pode baixar o Asa, o Yoruba101 e o Igbo101 aqui.

 

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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