Matéria Especial Hypeness

Vizinhos se unem para cultivar PANC na horta urbana City Lapa, em São Paulo

por: Brunella Nunes

Depois de muitos anos sendo esquecidas, cortadas e pisoteadas, chegou a hora das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) brilharem na mesa dos brasileiros. Numa manhã nublada, acompanhei a nutricionista e expert no assunto Neide Rigo em sua tarefa matinal: cuidar da horta urbana City Lapa, na região oeste de São Paulo, onde ela e alguns vizinhos cultivam vários tipos de PANC. Saí de lá munida de descobertas e com novos matinhos de comer!

Foi em 2014 que começaram os trâmites para transformar a degradada esquina das ruas João Tibiriçá e Barão de Itaúna, que costumava ser depósito de lixo e entulho, num pequeno oásis comestível. Junto da vizinha Ana Campana, Neide, moradora do bairro há 20 anos, conseguiu alguns adeptos da ideia e levou o pedido para o subprefeito, que concordou com a ideia. E assim nasceu a horta comunitária City Lapa.

Como a felicidade alheia sempre parece incomodar, um ano depois veio a confusão. Uma pequena parcela de moradores não gostou de ver a ocupação e tratou de abrir uma reclamação, pedindo que a horta tivesse autorização por escrito, ou seja, aquela burocracia que mais atrapalha do que ajuda. A reclamação também envolvia o plantio de mudas de capim santo na beira de uma calçada que, mesmo estando dentro da lei, alegavam atrapalhar a passagem. É, o verde não costuma ser bem aceito na Babilônia.

Da tal semente da discórdia, surge a resistência, tão presente nas próprias PANC, que surgem em meio a tantas adversidades da metrópole. Assim como elas, parte dos moradores se mantêm resilientes e empenhados em fazer a natureza brotar. Já teve vizinho tirando todas as mudas de árvores que coloquei aqui, alegando que já tinham árvores demais nesse trecho ou que são chamarizes para traficantes. Engraçado…não estamos vendo nenhum!”, ironizou Neide, enquanto caminhávamos entre as espécies remanescentes, como a Castanha do Maranhão, que oferece não só uma linda flor para admirar com os olhos como também uma castanha, conhecida como amendoim de árvore.

Existe uma maior resistência das pessoas mais maduras, mais conservadoras, porque cresceu nesse ambiente de encantamento com a industrialização. São mais resistentes a mudança. Mas os jovens atualmente estão muito abertos, interessados e questionadores.

Ao longo desses quatro anos de vida da horta, mesmo de forma “não oficial”, realizam-se mutirões mensais para fazer limpeza, plantio e colheita. Mas no dia a dia o lugar fica ali, disponível para quem quer que passe. Além disso, é uma fonte segura de PANC, pois todas estão sinalizadas com uma placa informativa, assim ninguém precisa se arriscar ingerindo o que não deve.

Pode ser que os pedestres nem imaginem, mas este é um exótico horti-fruti de mão cheia e com tudo gratuito, direto da fonte, de forma tão organizada quanto nas gôndolas dos supermercados. Entre as mais de 50 espécies tem de tudo: fruta, hortaliças, ervas medicinais, condimentos, temperos e até grãos, como o feijão mangalô, além de uma caixa de abelhas Jataí, aquelas sem ferrão que ajudam na polinização.

Apesar da oferta ser variada, vale lembrar que é bom apreciar com moderação, afinal, numa horta comunitária fica subentendido que outras pessoas também farão uso das mesmas coisas. É bacana se arriscar em novos sabores, driblar o monotonia alimentar e aguçar o paladar, mesmo que você não tenha gostado tanto do que provou. A gente terceirizou o poder de decisão, de escolha. Vamos ao supermercado e alguém já escolheu o que você tem que comer. Acho que estamos num momento de resgate, de conexão com a natureza e escolha da própria comida. E quando falamos em PANC, tem coisas que são deliciosas, outras apenas comestíveis mesmo, comentou Neide, dando risada.

Ubajaí

Sentadas no meio da horta, conversamos sobre os hábitos alimentares, o medo de inovar e em como a tendência colabora para fortalecer o movimento. Sempre tem o modismo, que infelizmente passa. Mas pelo menos quando passar, ficou muita gente com o conhecimento, que se perpetua. Acho que boa parte dessas plantas vão ser incorporadas na cozinha a ponto de virarem comuns, então há um ganho aí”.

O conhecimento e o nível de empoderamento por meio da comida vão ainda mais além da cozinha. Estar ciente da diversidade alimentar que o Brasil é capaz de fornecer amplia a nossa gama de opções em prol da saúde como um todo, de forma simples e democrática. “Meu marido é alopata, então antes de apelar para os remédios de farmácia, tentamos a fitoterapia. E aqui isso também se espalhou. Se a vizinha está com gripe, venho aqui e colho assa-peixe para fazer um chá.

– Neide e a vizinha Janaína, que deu uma paradinha por lá antes dos afazeres do dia

Andando pela horta da City Lapa, pude conhecer e comer tantas coisas, aquelas que jamais tive acesso durante minhas compras na feira ou mercado. Achei curiosa a vinagreira, que é vermelhinha e tem um sabor azedinho como o vinagre; o alho silvestre, que dá uma flor muito gracinha e tempera o arroz; a galanga, que é ardida pra caramba; os variados tipos de manjericão (anis, cravo e alfavaca), todos com aromas e gostos deliciosos; a listrada zebrina, que resulta numa bebida roxinha chamada água de Matali; a ubajaí, frutinha amarela, que parece uma prima da uvaia; e a palma, um tipo de cacto comestível. E pra não dizer que não falei das flores, saiba que a rosa também é comestível, assim como a adocicada flor chanana, pouco conhecida de nome, mas certamente já avistada em muitos canteiros da cidade. No blog Come-se, criado pela Neide, há uma infinidade de informações e receitas maravilhosas com vários tipos de plantas alimentícias não convencionais.

É uma opção alimentar de baixo custo. Existe uma deturpação de que o acesso às PANC é elitizado. Há uma elite engajada e que busca utilizá-las em restaurantes, divulgar…e isso é super positivo. Mas de forma alguma isso é elitista. Boa parte delas cresce de forma espontânea, na sua rua ou quintal. Então olha só que coisa boa, você está comendo uma coisa da moda e orgânica!

 

Vinagreira

Palma

Chanana

Mini rosa

É impressionante como um pedaço de aproximados 70 m² faz a gente encontrar o verdadeiro jardim das delícias terrenas. Depois de um passeio com a Neide, já pude identificar muitas PANC no meu bairro e acho que nunca mais vou olhar para os canteiros da rua da mesma maneira. As plantas realmente mudam a vida da gente, seja enfeitando a casa ou refogadinhas na panela. Nhac!

Para mergulhar ainda mais no assunto, confira as matérias especiais sobre PANC do Hypeness e participe das turmas do PANC na City, passeio temático organizado pela Neide Rigo. De lá, saem banquetes deliciosos como esse abaixo:

Curry thai com jaca verde, salada de mamão verde, arroz com panc, talo de taioba com aspargos, salada de almeirão de árvore, ora-pro-nobis, kimchi e umeboshi da casa

Foto: Neide Rigo

Das frestas do concreto nascem os dentes de leão, que olha só, são comestíveis! Claro, a folhagem e a flor amarelinha, que ainda não chegou exatamente naquele estágio em que assopramos. 

Picão branco: uma das mais PANC mais comuns dos canteiros paulistanos.

O feijão mangalô, também conhecido como orelha de padre, é uma das grandes memórias afetivas da infância de Neide, que ainda perdura. Come-se as vagens, os feijões e as folhas.

 

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Fotos: Brunella Nunes para o Hypeness


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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