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9 frases do novo disco do Baco Exu do Blues que me fizeram olhar para minha saúde mental

por: João Vieira

Não é fácil ser negro em um país onde, quando jovem, se tem mais que o dobro de chances de morrer que um branco (dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

Também não é fácil ser homem em uma sociedade que te cria para ser uma pessoa violenta com o peito oco e que acaba te fazendo se sufocar com as próprias crises, que te levam a se suicidar quatro vezes mais que as mulheres.

A combinação dessa negritude constantemente atacada com a masculinidade tóxica faz com que o simples fato de existir já faça do preto um vencedor.

Mas o peso de se manter vivo e de pé é, por muitas vezes, quase insuportável de se carregar. Por isso é tão importante quando um homem negro bem-sucedido resolve dedicar toda uma obra à missão de se mostrar vulnerável e com fraquezas. É essa exposição tão profunda e didática que dita o novo disco de Baco Exu do Blues, Bluesman, lançado na última sexta-feira (23).

Capa do disco ‘Bluesman’

Com nove faixas, o álbum é uma viagem pelo psicológico bagunçado de Baco, que desabafa em cada uma das faixas com a angústia que se transmite pelo tom da sua voz, que em alguns casos deixa até escapar uma desafinada tão natural das grandes emoções. É impossível, enquanto homem negro, não se identificar com o que o artista cita em suas rimas, uma vez que a complexidade da sobrevivência preta torna frágil e complexo quase todos os aspectos da nossa mente.

Por isso, eu, aqui, em primeira pessoa, destaquei 9 frases do álbum que me impactaram totalmente e atingiram minha alma em cheio logo na primeira vez que as ouvi.

1. ‘Eles querem um preto com arma pra cima, num clipe na favela gritando cocaína’

67% das pessoas mortas pela polícia em São Paulo entre 2014 e 2016 eram pretas ou pardas. Existe um genocídio contra a população negra brasileira que começa na imagem estereotipada que novelas, filmes e séries nacionais reproduzem, sempre associando nossa pele ao crime. O resto é um efeito cascata que acaba sempre com os mesmos corpos sem vida. O crescimento da desigualdade entre negros e brancos relatado recentemente pela Oxfam Brasil mostra que o país voltou a colocar sua raça predominante no limbo. Ou seja, para aparecer em uma posição que não seja de fracasso, morte ou crime, uma pessoa negra precisa derrotar, acima de tudo, o sistema, como bem exemplifica a fala de Baco na faixa de abertura, Bluesman, homônima do disco.

2. ‘Não sou homem com quem você sonhava, mas queria ser o homem com quem você sonhava’

A insegurança e dependência emocional são duas constantes na cabeça de uma pessoa negra. Para se ter a autoestima e auto-suficiência necessárias para não depender emocionalmente de ninguém, é preciso derrotar traumas causados pela enfrentamento ao racismo que existem desde nossa infância. Se envolver, para uma pessoa negra, é sempre um risco, pois é frequente a sensação de que você pode não conseguir voltar com saúde daquele estágio de emocionalidade caso aquela relação acabe, seja ela afetiva, de amizade ou até mesmo familiar. O trecho citado está na canção Queima Minha Pele. 

3. ‘Tenho medo de me conhecer’

“Tenho medo de me conhecer”. A frase repetida por Baco em Me Desculpa Jay-Z reflete um dos grandes problemas enfrentados por pessoas negras que buscam saúde mental. O autoconhecimento é um processo evolutivo doloroso que envolve, essencialmente, a abertura de porões. Lutar contra o racismo faz com que negros e negras tranquem em lugares internos, que dificilmente são acessados novamente, uma série de sentimentos traumáticos acumulados desde a infância. Só que chega uma hora que esses porões entopem e a coisa começa a transbordar. Essa superlotação causa uma sensação de sufocamento angustiante. Muitos buscam o alívio no álcool e outras drogas, poucos ainda rumam para a terapia. A dor de revisitar momentos da vida que foram desligados da nossa cabeça precisa ser enfrentada, mas não é uma tarefa fácil de ser cumprida.

Em essência, o que Me Desculpa Jay-Z me transmite é o receio de não ser bom o bastante para ser amado nem por mim mesmo, assim como a inconsistência da força que é preciso ter para se olhar no espelho de forma fiel e corajosa, a ponto de enxergar, lá no fundo do seu interior, tudo aquilo que você buscou esconder de si mesmo durante praticamente toda sua vida.

4. ‘Vencer me fez vilão’

A desigualdade brasileira retrata uma forma cruel de operar do sistema. Você, pessoa negra, pode até triunfar, desde que não leve mais ninguém com você. Esse tipo de “peneira” causa animosidade dentro da própria comunidade. Um negro começa a ganhar dinheiro e logo se torna alvo de brancos e dos seus próprios semelhantes também. Minotauro de Borges, para mim, reflete o peso que uma pessoa negra bem-sucedida ainda tem que carregar ao se tornar vilã pelo simples fato de ter vencido.

5. ‘Por que aprendemos a odiar os semelhantes?’

Toda a canção Kanye West da Bahia segue essa mesma batida mencionada acima. Por que a vitória de um semelhante, muitas vezes, incomodada mais que a de uma pessoa branca? Por que um serviço comandado por empreendedores negros não pode cobrar caro por seus produtos e um comandado por brancos pode? E o quanto essa falta de unidade em torno dos semelhantes que chegam a algum lugar impede nosso crescimento coletivo? Por que não cobramos de um rapper branco como o Post Malone, por exemplo, o mesmo posicionamento incisivo contra a opressão e o autoritarismo como cobramos de Kanye West? Essa variação de peso é justa?

6. ‘Te procurei em outros corpos’

Esse é mais um trecho que mexe com a concepção de dependência emocional, assim como toda a canção Flamingos, uma das mais bonitas do disco. Essa falta de valorização individual faz com que nós, por vezes, busquemos pessoas não para agregar, mas sim para preencherem buracos que não conseguimos preencher sozinhos em nossas vidas. Assim, paramos de enxergar o ser humano que conhecemos e passamos a ver uma ferramenta para nos ajudar a cuidar da nossa cabeça, o que frequentemente nos leva a ter relações conturbadas e repletas de abusos psicológicos.

7. ‘O seu olhar é um caminho sem saída’

Olhando assim, parece uma canção de amor, mas será que é essa a intenção de Baco Exu do Blues em Girassóis de Van Gogh? Na verdade, o sentimento transmitido é o da angústia de não conseguir fugir das crises existenciais que nos atraem para labirintos como o da depressão, o que nos passa o sentimento de impotência e de que, de fato, não há como se distanciar daquela condição.

8. ‘Autoestima pra cima, meu cabelo pra cima’

Depois de ouvir e sentir tudo isso neste disco, se torna quase uma necessidade encerrar com um clima mais positivo, com a valorização do que temos de melhor. Ter autoestima enquanto pessoa negra é uma vitória que merece ser celebrada e preservada, e a conquista muitas vezes só é possível com gestos que, para quem vê de fora, parecem bobos, como deixar o cabelo livre para crescer. Poucas sensações são tão reconfortantes quanto a de que você se basta e tem talento para chegar longe. Essa parte é cantada por Baco em Preto e Prata.

9. ‘Sou meu próprio deus, meu próprio santo, meu próprio poeta’

E essa é a chave trazida no encerramento de BB King, a última faixa de Bluesman. “Me olhe como uma tela preta, de um único pintor. Só eu posso fazer a minha arte”. Se a dependência emocional é uma emboscada, a auto-suficiência é a saída para pessoas negras que buscam mais do que a simples sobrevivência. É preciso valorizar sua estabilidade inclusive para ser capaz de amar de forma saudável. Cuidar da mente e aprender os atalhos para se conhecer e estabilizar a autoestima é um passo fundamental para alcançar um futuro onde deixemos de ser frequentadores constantes de funerais.

Baco Exu do Blues

O sistema não vai deixar de ser opressor e racista, portanto é improvável que a resposta para nossa saúde venha dele. Só o empoderamento coletivo é capaz de nos levar a um futuro mais próspero do que o que se apresenta hoje. Para isso, é preciso cuidar de si e se amar, se colocar em primeiro lugar.

Poucas são as palavras que transmitem com fidelidade o bem que Baco Exu do Blues fez para a comunidade negra com as mensagens passadas em Bluesman, por mais difíceis de assimilar que elas sejam. Que o sucesso inevitável da obra sirva como marco para que cuidemos mais da nossa mente em busca de protegermos nossos corpos.

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Fotos: Divulgação


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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