Entrevista Hypeness

‘A vida é como o Cassino do Chacrinha: só acaba quando termina’, diz Nany People sobre conquista do nome social

por: Rafael Oliver

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Nascida em Minas Gerais, Nany People tornou-se cidadã paulistana e hoje é conhecida no país inteiro. Desde muito jovem aprendeu a questionar aquilo que lhe era imposto, quebrar tabus e lutar pelo que queria. Ganhou espaço na televisão, no teatro, no cinema. Ganhou fama e também o carinho dos Brasileiros. Conquistou respeito.

Recentemente, ganhou um papel na novela das nove. E como se não bastassem, Nany People Cunha Santos tem mais um motivo para comemorar: ganhou o direito de ter esse nome impresso em seu documento. Para mostrar a novidade e também bater um papo com a atriz, encontramos com Nany na cidade cenográfica da nova novela da Globo, em que interpretará uma personagem transexual.

Você é a mulher que se auto fez. E continua fazendo. Há alguns dias ganhou mais uma batalha e conseguiu trocar seu nome no documento. O quê significa esse documento pra você?

A vida é como o Cassino do Chacrinha: só acaba quando termina. Agora sou Nany People Cunha Santos no documento. Isso aqui foi uma conquista depois de anos de batalhas judiciais, um telhado de vidro que deixei de ter. Isso muda tudo, desde o constrangimento na hora de ser chamada para uma consulta até o embarque no aeroporto.

Um exemplo: fui fazer show no Japão, a conexão por Dubai é mais barata, porém não pude descer por Dubai, tive que ir pelos Estados Unidos. Se eu descesse lá dava problema, não subia mais. Então muda tudo. Você é literalmente chamada pela identidade que você se apresenta, se sente e é.

Uma vez você disse que queria mostrar que está acima do personagem que criou. Afinal, no começo, Nany People era uma personagem que depois te dominou completamente?

Não era uma personagem. É que o tom da Nany People se apresentando como drag era muito extravagante. Imagina ser assim o tempo todo… Não dá. Mas a Nany é real. Eu não chegava em casa desmontava e pronto: não sou mais a Nany. O que sustenta a Nany People são os dogmas de educação, de criação, de coisas que você acredita na sua vida. Que não fazem você se perder de você mesmo. Porque é muito fácil a gente se perder de nós mesmos. 

Mas acho que consegui mostrar quem sou. Quando participei daquele filme de terror chamado “A Fazenda”, mostrei para as pessoas a minha idoneidade de caráter, as coisas que acredito, o que tenho como conceito, como preconceito… Tirei o cabelo, tirei aqueles cílios todos. Ninguém representa você melhor do que você mesma.

Você foi apresentada ao Brasil pela Hebe Camargo, depois disso passou por praticamente todas as emissoras de televisão. Fez várias peças de teatro, fez cinema… Hoje, no horário nobre da Globo, você sente que atingiu um novo patamar na carreira?

Eu estou num momento feliz. Como te falei, minha vida é o Cassino do Chacrinha, só acaba quando termina. Tem esse reconhecimento de estar na novela das nove, um reconhecimento do meu trabalho… Estou aqui pelo trabalho que fiz, pelo dever de casa que fiz, na minha profissão, na minha carreira, no meu comprometimento. Não basta ser talentosa, ser divertida, tem que ter bom caráter. Eu acredito muito no caráter, na palavra. A gente tem que se emponderar e não ir para o lado negro da força. Eu sou uma jedi do bem. Mas concluindo a resposta, não tem essa coisa de “subi no pódio, acabou…”. Ainda quero fazer muito filme, novela, mini série… Quero aprender!

Esse papel chega à você justamente num momento conturbado no nosso país. Temas como diversidade estão em discussão, gerando novos debates. Você é inspiração e influência pra muita gente. Enxerga esse trabalho como uma responsabilidade?

Vou ser bem honesta: quando você faz sua historia acontecer, não está pensando em outra coisa. Você faz por instinto, por afeição, por reflexo. A maneira como isso vai ser apresentado depois, não cabe a você fazer, depende da leitura de cada um.

Eu tenho a consciência que vivemos no país onde mais se mata por homofobia, por transfobia, por ignorância. E eu sei que sou uma pessoa que faz muita gente pensar, mas não levanto bandeiras, nunca tive essa pretensão. Tudo que faço é porque acredito, é porque quero.

Sou muito grata pelo reconhecimento do meu trabalho. Diversas pessoas me escrevem agradecendo, dizendo que por minha causa elas tiveram coragem pra mudar, se sentiram mais fortes. Isso é muito bom.

E quando foi a primeira vez que você teve coragem? Quando se vestiu de mulher pela primeira vez?

Me vesti a primeira vez de mulher com 18 anos publicamente, chocando uma cidade toda no carnaval. Me vesti porque me senti bem, não estava fazendo nada de errado. Minha mãe me ensinou assim. Na minha vida eu não faço de conta, eu sempre fui verdadeira.

Agora, coragem, desde os 4 anos, quando questionei meu pai pela primeira vez, porque ele não queria me deixar ter um cartucho de doce cor-de-rosa. Só quebrei os tabus da minha vida porque questionei os nãos que recebia. 

Então era sua mãe quem mais te apoiava?

Minha mãe impediu meu pai de me bater quando eu ainda era criança. Ela me defendia e me apoiava. Aos 6 anos de idade a diretora do meu colégio chamou minha mãe pra dizer que eu tinha um problema. Minha mãe disse que não era um problema, era uma condição. Disse que cabia a ela como mãe me fazer a pessoa mais feliz do mundo. Ser transexual é o único jeito que eu poderia ser na vida, eu sempre fui assim, perua, pavoa. Doesse a quem doesse, chocasse a quem chocasse. Quando me tornei trans com 37 anos, choquei até o público gay que me via desde a G Magazine. Quando você vira trans você coloca sua alma a serviço do estrogênio, mesmo que sintético.

Você escreveu um livro chamado “Ser Mulher Não é Pra Qualquer Um”. Foi difícil pra você? De onde veio a inspiração pra se tornar uma mulher tão forte?

Eu sempre batalhei muito pelas coisas que eu queria. Fui criada por mulheres muito fortes. Minha mãe contestava meu pai. Minhas tias eram assim também. Esse reflexo das mulheres que me criaram… Foi com elas que eu aprendi a ser forte. Aprendi que não existe liberdade se você não é livre financeiramente. As mulheres da família faziam serviços pra ter seu próprio rendimento. Naquele tempo a gente já pensava assim. Todos somos iguais perante a lei. Temos que fazer nosso direito ser respeitado. Não precisa aceitar, só precisa respeitar.

Uma vez um crítico disse que Nany People tinha o discurso mais feminista do stand-up comedy. Você já viveu os dois lados. Isso ate ajudou a ter uma visão mais lúcida sobre aspectos sócio culturais?

Metade da minha vida passei abrindo porta para as mulheres. Depois que virei trans, as portas se abriram pra mim. Tem esse lado bom do cavalheirismo, mas infelizmente tem também um lado ruim. Os homens têm esse senso equivocado de achar que tudo parte do pressuposto sentido de que ele quer. De achar que você não é capaz. Às vezes as mulheres se fazem de frágeis para os homens se sentirem vitoriosos.

No stand-up comedy eu fujo de esteriótipos. Tem mulheres que ainda fazem texto se depreciando, com a visão masculina. No meu show eu mostro uma visão do universo feminino sobre os homens. 

“Uma Aula de Amor e Muito Humor” de uma mulher que sempre batalhou muito.  “Então… Deu no que Deu”:  se tornou conhecida nacionalmente.  Nany se dedica demais ao trabalho.  É um furacão. Um “TsuNANY”. Sempre foi assim e sempre vai ser. Com seu espírito jovem, Nany será “Forever Young”.

Algumas características dos seus personagens são suas também. A “Tagarela” da “Praça é Nossa” por exemplo… Agora você vai interpretar Marcos Paulo, uma transexual assumida. Se parece com você de alguma forma?

Hahaha. Eu falo bastante mesmo. Falo até de boca cheia. Mas então… Marcos Paulos é uma antítese de tudo que eu acredito. Ela se projeta muito pra chocar. Só por chocar. Quer causar o tempo todo. Na minha vida é diferente. O tempo me ensinou que às vezes a gente pode mas não deve, ou deve mas não precisa. Marcos Paulo faz a linha “vão ter que me engolir”. Eu não, eu vou chegando, “dá licença, cheguei, tô aqui, conquistei meu lugar.”. Você pode emprestar várias coisas ao personagem que não necessariamente são suas.

Nany se apresenta como a mulher que se auto fez. Mas na verdade é a mulher que se auto faz. E ainda vai fazer muito. Suas conquistas ainda estão longe de terminar. Mesmo sem a pretensão, é sim exemplo pra muito gente. Nany ganhou muito em sua trajetória. Mas quem também ganha com tudo isso é o público brasileiro, em ter uma artista como ela para se inspirar.

 

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Fotos: ensaio exclusivo por Designorama.com.br. Capa por Estevam Avellar/Globo. Agradecimentos: Maisa Copabiango, Julia Costa, Rachel Cardoso, Fabiana Silva, Renata Ramos e Rede Globo. Escrita por Aguinaldo Silva e com direção artística de Rogério Gomes, "O Sétimo Guardião" contará com Nany People na trama à partir do trigésimo episódio.


Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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