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Bonecos do Mundo reúne um público de 70 mil pessoas em Fortaleza e João Pessoa

por: Aline Feitosa

Enfim, percebi o quanto é importante rir de mim mesma. Essa sorte me aconteceu neste mês de novembro, nos 15 dias consecutivos em que viajei com a turnê 2018 do festival Sesi Bonecos do Mundo. Meus professores de presepada (como chamamos brincadeira por aqui) foram os mamulengos. Sim, mamulengos. Ou você pode também chamá-los de babau, cassimiro coco, briguela…

No Nordeste, são criações populares que se apresentam por traz de um pano colorido conhecido como empanada, acompanhados por um trio pé-de-serra (que toca forró com zabumba, triângulo, sanfona, pífano ou rabeca), e de lá soltam um discurso cheio de irreverência, sem a menor preocupação para o que achamos politicamente correto.

E não têm nada de fantoches ingênuos, tá? Os mamulengos até apresentam espetáculos infantis, mas preferem mesmo uma boa “tiração de onda”, com textos autênticos e piadas reais, que sempre nos cabem muito bem. Assim, rimos de nós mesmos.

#pracegover Músico toca rebeca, tipo de violino popular, para dois bonecos mamulengos, um negro, de cabelos louros e roupa vermelha e um folclórico boi bumbá

Mamulengos, bonecos comuns na região Nordeste, são piadistas e se apresenta, acompanhados por música, de preferência um bom forró pé-de-serra

Exposição com mais de 300 mamulengos da coleção da pesquisadora, já falecida, Magda Modesto, faz parte do festival desde o ano passado. Uma homenagem ao Mamulengo, Patrimônio Imaterial Brasileiro, em título cedido pelo Iphan

O festival, que já está na estrada há 15 anos e de lá pra cá passou por todas as capitais brasileiras, mais o Distrito Federal, presta reverência aos mamulengos, essa brincadeira genuína, produzida e manipulada por mestres que vivem geralmente nos interiores e zonas rurais. Feitos com a leve madeira do mulungu (vem daí a nomenclatura ao boneco, mas há pesquisadores que defendem a origem da “mão molenga”), árvore florida muito comum na caatinga, e vestidos com tecido de chita, contam histórias que fazem gente de todas as idades se embolar de rir.

Espelho do que somos, sentimos e queremos falar, o teatro de bonecos na “mamulengagem” foi tombado Patrimônio Imaterial do Brasil pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 2015. Importantes assim, e cheios de piada na ponta da língua (os bonecos Simão e Tiridá conversariam, provavelmente, desta forma: “Rapai, cachaça derruba um cabra. Tombaram a gente!), esses títeres vindos do Nordeste foram anfitriões, no Sesi Bonecos do Mundo, de companhias de teatro de oito países e oito estados brasileiros.

#pracegover Imagem panorâmica num final de tarde, com público em frente ao prédio de arquitetura vazada (Centro Cultural Dragão do Mar)

Cerca de 35 mil pessoas prestigiaram o festival, que teve uma de suas etapas na área externa do Centro Cultural Dragão do Mar

#pracegover Multidão atenda ao espetáculo. Ao fundo, céu anil, árvores do parque e uma grande árvore de Natal ao fundo.

Em João Pessoa, famílias lotaram o Parque da Lagoa, totalizando um público médio de 42 mil pessoas no espetáculos e performances. Uma apoteose bonequeira, com estrutura geralmente vista em grandes shows e festivais de música.

Trinta e cinco mil espectadores em Fortaleza, de 5 a 11. Quarenta e dois mil em João Pessoa, de 13 a 18 de novembro. Mais de 70 mil pessoas atentas aos bonecos, com espetáculos apresentados em teatros históricos e espaços públicos. Pois é: os títeres, mamulengos ou marionetes (uns dos muitos nomes que ganham essas formas animadas, produzidas com materiais diversos e técnicas variadas em todo mundo) não querem mais, há muito tempo, estar em pequenos palcos.  Prova disso é o resultado que gera o Sesi Bonecos do Mundo, evento que traz como principal viés a democratização do acesso à cultura. Inteiramente gratuito e dedicado a esse gênero teatral, o  festival já alcançou mais de 2,5 milhões de pessoas no país desde a sua criação em 2003.

Marionetes dos mais variados tamanhos, com a dimensões de um palito de fósforos até quatro, cinco metros de altura. Ou  mesmo criaturas inesperadas, bonecos feitos com partes do corpo humano, no surpreendente trabalho da dupla peruana Hugo e Inês, se apresentaram este ano para cearenses e paraibanos, numa estrutura que só temos o costume de ver em grandes eventos de música.

Uma apoteose bonequeira, digamos assim, com dois palcos siameses, com 10 metros de comprimento cada um, quatro telões de led espalhados em praça pública e ainda mais 5 palcos menores, sendo um deles ma simpática kombi amarela, que abrigou a Ópera Carmen, da companhia russa Tenj, onde os personagens são marionetes miúdas, do tamanho do dedo polegar.

Performances, intervenções e espetáculos acontecendo em meio às dezenas de milhares de pessoas. Ainda, pavilhão com exposição de 300 mamulengos raros da coleção da pesquisadora Magda Modesto, já falecida, e contribuições dos mestres mamulengueiros vivos. Olhem só as fotos desta matéria para ter a noção do que estou falando. Coisa linda de ser ver! E aproveitem para ver o documentário com pouco mais de 20 minutos sobre a turnê 2017, em Recife e Maceió -, que tem a deliciosa locução do ator Sérgio Mamberti.

A Ópera Carmen, apresentada em uma kombi amarela pelos russos da companhia Tenj. Os bonecos, manipulados por varas, têm o tamanho de um polegar.

#pracegover Imagem mostra uma mulher e um homem fazendo formas com as mãos que se transformam um criaturas animadas

Um dos espetáculos mais surpreendentes do Bonecos do Mundo foi o “Pequenos Contos”, da dupla peruana Hugo & Inês. Partes do corpo viram bonecos!

Entre os headliners (ou gradiosos espetáculos), o Bonecos do Mundo teve na turnê o Alice Live, com a banda Pato Fu e o grupo Giramundo (MG), a montagem Aladim, dirigida nada menos do que pelos The Forman Brothers, filhos do recém falecido diretor tcheco Milos Forman, vencedor do Oscar pelos filmes Um estranho no ninho – 1975 e Amadeus – 1985. Ainda, duas sumidades das marionetes manipuladas por fios: o norte-americano Phillip Huber, que criou e atuou com com seus bonecos no clássico filme de Spike Jonce Quero ser John Malcovich – 2000; e o mais ilustre marionetista da Europa, o espanhol Jordi Bertran, que atua no cenário do teatro de bonecos desde 1977.

A técnica do teatro de sombras foi uma das muitas utilizadas pelos mais de 150 artistas presentes no festival. Neste, os tchecos Irmãos Forman apresentam sua leitura do clássico conto “Aladim”

O norte-americano Phillip Huber, um dos mais conceituados marionetistas do mundo, recebe o público com seu fofo cachorrinho manipulado por fios no belíssimo Theatro Santa Roza, em João Pessoa (PB)

Além de ocupar os teatros históricos das capitais, como em Fortaleza o belíssimo Theatro José de Alencar (1910) e o Theatro Santa Roza (1889), em João Pessoa, com três dias de espetáculos, em duas sessões em cada um, o festival monta sua grande estrutura em parques ou praças públicas.

A Praça Verde, no Dragão do Mar e o Parque da Lagoa, em ambas cidades, viram um formigueiro de gente que se dividem em uma programação intensa das 16h30 às 20h30, com ações e espetáculos acontecendo muitas vezes simultaneamente. Público de jovens, adultos e crianças, que celebram a arte e ocupam espaços público de um jeito, infelizmente, ainda pouco visto no Brasil. O festival começou em Olinda, em 2003, como Bonecos do Brasil e hoje é, sem dúvida, o grande incentivador e difusor deste segmento teatral.

Antes dos anos 1970, por exemplo, segundo o pesquisador e bonequeiro catarinense Valmor Nini Beltrame, este gênero era bastante conhecido como teatro de títeres, teatro de fantoches ou teatro de marionetes. Hoje, usa-se teatro de bonecos ou teatro de formas animadas. “Ao mesmo tempo, as nomenclaturas já não conseguem abarcar a diversidade de modos de criação, a complexidade e a maturidade desse teatro”, revela ele, emendando que o reconhecimento tem inúmeros fatores, entre eles a elevada elaboração técnica e artística de muitos grupos com trabalhos contínuos, atuando em diferentes regiões do Brasil.  “Lembro bem que, quando nos apresentamos em Belém, em 2014, ficamos impressionados com a quantidade de gente em frente ao palco para ver nosso espetáculo. Ali, percebemos a transformação. Enfim, tínhamos o público que os bonecos do mundo merecem. Viramos pop estars!”, conta com sorriso largo o ator Rafa Cambará, do grupo Corsários Inversos (RS).

Público aplaudiu de pé o espetáculo “Alice Live”, criado pelos mineiros Patu Fu em parceria com seus conterrâneos do grupo Giramundo. Um espetáculo psicodélico de bonecos, projeções e muita música.

Fernanda Takai, da banda Pato Fu, com a idealizadora do Sesi Bonecos do Mundo, Lina Rosa Vieira.

“Pra gente é sempre um enorme prazer participar deste festival, um dos mais bem estruturados e atenciosos com os artistas e com o público que conhecemos e passamos”, elogia a cantora Fernanda Takai, que nesta edição 2018 esteve no palco com o grupo Giramundo e sua banda Patu Fu para apresentar os espetáculos Alice Live (que une teatro de bonecos, projeções e música em uma hora alucinante e psicodélica) e o Música de Brinquedo 2. “Acreditamos nesse teatro sem portas. Antes de qualquer coisa, este é um projeto de direitos humanos, de democratização do acesso à cultura. Unimos arte ao patrimônio histórico e, é importante neste momento em que vivemos sermos irreverentes, livres nessa arte que ajuda na diversidade e na tolerância”, acentua Lina Rosa, idealizadora do projeto, que, durante a estada do projeto nas cidades por onde chega, também ativa ações filantrópicas em hospitais, comunidades carentes e outros locais de difícil acesso e mobilidade escassa.

O boneco alquimista do espanhol Jordi Bertran, que surpreende ao criar números com bolhas de sabão.

Além dos espetáculos apresentados em praças públicas e nos teatros históricos, o festival tem ações filantrópicas em comunidades, hospitais e instituições. Nesta, a companhia Girovago & Rondella, da Itália.

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Fotos: Beto Figueiroa


Aline Feitosa
Aline é jornalista desde que começou a falar, conta a mãe. Nascida no Rio de Janeiro, mudou-se aos 15 anos para Olinda, Pernambuco, carregando até hoje e com muito orgulho o sotaque da nova e permanente morada. Trabalhou em diversos veículos de comunicação do Recife, com foco em coberturas no meio cultural, assinando no início dos anos 2000, por três anos, a coluna Uma pitada de Tudo, no Diario de Pernambuco. Na primeira década como repórter, se debruçou na cultura popular, pesquisando maracatus de baque solto, cavalos-marinhos e tantas outras brincadeiras e brincantes pelo interior do estado. Daí surgiram matérias especiais como A geografia do Coco, finalista na categoria de reportagem cultural no Prêmio Embratel de Jornalismo e, ainda, a publicação A Cambinda do Cumbe, livro de fotografias sobre o maracatu rural mais antigo do Estado. Interessada em positividade e qualidade de vida, criou em 2008 a Trago Boa Notícia, agência de comunicação que desenvolveu trabalhos de consultoria para artistas e importantes projetos de música de Pernambuco, entre eles o Porto Musical e o MIMO Festival, onde contribuiu por dez anos consecutivos. Festeira por natureza, realiza há dois anos, em seu quintal, no bairro do Espinheiro, o projeto de micropolítica intitulado Pequeno Latifúndio, onde convida músicos com trabalho autoral para um sarau e conversas com um público de até 50 pessoas.

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