Matéria Especial Hypeness

Dia de maldade: descobrimos quem é o ‘Brown do zap’ e batemos um papo com ele

por: Kauê Vieira

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Um áudio supostamente atribuído ao rapper Mano Brown inundou perfis do WhatsApp. Gravado pelo designer gráfico Marko Mello, o conteúdo propõe uma reflexão sobre os efeitos das fake news no consumo de informação nos dias atuais.

Marko começou a usar o WhatsApp como ferramenta reflexiva com o viral Dia de Maldade, originalmente feito pelo MC Dia de Maldade. O burburinho da história foi tão grande, que ganhou regravações como a de MC João, produzida por Kondzilla.

Mano, eu fiquei meio em choque porque nunca nem foi a intenção de imitá-lo. Uma rapazeada já tinha me dito que a voz parecia e tal, mas daí a confundir a ponto de repassarem a parada como se fosse ele é muita viagem. A primeira vez que me falaram isso foi quando eu tava numa festa e uma amiga falou: ‘viu o áudio Dia de Petralha que o Mano Brown gravou? chegou até na Dilma’ [isso foi antes do impeachment]. E eu: ‘Dia de Petralha? que porra de Mano Brown, fui eu quem escrevi e gravei’. Daí pra frente quase todos os áudios que gravei, em algum momento, repassavam como sendo o Brown, explicou em entrevista ao Hypeness.

O áudio de Marko viralizou depois de fala crítica de Brown em evento do PT

Em conversa com o Hypeness, Marko explica que em momento algum pretendeu se passar pelo membro do Racionais MC’s. Na verdade, o designer gráfico quis jogar luz sobre a tendência das pessoas de acreditarem em tudo que recebem em seus smartphones.

“Eu transcrevi o áudio, com a ideia de fazer um twitter só com as frases dele. Dali eu vi que o áudio em si era quase um roteiro e que a partir dele eu poderia fazer áudio sobre qualquer coisa, sempre tentando usar a linguagem que o maninho lá, uma parada mais de quebrada [cresci no Jardim Brasil/Parque Edu Chaves, zona norte de SP]. Daí eu fiz o Dia de Golpismo, Dia de Designer [trampo com isso], fiz um soundcloud e fui publicando todos os que chegavam pelo zap”, recorda.

Marko explica que começou a receber mensagens e provocar o interesse de outros usuários quando decidiu falar de política nas redes sociais. Ele conta que o estopim surgiu com Dia de Petralha. No áudio, ele faz uma crítica ao cenário político polarizado que paira nos Brasil há algum tempo. Mas, por causa de semelhança com a voz de Brown e o descuido dos pessoas em se certificar da autenticidade, a coisa quase saiu do controle.

Até que fiz o Dia de Petralha, que estourou e foi quando falaram que era o Mano Brown. Continuei fazendo os áudios normal, mas sem grande repercussão, até o Dia de Lula Lá, que fiz quando saiu a sentença dele no TRF4 e estourou quando da prisão dele lá no Sindicato dos Metalúrgicos. Fizeram remix com a parada, o barato foi louco. Depois teve Dia de Ursal, que circulou bastante, e o último, Dia de Virada, pra dar uma inflamada na militância, que usei a base do Funk do Sax e circulou um monte pelos zaps.

O WhatsApp é o grande responsável pelo grande fluxo de fake news no Brasil

Mas afinal, você quis ou não quis imitar o Mano Brown, cara? Durante as negociações para a realização da entrevista, este repórter que vos escreve teve trabalho para entender o objetivo de Marko. Como foi dito, ele não queria imitar e tampouco se passar por Brown e chegou a ficar com medo de uma reação negativa do artista. Isso não quer dizer que ele não admire Mano Brown, pelo contrário.

Na real o mais importante ali era a mensagem final dos áudios. Meu maior receio, no final, era o próprio Mano Brown achar que eu tava fazendo os áudios de caso pensado, imitando ele na caruda, e pegar mal com isso, manja? Porque nunca fiz pensando em enganar ninguém, nem em querer aparecer eu mesmo como autor dos áudios nem porra nenhuma. A intenção era mesmo passar as mensagens, seja nos primeiros áudios mais ‘zoeira’, seja nos outros já entrando na seara política. Tanto que fui em dois atos do PT apresentar uns estudantes e os organizadores me chamavam de ‘Mano do Whatsapp’, saca? Nem nome eu tinha mais, tá ligado? (risos).

Os áudios de Marko são inspirados no ‘Dia de Maldade’

Embora seja engraçada, a história serve de alerta para os perigos das fake news. Durante as eleições de 2018, as notícias falsas exerceram grande influência no desempenho de candidatos. O grande propagador de conteúdo inverídico foi o WhatsApp.

Usando a própria história, Marko faz um alerta e pede para que as pessoas tenham mais cuidado ao receberem uma informação e que não saiam acreditando em tudo.

“Eu achava bizarro, na real. Porque qualquer pessoa que já ouviu alguma entrevista do Mano Brown se ligava que não era ele ali. Mas também escancara que qualquer merda que chega no Whatsapp com uma legenda pré-determinada é totalmente aceita pelo interlocutor. E como eu, um cara que não sou nada, vou desmentir uma rede de whatsapp gigantesca? Alguns camaradas até desmentiam quando viam nos grupos, mas essa porra corria o Brasil, não tem jeito. Alguma hora alguém mandava o ‘Olha aí, recado do Mano Brown, firmeza total’ e pronto, não era mais eu, era ele”.

Em tempo, Facebook e WhatsApp se pronunciaram sobre os casos de fake news e dizem que estão redobrando os esforços para combater esta prática. No Brasil, 120 milhões de pessoas utilizam o aplicativo de mensagens.

Recentemente o WhatsApp divulgou uma lista para evitar que boatos e notícias falas se se espalhem.

  • Saiba identificar notícias que podem ser falsas: Procure sinais que te ajudem a julgar se uma informação é falsa. Por exemplo: mensagens encaminhadas com fonte desconhecida, falta de evidências ou mensagens cujo único propósito é o de irritar ou incitar violência. Estes são sinais claros de que uma história pode não ser verdadeira. E, lembre-se: fotos, vídeos e até áudios podem ser manipulados para tentar te enganar.
  • Sempre verifique outras fontes: Faça uma busca on-line pelos fatos e cheque sites confiáveis de notícias para ver de onde uma história veio. Se ainda tiver dúvidas, busque mais informações com pessoas de sua confiança e profissionais de checagem de fatos.
  • Ajude a parar a divulgação: Se você se deparar com algo falso, avise as pessoas e peça para que sempre verifiquem fatos antes de compartilhá-los. Não compartilhe uma mensagem só porque alguém te pediu para compartilhar.

 

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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