Matéria Especial Hypeness

Larissa Luz celebra rebeldia e talento de Elza Soares em musical: “Me faz sentir útil dentro da luta feminista e antirracista”

por: Kauê Vieira

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Caetano Veloso, permita-me discordar, mas a completa tradução de São Paulo e do Brasil é Elza Soares. A carioca, Elza nasceu e cresceu no “planeta fome”, como bem descreveu durante participação no programa de calouros de Ary Barroso em 1953. Mas não se resume a isso.

Mulher negra, Elza Soares precisou lutar contra todos os obstáculos de um país como o Brasil para atingir o sucesso. Filha de um guitarrista e uma lavadeira, Elza nasceu e foi criada no Morro da Moça Bonita, em Padre Miguel, no Rio de Janeiro.

Conhecida por bater nos meninos, se casou aos 12 anos. Com 20, já era mãe de cinco crianças e abandonada pelo marido, criou todos sozinha, tirando o sustento por meio do dom de cantar.

Larissa Luz é uma das sete atrizes vivendo Elza Soares no musical

O tempo, senhor da razão, tratou de pagar seus débitos com Elza Soares. Por muito tempo carregou a pecha de aproveitadora, criada por um pensamento alimentado pelo ódio machista, seguiu em frente e hoje colhe os frutos de uma carreira sólida.

A história de vida da mulher do fim do mundo é tema de um musical que desembarcou em São Paulo no último dia 18. Estrelado pela cantora soteropolitana Larissa Luz e outras seis atrizes, Elza fala de tudo o que já foi dito e mais um pouco, mas sem deixar a alegria de lado.

“Bom, a nossa tentativa é de não encobrir as mazelas sofridas por ela, mas de retratá-las sob a perspectiva da vitória. A denúncia existe, mas sob o prisma de quem superou tudo aquilo e foi além. De quem levantou e deu a volta por cima. Assim, ela se torna impulsionadora, motivo para que outras pessoas que vivem e passam por coisas parecidas, sigam adiante e superem todos os obstáculos para fazer história”, explica Larissa Luz em entrevista ao Hypeness.

O espetáculo traduz o tamanho da representatividade de Elza enquanto mulher negra

Elza foi concebido por Vinícius Calderoni e conta com direção de Duda Maia. O espetáculo divide a história de vida da cantora por meio da interpretação das atrizes, todas negras, que se revezam em um palco decorado com baldes de lata, fazendo alusão aos que a artista carregava na cabeça nos tempos do morro de Moça Bonita.

Ciente da responsabilidade, mas sem temer os desafios, Larissa Luz diz ter conversado com Elza antes da estreia no Rio de Janeiro. Aliás, São Paulo é a terceira cidade a receber a peça, que passou também por Salvador.

“Ela não deu muitas dicas direcionadas, me deixou livre para construir. Falou sobre não retratá-la como santinha, nem sofrida. Me ensinou, em tom descontraído, uns trejeitos que ela fazia no palco. Muito generosa”, destaca.

Larissa Luz diz que recebeu de Elza o conselho de expressar alegria

Um instante para a descrição de Larissa sobre o show na capital baiana. Salvador, como você sabe, é a cidade com mais negros fora da África. Sendo assim, imagine só o que passou pelas entranhas de Larissa, mulher negra da Bahia, ao se apresentar no palco do Teatro Castro Alves.

“Emocionante! Meu coração disparou. Salvador tem a África pulsando em suas ruas, músic e comida. Chegar lá com um espetáculo que fala de racismo, de feminismo negro, de música preta ancestral contemporânea, com arranjos de Letieres Leitte. Foi magia pura. Até hoje ecoa!”

Alegria é a palavra de ordem. Mesmo para falar dos tempos de pouca luminosidade. O ponto sensível da trama é justamente a violência doméstica. Além de ter sido obrigada a se casar, Elza Soares foi vítima de agressões e perdeu um filho.

“Sempre me emociono com esse texto. Quando fala do meu filho que morreu, quando fala do meu pai. São trechos que mexem muito comigo”, disse em entrevista à Folha.

“Elza se conecta com o presente o tempo inteiro”

Por isso, Elza, Calderoni, Duda e toda a equipe do musical usam o momento para alertar sobre a existência, até os dias de hoje, desta prática nefasta. O discurso ganha ainda mais peso e emoção quando lembra de outras mulheres negras vítimas de violência. É aí que o nome de Marielle Franco, assassinada a tiro no centro do Rio de Janeiro em março, entra em cena.

“Sinto que é uma responsabilidade grande. Há uma auto-cobrança natural, por estar representando  uma grande referência da música popular Brasileira.

Ela é gigante e me faz correr atrás de ser também.  Ao mesmo tempo, me sinto muito realizada em poder estar emprestando meu corpo, minha voz, minha arte, pra contar a história de uma mulher que admiro tanto. Uma história que fala de coisas tão relevantes, temas que me fazem sentir útil dentro da luta feminista, antirracista.

É muita magia nesse projeto, uma extensão de uma pesquisa e movimento pessoal que venho me dedicando há um tempo, desde a construção do meu último disco Território Conquistado”, salienta Larissa Luz.

“Temas que me fazem sentir útil dentro da luta feminista, antirracista”

Elza, que permanece em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo, até 18 de novembro, mete o dedo na discussão política. Claro, pensando na construção artística de Elza Soares, é impossível não pensar nos princípios fundantes da política.

Sempre foi assim, contudo desde o lançamento de A Mulher do Fim do Mundo em 2015, o nome da artista começa a ecoar com força na cabeça dos mais jovens. Por meio da música, a cantora chuta o balde, diz que Deus é uma mulher negra, exige respeito aos transsexuais e, mais uma vez, não deixa nenhum marmanjo levantar a mão.

“Me sinto totalmente estimulada e encorajada. Elza se conecta com o presente o tempo inteiro. Ela se reinventa, ela rompe os rótulos, ela dispensa prateleiras, ela arrisca, é tudo que penso sobre ser artista hoje. Vou tentando, no processo em vivê-la no teatro, adquirir esses super poderes que ela tem. É impressionante. Estarrecedor!”

Régua e compasso

O exemplo se reflete na trajetória pessoal de Larissa. A cantora soteropolitana faz parte de uma nova geração de artistas (como o pessoal do Baiana System, o rapper Baco Exu), que estão propondo caminhos alternativos para a música feita no Brasil. O som é pra curtir e refletir.

“A Bahia tá pulsando artisticamente de uma maneira bem forte. O trânsito, sinto ser inevitável muitas vezes,  apesar de não ser regra para se construir uma carreira bem sucedida. O axé esgotou- se um tanto pela repetição de fórmulas artísticas comerciais. As  exigências mercadológicas limitaram a cena, ao meu ver, e provocou no público uma saturação que culminou num desejo por novidade. Aí entra a nova cena musical da Bahia. Com a internet também tornou-se mais fácil o acesso ao conteúdo produzido por  quem não tinha grandes empresários, investimentos e entrada nas rádios. O Baiana System foi um marco. Dropou na onda desse movimento que surgia e abriu caminhos”.

Larissa Luz largou o Araketu em busca de imprimir sua própria identidade

Larissa Luz está chamando a atenção do público há algum tempo. Em 2016, a cantora foi indicada ao Grammy Latino, na categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo, por Território Conquistado.

A baiana, que será uma das intérpretes oficiais da escola de samba São Clemente no Carnaval 2019, começou a ganhar destaque no grupo de axé Araketu. Mas, como ela mesma disse, o momento pedia caminhos novos.

“Percebi que vinha na frente um novo momento e quis ter liberdade pra arriscar dentro dessa perspectiva. Autonomia para fazer do meu jeito e trabalhar a minha verdade para além das demandas comerciais”, finaliza.

Apesar da agenda quase cheia, Larissa Luz vai seguir em turnê com Elza, além de terminar as apresentações do disco Território Conquistado. A boa notícia é que ela já está conversando com o produtor Rafa Dias, responsável pelo surgimento do Atooxa, para lançar novo trabalho.

Asè.

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Fotos: foto 1: Andrea Possa/foto 2: David Campbell/foto 3: David Campbell/foto 4: David Campbell/foto 5: David Campbell/foto 6: Andrea Possa


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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