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MECAnnabis reúne representantes do mundo canábico em São Paulo

por: Gabriela Rassy

Quem conhece e ama o MECA sabe que, mais do que um festival, essa equipe porreta faz um tanto de ações legais durante o ano todo. Ali no MECASpot, a casa física do MECA em São Paulo, rolou tem pouco tempo um encontro especial para os amantes, interessados e curiosos sobre cannabis. A edição especial chamada carinhosamente de MECAnnabis reuniu vendedores e expositores trazendo produtos e boas conversas sobre a maconha.

Em geral cultuada por quem a conhece e odiada por quem não conhece, a tal da maconha é uma planta com propriedades medicinais poderosíssimas, usada historicamente como fonte de alimento, de materiais para construção e até de pasta de papel. Ou seja, dá para comer, para fazer papel, casa, curar doenças infinitas. Mas o que você sabe sobre a planta que já trouxe muita discussão em rodas familiares, políticas e sociais? E, principalmente, por que ela é proibida?


Chegando ao MECASpot, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, começamos os trabalhos com o talk “Sumindo na fumaça – sobre mudanças, novas perspectivas e a construção de um novo mundo”. A conversa com Alessandro Guidini, criador e idealizador do portal Cannabidiol Brasil, foi muito além da planta e passou por negócios, saúde, funcionalidades, tendências, cultura e transformação. Alessandro trabalha com comunicação e pessoas ha mais de 25 anos, além de atuar ativamente no mercado canábico desde 2017. Segundo ele, existe uma pressão muito grande para que o Conselho Federal de Medicina para que os médicos que podem prescrever canabidiol sejam apenas psiquiatras e neurologistas.

Sobre o tema da maconha medicinal, aliás, recomendo muito que vejam – de preferência em família – o filme “Ilegal”. Está no Netflix e é ótimo para tirar a capa de gordura entre a realidade e o conservadorismo desinformado. A conversa com Guidini levantou questões medicinais, sociais e benefícios da regulamentação do CBD. Atualmente, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a quantidade de pessoas autorizadas a importar remédios à base de Cannabis cresceu. Em 2014 168 pacientes foram atendidos. Já em 2018, esse número subiu para 4.236.

Antes da próxima conversa, em uma zapeada pela feirinha de produtos, conheci a espetacular Grow Inbox. A caixa para sistemas de cultivo indoor parece quase uma instalação de tão linda. Revestido em couro ou madeira, o prático ambiente cabe dentro do menor dos apartamentos e chega com uma ideia clara: mudar o ritual grotesco do trafico pelo ritual sagrado do plantio. Lindo. Emocionante. Ainda no mercado, produtos da King Bong, uma head shop completa com artigos variados para fumar, armazenar e apreciar maconha. Por ali ainda tinham roupinhas no tema canábico da Jonha.

A conversa seguinte trouxe Felipe de Castro, um designer focado na inserção do cultivo urbano e na auto-suficiência das diversas formas de consumo da cannabis. Ele mesmo começa falando sobre como sempre vergonha de sua relação com a cannabis – tanto pela proibição da justiça quanto da relação familiar -, até mudar o foco e sentir orgulho de trabalhar com a planta, cuidar e estar atento aos processos.

“Nós temos dois países vizinhos que fizeram essa regulamentação, Uruguai e EUA, e eles optaram por caminhos diferentes. Enquanto no Uruguai centralizou o controle no governo, nos EUA você precisa ter 3 milhões para começar a burocracia. É possível que quando comece a legalizar, ainda não fique bom. O cultivo pessoal é uma forma de regulamentar várias questões socialmente, principalmente essa questão econômica”. Para começar, segundo Felipe, é necessário definir o quanto se quer gastar. Quanto maior o investimento e o cuidado, mais chances de ter uma colheita farta e controlada. Os gastos são com aparatos entre luzes e equipamentos para medir as variações de umidade – pequena ela precisa de muita e grande, já com flores, a umidade é o maior risco.

Por fim e de extrema importância no assunto, a advogada do 25° habeas corpus para o cultivo de cannabis do Brasil, Cecília Galicio, falou sobre legalização, cultivo e ações para a redução de danos legais. “Não existe maneira de avançar com a discussão a respeito da cannabis, seja cunho social, recreativo ou medicinal, senão com pressão político-social”, diz Cecília. Ela contou sobre casos de pacientes que tiveram a importação e o uso do cannabidiol e como se protejer de eventuais problemáticas com a justiça.

 

O MECAnnabis foi uma troca de experiências total sobre a planta. Deu para ter uma boa ideia do que tá rolando no mundo da Cannabis no Brasil e aprender sobre cultivo, maconha medicinal e ainda sobre legislação. Voltamos então à questão do começo: por que raios a maconha é proibida? O principal motivo “lógico” foi a concorrência. Em 1916, George Schlichten inventou um aparelho que separava a polpa da fibra do cânhamo. Como a planta já era usada na fabricação de papel, esse invento foi determinante para exterminar completamente o desmatamento para obter papel. Mas as empresas petrolíferas da época acabavam também de inventar uma forma de produzir papel a partir do corte de árvores aliado à produtos químicos.

Fora isso, os usuários de cannabis no começo do século XX eram árabes, chineses, mexicanos e negros.No Brasil, maconha já foi considerada “coisa de negro” no sentido mais pejorativo possível da coisa. De lá para cá não vimos preconceito contra essas pessoas diminuindo, imagina no comecinho de 1900? A proibição da maconha gira em torno de muitos preconceitos e racismos que são perpetuados assustadoramente até hoje.

Pois bem, amigos, o que aprendemos hoje? Que temos uma planta completa e maravilha ao nosso alcance e ainda nos vemos barrados por conservadorismos baseados em nada – não, ninguém morre de maconha, muito diferente do álcool, por exemplo. Vale conhecer mais, se aprofundar e levar a discussão para um nível onde se faça sentido cientificamente e não com base em tabus e rabos presos da vida capitalista.

Fique de olho na programação do MECASpot para participar das próximas conversas. Lá é um espaço onde são realizados de quarta a domingo vários eventos gratuitos da plataforma, como os já famosos MECATalks, que fomentam a discussão sobre diversos temas atuais e os shows do MiniMECA, que uma vez no mês convida um artista, banda ou cantor para um pocket show no deck do espaço.

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Fotos evento: Gabriela Rassy
Destaque: Divulgação


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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