Roteiro Hypeness

Mostra ‘Mulheres Radicais’ reúne a produção artística feminina em tempos ditatoriais

por: Gabriela Rassy

Radical (ra·di·cal | adj m+f). Relativo ou pertencente à raiz. Que se opõe ao que é conservador ou tradicional. Completo. Que quer reformas absolutas em política, na economia e na sociedade.

Ser mulher, artista e viver em uma ditadura requer no mínimo ser radical. Sendo assim, em um período de instabilidades e incertezas, com flerte claro a esse regime retrógrado, se faz necessária a visita à mostra “Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985”. Em cartaz na Pinacoteca de São Paulo até o dia 19 de novembro, a exposição reúne mais de 280 trabalhos em fotografia, vídeo, pintura e outros suportes. Dentre as cerca de 120 artistas, mulheres latinas ou que tiveram sua produção mais intensa por essas terras.

Mulher, sim. Radical, mais ainda

Mulher, sim. Radical, mais ainda

Obra "Limitada", da argentina Marie Orensanz

Obra “Limitada”, da argentina Marie Orensanz

Com curadoria da historiadora de arte e curadora venezuelana britânica Cecilia Fajardo-Hill e da pesquisadora ítalo-argentina Andrea Giunta, a exposição parte do corpo da mulher como sendo já na essência um corpo político. A partir deste ponto, se desdobram 9 temas.

Em Paisagem do Corpo, as texturas e linhas corporais que misturam com ambientes naturais. O desaparecimento de culturas e as preocupações com o pertencimento do local estão em pauta. Neste sentido, a série “Paisagens Epidérmicas” da gaúcha Vera Chaves Barcellos apresenta cada centímetro do corpo como uma paisagem única e todo o grafismo das nossas curvas. Em vídeo, “Interacciones en Agua” mostra o duo venezuelano Yeni y Nan dentro de uma bolsa plástica com água, simbolizando a própria origem da vida.

“Paisagens Epidérmicas” da gaúcha Vera Chaves Barcellos

A sala Mapeando o Corpo é sobre a desconstrução dos formatos que regulavam e, assim, limitavam o corpo da mulher. É sobre emancipação, sobre não precisar assumir o papel predeterminado pela sociedade. Por ali, destaque mais do que especial para o vídeo poderoso “Me gritaron negra!”, da poeta peruana Victoria Santa Cruz. Com trabalho inspirador e um marco na luta do movimento contra o racismo, Victoria é infelizmente a única artista negra em toda a mostra.

Na sala seguinte, o Poder das Palavras. Se aproximando mais dos duros tempos de ditadura, a sala é um nó na garganta. Em tempos de linguagem controlada, as artistas encontravam suas formas de não deixar palavra escrita morrer. Assim, longe do significado literal, a palavra entra como desafio à tortura e à opressão. Atenção ao registro da performance da argentina Marta Minujín, “Leyendo Las Noticias” e ao “Marca Registrada”, onde a baiana Letícia Parente costura a palavra Brasil na sola de seu pé.

A seção Feminismos, que divide sala como Poder das Palavras, reúne os trabalhos mais alinhados com as ideias do movimento. A palavra que hoje segue incompreendida por boa parte da população, se vê ali claramente na militância das artistas. No trabalho “Cuaderno de Tareas”, a mexicana Ana Victória Jiménez faz uma série de fotos de trabalhos domésticos, focando nas mãos e dignificando cada tarefa em primeiro plano.

A sala mais potente e indigesta chega com o tema Resistência e Medo. A violência é o foco central das experiências nestes trabalhos. Detenção, prisão e tortura aparecem nestes trabalhos, da pintura à performance. Mantendo uma estrutura de pop art, a colombiana Sonia Gutiérrez foi exilada por denunciar a tortura e a perseguição. “Y con unos lazos me izaron”, ela retrata e usa como título o relato da doutora Olga Lopez, que foi mantida vendada e pendurada por cordas enquanto era torturada durante duas semanas. O sarcástico trabalho “Popsicles” da chilena Gloria Camiruaga é um vídeo onde ela e suas filhas chupam picolés enquanto recitam Aves-Marias repetidamente. Conforme vão derretendo, os sorvetes revelam soldados de plástico em seu interior.

“Y con unos lazos me izaron”, de Sonia Guitiérrez

“Popsicles” da chilena Gloria Camiruaga

Vale ver com atenção o trabalho da cubana Ana Mendieta, que tem a reprodução de sua obra proibida pela galeria americana que detém seus trabalhos. Uma oportunidade quase única de ver os registros intensos de suas performances. A artista foi para os Estados Unidos aos 12 anos em uma fuga da ditadura de Fidel Castro. A performer, escultora e pintora tinha uma carreia promissora em solo americano, até sua morte controversa chegar cedo, aos 35 anos. Sua queda do 34º andar do seu apartamento, onde vivia com seu marido, Carl Andre, provoca até hoje protestos do movimento feminista. O fato foi dado como suicídio por falta de provas, apesar de testemunhas haverem escutado uma briga violenta entre o casal pouco antes da morte de Mendieta. Desde sua morte, a artista tem sido reconhecida com retrospectivas internacionais solo em museus, além de ocupar lugar em muitas coleções públicas importantes, como o Guggenheim Museum e Metropolitan Museum of Art, em New York, Centre Pompidou de Paris e Tate Collection, em Londres.

Os lugares sociais onde as mulheres são colocadas, principalmente da maternidade e dos cuidados domésticos, aparecem na série fotográfica “Doña Concha”, de Marcia Schvartz, com imagens de uma mulher mascarada fazendo as tarefas da casa. Já nas fotos de Lourdes Grobet, uma mulher dá mamadeira a um bebê e se maquia, sempre vestida com máscara das clássicas lutas livres mexicanas. Um vídeo arte de Letícia Parente mostra uma mulher deitada na tábua de passar enquanto outra passa a ferro sua roupa.

“A Ousada”, da série “A Luta Dupla”, de Lourdes Grobet

Na sala que de um lado traz o erotismo e de outro o corpo como performance, destaque para o filme da carioca Lygia Pape, com uma boca masculina e uma feminina chupando e expelindo coisas. Marta Minujín aparece mais uma vez, agora com a obra “Colchón”. O corpo era parte essencial de seu trabalho, que começou com colchões multicoloridos nos quais o público era convidado entrar, simulando vaginas.

O colchão de Marta Minujín

“Mulheres Radicais” é a primeira na história a reunir um mapeamento tão grande da produção experimental feita por artistas latinas. Até o momento, a mostra não deve circular por outras cidades do Brasil, então vale correr para conhecer de perto trabalhos tão intensos. Sempre lembrar e estudar para que a evolução não pare – e para que nunca nos esqueçamos do que não queremos repetir. Jamais.

Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985
Curadoria de Cecilia Fajardo-Hill e Andrea Giunta
Colaboração de Valéria Piccoli
Até 19 de novembro de 2018 | De quarta a segunda-feira, das 10h00 às 17h30 – com permanência até às 18h00
Pinacoteca | Praça da Luz 2, São Paulo, SP
Ingressos | R$ 6 ; R$ 3 (meia-entrada); aos sábados, a entrada da Pina é gratuita para todos.
Menores de 10 anos e maiores de 60 são isentos de pagamento.

 

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Foto destaque: Reprodução de Negra, de Victória Santa Cruz


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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