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Por trás do viral: de onde vem a frase ‘Ninguém solta a mão de ninguém’

por: Vitor Paiva

Depois da confirmação da eleição de Jair Bolsonaro como próximo presidente do Brasil, ao sentimento de incerteza com o futuro do país que já era inevitável, somou-se o temor, especialmente por parte da população LGBT, negra, feminina e indígena, diante das abomináveis declarações e atitudes que marcaram a trajetória de Bolsonaro até a presidência.

Uma ilustração que captou o espírito do momento e o reafirmou em um sentido de união e resistência então viralizou – trazendo duas mãos entrelaçadas com uma flor entre elas, e a frase: ninguém solta a mão de ninguém.

Mas qual a história por trás do desenho e principalmente da frase que tomou conta de milhares de feeds na internet?

Quem criou a ilustração foi a tatuadora e artista mineira Thereza Nardelli, que afirmou em redes sociais se tratar de algo que sua mãe sempre lhe disse, como incentivo e reconforto em momentos difíceis.

Mas uma postagem no jornal GGN aponta outro fundo histórico para a frase: essa também era a mesma exata fala que servia como “grito de pavor” nos barracos improvisados do curso de ciências sociais da USP, durante a ditadura militar, quando os agentes do regime cortavam a luz para invadir o local.

“De noite, quando as luzes das salas de aula eram repentinamente apagadas, os estudantes buscavam as mãos uns dos outros e se agarravam ao pilar mais próximo”, diz o post. “Depois, quando as luzes acendiam, faziam uma chamada entre eles”.

O fim da história, no entanto, como era comum durante os anos de chumbo, não era sempre bom. “Muitas vezes acontecia de um colega não responder, pois já não estava mais lá”, conclui a postagem.

Alunos sendo detidos por agentes da ditadura

A conexão entre as duas origens parece não passar de uma triste coincidência, ainda que o espírito seja efetivamente o mesmo.

Em um comentário no post original, a mãe de Thereza explicou o ocorrido: “Quando falei a frase para minha filha Thereza Zangadas não conhecia essa história. Mas somos todos um e nossas emoções se misturam em um tempo sem passado ou futuro, quando o ideal libertário fala por si só”, ela escreveu, e concluiu: “Obrigada a todos e todas que se sentiram, de alguma forma, abraçados. Seguimos juntxs, em resistência”.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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