Entrevista Hypeness

‘2019 vai ser um ano de muita inovação, coragem e autocuidado’, diz Madama Br000na

por: Brunella Nunes

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Atenção, céticos do Brasil: essa entrevista é para vocês. Madama Brona, ou Br000na, para os mais hypes, não é cientista, nem pastora, nem guru, nem vidente. Se perguntar sobre seu destino, ela vai te responder várias coisas, mas não trabalha com visões do futuro ou solução mágica de problemas. Num diálogo franco e reflexivo, falamos sobre mudança de carreira, esoterismo, fé e, é claro, astrologia, que vai muito além do horóscopo e não é, nem de longe, o que o imaginário popular alimenta há anos.

A vida de Bruna Paludo deu várias voltas ao redor do sol. Nascida e criada em Porto Alegre, conviveu com avós evangélicos na infância, estudou Wicca na fase escolar e, quando sua mãe adoeceu, buscou respostas no espiritismo. Nesse meio tempo, cursou Direito, se casou, estudou para concurso público e uniu seus esforços para cumprir com os padrões sociais.

Até que, um belo dia, o acaso lhe soprou respostas. Ganhou um livro de astrologia, rompeu seu relacionamento de oito anos, mudou-se para São Paulo e começou mais um ciclo, dessa vez de mãos dadas com um novo amor: o tarô. “Confio muito no universo, muito! Me curvo para o mistério da vida, que está além de mim, e aceito meus limites com humildade”, contou ao Hypeness.

Autodidata, leu mais sobre filosofia, mitologia e antropologia do que sobre a astrologia em si. Mas estava certa de que dali pra frente havia encontrado um hobby para chamar de seu. O que não sabia mesmo é que em cerca de um ano a paixão ia virar profissão, canal no YouTube, consultas mil e reconhecimento em espaços de prestígio dentro da mídia. E simplesmente respeita quem não acredita em mapa astral e coisas do tipo.

Ninguém nunca vai te obrigar a acreditar em nada. Não quero convencer ninguém que astrologia é real e pode ajudar. Isso não é uma religião e eu não estou tentando converter ninguém. Não me ofende se alguém não acredita, estou super de boas.

Hoje, aos 30 anos, dá conselhos de “como sobreviver nessa coisa 3D chamada de Terra” e segue criando horóscopos inovadores, descontraídos e divertidos no Instagram, fazendo uso especialmente de memes e uma linguagem zero formal ou acadêmica. Para o ano que vem por aí, já trará ao menos uma novidade: o lançamento de um e-book, que estará disponível em seu site. Difícil não se identificar ao menos um dia que seja com o trabalho da taurina com ascendente em virgem e lua em sagitário.

É tagarela, nerd, engraçada e tem um quê de bruxona, mas como nem tudo são flores, a gaúcha também expõe um pouco de seus demônios pessoais. Não para agregar drama, mas para gerar conversas com o público, num esforço coletivo de tecer uma rede de acolhimento, que também é parte de seu ofício. Bruna ainda lida com a depressão, a qual ela chama de escuridão, mas procura deixar um rastro de estrelas para quem está na mesma situação ou sequer já sentiu na pele tamanho vazio. Viajando entre os planetas, segue com a cabeça na lua, mas os pés no chão.

Abaixo a gente fala sobre o universo particular e o místico da astróloga mais cobiçada das redes, porém sem cair em clichês e com zero vontade de te “converter” a coisa alguma. É um convite para pensar sobre o que somos e o que podemos ser a partir da profunda jornada pelo autoconhecimento.

Madama Br000na, por que raios você tinha escolhido ser advogada?

Eu tinha 17 anos e todo mundo ficou muito surpreso…as pessoas da minha escola, minhas professoras. Achavam que eu ia fazer algo mais artístico, ligado às artes mesmo, ou letras, porque sempre escrevi, sempre gostei de ler, sempre fui muito nerd. Na época minha mãe estava com câncer, tratando a doença há muitos anos, e era professora na universidade que eu tinha passado no vestibular, daí eu tinha bolsa de estudos. Então Direito parecia uma opção, digamos, responsável ou de pelo menos aquela sensação de estabilidade que a gente tem, né. A família tendo aquelas ideias sobre concurso público e tudo mais.

Uma coisa que pesou bastante na escolha é que eu gostava muito de política, me interessava muito por esse tema. E sempre tive na cabeça que se eu não advogasse, pelo menos saberia como funciona o sistema judiciário e as leis aqui no Brasil, e um pouquinho no mundo.

O que você leva de aprendizado dessa formação?

Foi um saco para conseguir me formar, mas eu gosto muito de ter feito essa faculdade. Mas eu tinha a cabeça totalmente diferente e já no terceiro semestre eu vi que não era algo que eu gostava tanto, mas continuei porque acho que era uma função importante. Foi por causa de Direito que tive contato com Direitos Humanos e entendi melhor como funcionavam as instituições no Brasil.

Foi ano passado que decidi que não queria mais advogar e trago muitas coisas que aprendi no exercício da advocacia. Eu fiz parte de órgão do G8 e lá fomos treinados para ter uma abordagem de acolhimento. E todo esse treinamento eu levo até hoje na minha vida. E toda a realidade que eu pude me aproximar exercendo essa função me tornou uma pessoa mais consciente do mundo e tudo mais.

E como foi a transição de Direito para astrologia?

A astrologia sempre foi um hobby pra mim. Desde que fui apresentada pra esse universo de um jeito mais sério, comecei a ler muitos livros de astrologia. Cheguei a reprovar por falta em matérias de Direito porque não queria ir pra aula e ficava lendo sobre o assunto, fazendo mapa astral de todo mundo…faz sete anos que me dedico a essa paixão como hobby. E a transição foi muito louca.

Depois que minha mãe faleceu, meu irmão estava super se virando sem mim e eu vi que não tinha mais aquela pressão da família, pensei em fazer algo que eu realmente amasse, sem a obrigação de agradar ou por causa de dinheiro. Algo com mais propósito e significado. Só que eu não tinha nem ideia de como fazer isso. Não foi uma coisa fácil e nunca nem imaginei que estaria trabalhando com astrologia, tarô e espiritualidade. Nunca, nunca.

Me mudei para São Paulo, fiz uns freelas de produção de conteúdo e de social media…de um jeito ou de outro meu trabalho sempre envolveu comunicação. Acho que antes de tudo, na real, eu sou comunicadora. Talvez essa seja a minha habilidade. Tentei emprego numas lojas e nem sei porque não rolou. Acho que não era pra ser, né. E daí eu estava precisando muito de grana e meus amigos (e amigos de amigos) começaram a tirar tarô comigo e a botar preço. Me ajudaram a pagar meu primeiro aluguel quando o dinheiro tinha acabado.

Quando vi estava totalmente submersa na astrologia, a galera estava curtindo muito meus horóscopinhos no Instagram e isso foi me abrindo portas e hoje me sustento com esse trabalho. Tudo aconteceu de um jeito muito fluido e era tão paixão pra mim que nunca imaginei que pudesse ser trabalho. E quando transformei isso em trabalho, foi uma realização muito grande. Mesmo sem planejamento, eu tive toda uma trajetória pra chegar aqui, com paciência, organização financeira, uma construção muito orgânica do meu método e da minha abordagem. Tive que ter paciência, me organizar financeiramente pra ficar um período sem saber onde eu queria realmente trabalhar. Enfim, eu demorei 29 anos pra trabalhar com o que eu quero.

Você acredita em intuição?

Super! Meu pensamento é altamente intuitivo, desde criança. Sempre gostei de arte, de dança, de música…Eu acho que todos esses processos criativos, que liberam a criação, são processos que estimulam a nossa intuição também. A minha foi fundamental! Especialmente quando mais eu me fortalecia, no meu processo de autoaceitação, de fortalecer a minha autoconfiança, a confiança da minha voz interior, de estar aberta para a fluidez do mundo, de não querer controlar tudo, de escutar os sinais…A minha intuição foi me guiando e tudo o que aconteceu na minha vida foi no momento certo, na hora certa.

Existe uma maneira de ilustrar o “desenvolvimento” dos processos intuitivos, que são tão abstratos? 

Quando falo que espiritualidade é um exercício de imaginação, não é no sentido de que é “imaginária”, ou uma ilusão, é no sentido de que antes é preciso imaginar para depois concretizar. Tudo o que existe no mundo, todas as situações que aconteceram primeiro foram imaginadas.

E a intuição é um exercício de sensibilidade e conexão com o que acontece ao seu redor, com a história das pessoas, a sua história, sua ancestralidade, o que acontece com o seu corpo…intuição é a base do meu trabalho. Claro que não é só isso, mas acho que quando está aliada a um pensamento crítico e a uma organização da vida, quando todos os elementos se juntam, ela é um instrumento muito muito foda que a gente tem. Talvez isso possa nos ajudar a trabalhar para essa construção de um mundo mais sensível, mais humano. A sensibilidade e a intuição fazem muito parte disso.

Falando no seu eu-interior, como você lida com a depressão? 

Esse é um assunto muito delicado, porque é uma doença, da qual ainda tenho que lidar, e que qualquer coisa pode ser um gatilho, sabe. Nem me sinto preparada para falar sobre isso. É muito complexo! Desde que eu sou criança tenho isso presente na minha vida. Eu acho que depressão é uma desconexão profunda, um vazio profundo. E quando estamos desconectadas espiritualmente ela com certeza se agrava. Eu tenho pra mim que é uma escuridão…é a ausência de luz, na real. É muito pesado.

Acho que é uma questão de saúde pública e fala muito da nossa sociedade contemporânea, de pra onde estamos indo. Por exemplo, eu estou gradualmente mudando o meu estilo de vida, a maneira como trato meu corpo, no dia a dia mesmo, para controlar a minha depressão. Porque o que a gente se alimenta, como os produtos industrializados, contribui muito para a depressão. A ausência de estar perto da natureza, estar perto do sol, não movimentar o corpo, não fazer exercícios físicos com regularidade. Essas coisas contribuem muito pra essa epidemia.

Com certeza a espiritualidade, estar trabalhando com uma coisa que eu amo, que é um prazer pra mim, me ajudou pra caralho, nesse senso de propósito e de encontrar uma vocação. Mas nem tudo se resume a isso. Ainda existe o fato de que, mesmo com essa opção, cada vez mais pessoas têm depressão.

As redes sociais pioram o cenário de insatisfação com a própria rotina?

Acho que existe um mundo fantasioso, cheio de pressões e igualmente cruel na internet, onde as pessoas se desumanizam muito. Aliás, eu amo São Paulo, mas viver numa cidade como a nossa desumaniza a gente pra caralho. E eu acho que muitas pessoas sequer têm o privilégio de pensar sobre isso porque estão focadas nas coisas básicas, na sobrevivência. E aí talvez a nossa geração, com pessoas que conseguem trabalhar com o que amam, em tese têm tudo pra ter uma vida boa e equilibrada e começam a sentir o vazio…a depressão pode pegar também. Enquanto for participante da sociedade, vai acabar sentindo as dores das outras pessoas…

Acho que a gente precisa aprender a lidar com a solidão, com esse sentimento de vazio que, inevitavelmente vai existir na nossa vida em algum momento. Não tem como se manter 100% equilibrada em um mundo que nem o nosso. Você consegue se isolar de tempos em tempos, mas as energias chegam até você. Se uma pessoa não está bem, ninguém está bem.

Quais são os tipos de ofensas que chegam até você e o que você faz para se proteger?

No Instagram sou muito bem tratada, me sinto protegida, apesar de não achar a rede social perfeita. Mas acho que pelo fato de você ter que ir lá fuçar na pessoa, nos stories e tal, ninguém me xinga injustamente. A coisa muda no YouTube, no Twitter ou em plataformas que transmitem vídeos para várias pessoas com a opção de comentários.

Mas acho que o que acontece comigo, acontece com qualquer pessoa que se expõe na internet e tem um certo alcance. Tem aqueles que te amam muito e outros que te odeiam a ponto de te desumanizar. Às vezes você, que obviamente é uma pessoa em desenvolvimento, que está aprendendo, escreve uma coisa nas redes, mas não se expressou bem. Aí corre o risco de ter dado close errado, de ser descontextualizada e, por fim, cai num extremismo, com a pessoa chegando com cinco pedras na mão, dizendo que você é a pior do mundo. Ou te botam num patamar de superioridade ou na lata do lixo. Acho isso tudo interessante para analisar o comportamento das pessoas, que ainda estão aprendendo a lidar com a internet.

No geral, a maioria das ofensas vêm de homens. Teve uma onda dos pseudocientistas, reclamando da astrologia, como se ela fosse cobrada no Enem, né! Temos aí o Bolsonaro na presidência para ajudar a sucatear a ciência. Mas dou risada, não levo nada disso a sério porque é sobre a minha persona. Eles não estão falando comigo e sim com uma projeção do que eu sou, criada por eles mesmos. Prefiro ler os retornos generosos, de gente com quem tenho uma troca de ideias.

Se envolver totalmente com seu hobby te ajudou a aliviar a deprê?

Por um lado me ajudou muito,porque nem parece trabalho e me sustento com isso. Mas por outro lado dá uma piorada porque surge um esvaziamento do que a gente faz por prazer. Parece que tudo está instrumentalizado para trabalhar e pode se tornar uma obrigação, sabe? Tipo, tudo que faço eu estou gerando conteúdo. Isso é meio enlouquecedor…E eu tento não cair nessa, tem que ter muito cuidado com isso!

Eu não tenho chefe nenhum, não tenho horários, nem nada. Se eu não quiser responder ou fazer alguma coisa, eu não faço. E ao mesmo tempo tem a minha auto pressão interna, que é a gente mesma se cobrando pra caralho pra fazer o melhor. Acho que isso vai acontecer cada vez mais. Você está livre daquela vida corporativa, mas quando trabalha com uma paixão, sua cobrança interna é sempre maior do que o que uma pessoa de fora poderia cobrar de você.

É realmente difícil quando a ideia de “encontrar o tal propósito” fica maior do que nós mesmas…

Isso é quase um mito na nossa sociedade, né? Encontrar a sua vocação, o seu propósito e às vezes é uma ciladona, na real, porque você vai ficar obcecada por aquilo, vai confundir as coisas, reprimir certas partes da sua vida, só porque você acha muito importante aquilo que você está trabalhando. Ficamos também subordinadas àquilo a ponto de não saber mais se gostamos ou se temos apego pelo retorno que as pessoas dão ou à ideia de trabalho por prazer.

Acho que outras pessoas vão precisar lidar com questões do tipo: o que a gente perde quando profissionaliza algo que amamos muito? E como lidar com isso de um jeito equilibrado, vivendo no mundo real. É um desafio complexo, eu ainda estou vendo como equilibrar essa questão na minha vida.

Como explicar a astrologia para uma pessoa totalmente racional e zero supersticiosa?

Para além da nossa fé, que é muito íntima e preciosa, a astrologia é, sobretudo, um fato cultural. Faz parte da história da humanidade olhar para o céu, olhar a sua volta, acompanhar os ciclos da natureza. Costumo comparar com a biomimética (estudo das estruturas biológicas), como por exemplo entender sobre o movimento dos pássaros para ver se aprendemos algo sobre a nossa própria vida. Estudar o desenvolvimento de uma árvore ou uma planta para entender como nos desenvolvemos também…

E isso necessariamente envolve respaldo científico?

A astrologia está muito ligada aos ciclos da natureza. Eu não a vejo como ciência, apesar de ter astrólogos fodas que sim, porque acho que isso é meio que uma colonização do pensamento científico eurocêntrico, em que tudo tem que ser validado para ser ciência. Não tenho essa pretensão de faze-la virar algo científico, na verdade adoro que nem seja! Acho que é mais uma arte milenar interpretativa, uma simbologia, uma linguagem e um instrumento de autoconhecimento.

Uso muito a astrologia e o tarô como linguagem interpretativa, para que eu imagine novas possibilidades para a minha vida e para o que estou sentindo, preenchendo de significados e coisas que se conectem. Também já fui cética, não via sentido de nada disso. Mas depois passei a entender que não estavam falando da Vênus, o sol ou a lua lá de cima, mas daqui de dentro. Ao ver que essa era uma arte transcendental, pra mim tudo se fechou.

A astrologia tem inúmeras abordagens, mas é como qualquer outra profissão, tem muita gente picareta. E sabemos que ficam usando esse suposto respaldo científico para vender verdades e soluções de problemas.

Sendo parte de um universo místico, muitas pessoas desacreditam e descreditam o zodíaco. Existem meios de romper essa barreira?

Eu não sei se tem resposta pra isso, porque acho que isso transcende o que nós, que trabalhamos nesse meio, podemos fazer. Isso faz parte de um paradigma coletivo, das pessoas interpretarem coisas diferentes como ameaça. Elas se sentem ameaçadas por pensamentos diferentes, mas que na verdade são enriquecedores.

Até quem se diz extra libertário, científico, não sei o que, fica muito ameaçado. A maioria dos meus haters na internet são homens que se dizem cientistas, “amantes da ciência”, mas que são pseudo cientistas, digamos assim, porque não possuem nem o embasamento científico para confrontar as ideias. Quando apontam que “ah, isso aí é 100% mentira” - cara, cadê a dúvida, a curiosidade, a experimentação que tu precisa para estimular a busca por respostas? Ciência não combina com certezas.

Na real, isso é uma burrice. Por um lado revela o empobrecimento simbólico que a gente tem vivido nos últimos anos, da pessoa não conseguir imaginar outras maneiras possíveis de ver e entender o mundo. E parece que só aumenta o fato de que as pessoas não conseguirem entender que astrologia, misticismo, esoterismo e até religião também são fatos culturais.

Eu só fico de cara quando me chamam de charlatã e falam que aquilo é uma bobagem. Pelo desrespeito e dificuldade em lidar com as diferenças. Tenho amigos que nem se interessam por isso, mas respeitam muito o meu trabalho.

Brona posa com sua mascote Donia para Felipe Morozini

Qual a maior dificuldade dos céticos em relação ao seu campo de trabalho?

É uma questão cultural bem maior, bem mais ampla do que a astrologia. É uma simbologia e algumas pessoas não conseguem entender que a gente não está falando de astrofísica, de astronomia, que não é sobre os planetas físicos lá…Astrologia ocidental nem acompanha mais o movimento do céu. É sobre interpretar símbolos e traze-los para enriquecer sua percepção sobre sua vida e seus sentimentos.

Por um outro lado, também não gosto do pensamento mágico. Não acho que basta fazer um ritual se você está precisando de dinheiro. Ou se você estar triste, por algo ruim ter acontecido, colocar a culpa na lua, no mercúrio retrógrado…como se você estivesse subordinada à influência dos astros e não tivesse forças para criar o que deseja para a sua vida. Não boto fé nisso.

A inteligência das pessoas que trabalham com esoterismo é subestimada por causa desse “pensamento mágico”, deduzindo que a gente é meio boba, meio burra. Aí entram os outros rótulos, por eu ser mulher e aparentar menos idade, ou por ter tatuagem e cabelo colorido, sou uma maluca. E não respeitam a minha inteligência. Só que isso não é problema meu também!

Acho que a gente precisa ter uma visão diferente sobre as coisas, e meu trabalho vai para um outro lado. E o lado da fé, não há nada que possamos fazer que possa convencer ninguém, entendeu? Porque é algo que a pessoa sente, isso não se força. A conexão com a astrologia é igual. E tudo bem! Você pode se conectar espiritualmente com outras coisas.

Atualmente estamos numa vibe meio bruxona. O assunto está um pouco mais na mídia e as mulheres estão desmitificando o assunto, olhando para os saberes ancestrais com mais carinho. O que você acha disso? Esse conhecimento faz a gente ter mais autocuidado e autonomia sobre nossas escolhas?

Ai, eu amo isso! Não é exatamente esse conhecimento que faz a gente ter mais autocuidado e autonomia sobre nossas escolhas. Qualquer conhecimento pode ser usado. O que pode nos salvar é a maneira como estamos usando esse conhecimento.

Acho que essa coisa da bruxaria, dos saberes ancestrais, fazem parte de um movimento maior, que está buscando renovar tradições em vários campos, com um maior respeito em relação aos povos originários e suas tradições. É uma renovação sem esvaziar símbolos.

Quem tem um pensamento de raiz afrocentrada está 500 anos a frente de nós, com insights maravilhosos de povos muito antigos da África, que podem ser usados agora. O pensamento oriental também tem bastante disso e até a igreja católica agora, revendo questões como o aborto…

Embora a gente precise falar mais sobre esses temas, acho que faz parte de uma busca por respostas mediante as coisas que estão acontecendo agora. É um resgate de memória, de ancestralidade e astrologia, por ser uma arte milenar, obviamente está em alta. É algo bom no meio de tanto caos. Eu amo fazer parte desse momento da história!

E quais são os rituais da Madama Brona para aguentar os trancos do dia a dia e para lidar com a troca de energia com as clientes?

Não sou uma pessoa muito rígida nisso. Tenho alguns rituais de proteção, que os meus guias num centro de umbanda me indicaram e me ajuda pra caralho. Medito sempre que eu posso. O método mindfullness me ajuda muito a me limpar. Tenho muitos cristais, pego sol, coloco plantas dentro da minha casa e isso me ajuda muito. Tento o máximo possível ter uma alimentação natural e vegana, porém nem sempre consigo seguir a cartilha certinha. Não sou muito disciplinada.

Para limpar as minhas energias no dia a dia faço rituaizinhos muito intuitivos e que me ajudam. Também faço terapia duas vezes por semana. Converso com uma pessoa para falar como foi o meu dia, porque eu gosto muito dessa separação. Gosto de ajudar as minhas clientes, que me contam de suas vidas, mas eu sou eu e elas são elas.

E tem que ter discernimento, porque enfim, é um ego descontrolado. Às vezes as pessoas confundem ego com empatia. Qual é o efeito prático de você ficar colocando o mundo nas suas costas, achando que pode sentir todas as dores de todo mundo, se você não vai resolver nada? Se vai só se enfraquecer junto?

Eu me preocupo, estou sempre com as minhas clientes na cabeça, me lembro delas, quero saber como estão, porém, posso ajudar até onde posso ajudar. Depois disso, a pessoa tem total capacidade de resolver suas próprias questões. Ela também tem coisas para me ensinar, e eu tento manter essa separação muito nitidamente na minha cabeça. Isso é a maior proteção. É entender a sua individualidade, entender que você não é o outro.

O discernimento é o que mais me ajuda a me limpar energeticamente. E dormir me ajuda muito, muito, muito. E rezo muito, faço preces quase todos os dias da minha vida, e choro. Chorar me ajuda muito também. Mas cada pessoa precisa encontrar o seu jeito, há coisas que não podem ser replicadas.

Você costuma seguir o que o tarô propõe para você mesma? Suas decisões cotidianas são baseadas nisso?

Eventualmente eu tiro conselhos e não o tempo todo porque não banalizo o oráculo. Tenho períodos para tirar, mas me ajuda pra caralho. Por exemplo, se tiro uma carta da temperança, procuro investir no meu descanso. Mas minhas decisões são minhas responsabilidades e baseadas no meu bom senso. Isso é muito fundamental pra mim, então não faço tudo coordenadinho. O tarô não é mandatório, quem manda na sua vida é você.

Já teve vezes que suas previsões te decepcionaram ou te deixaram na mão?

Então, eu até imagino possibilidades de para onde o futuro pode ir e tudo mais, mas tenho consciência de que são apenas possibilidades de interpretação. Me considero uma médium, mas eu não trabalho nem com o conceito de futuro e previsões.
Não fico fazendo esse jogo de adivinhação, nem pra mim e para as minhas clientes. Os horóscopos são guias de autoinvestigação, não uma garantia de que tal coisa vá acontecer. É uma oportunidade de reflexão, então não tem como eu ficar decepcionada, por exemplo.

O que você faz para se desligar da astrologia, já que ela rodeia boa parte do seu dia?

Como eu acho que é uma linguagem, a astrologia está comigo o tempo todo mesmo. É meio difícil se desligar. Embora eu estude e leia sobre o tema, tenho outros milhares de interesses, então acabo lendo e conversando sobre outras coisas, como o mercado financeiro, medicina, física, química, biologia. Adoro política e saber o que está acontecendo. Adoro entender sobre a parte psicológica das emoções…

O que podemos esperar para 2019, pós esse mercúrio retrógrado que causou legal?

Acho que vai ser um ano de ter muita coragem, de inovar, de buscar coisas novas. É pra dar a cara a tapa mesmo, porém com estratégia, sabendo os momentos de recuar e os de avançar, de agir, observando ao redor.

Temos aí um Júpiter em Sagitário para marcar o ano de 2019, porém faz uma quadratura com Netuno em Peixes, que fala exatamente pra gente ficar atenta a projeções, a autossabotagem…temos que cuidar muito disso. E não cair em furada por causa da pressa, né.
As palavras-chave para o próximo ano são autocuidado, intuição, sensibilidade para saber quando agir, e coragem, ousadia!

No vídeo abaixo, você consegue entender melhor o que significa Júpiter em Sagitário!

Você é uma pessoa positiva? Acredita que as coisas vão melhorar?

Não sou uma pessoa positiva exatamente. Acho que às vezes vivemos uma ditadura da positividade, que tudo tem que ser o melhor possível, tudo vai dar bom, tudo vai dar certo. Isso é meio exaustivo e unilateral. Assim a narrativa do nosso discurso vai para um certo extremismo, com tudo muito positivo, o que acaba frustrando as pessoas.

Mas também não fico me prendendo a pensamentos negativos. Eu tento ser realista, sabe…aceitar a realidade e me mover a partir dela. Tenho esperanças sim que as coisas podem mudar, é o que me motiva a ir atrás das minhas metas, a acreditar no mundo e a continuar meu trabalho. Isso que me fortalece, é meu combustível. Eu tenho muita esperança de que as coisas mudam. Eu não acredito nisso, eu sei disso.

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Fotos: Felipe Morozini e arquivo pessoal


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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