Entrevista Hypeness

Anelis Assumpção: ‘Feminismo é um mar completo e vai abraçar todas as pessoas’

por: Kauê Vieira

Anelis Assumpção é paulistana da gema. Criada no bairro da Penha, na zona leste da capital, desde pequena esteve envolvida pelas artes. Sim, ela é filha do músico Itamar Assumpção, mas este é um assunto pra depois.

Mãe, casada e fortalecida pelos obstáculos propostos pela vida, Anelis superou o rótulo de ‘filha de artista’. Na verdade, a paulistana vive um momento de completa expansão. Desde o lançamento de Taurina, ela se afirma como um dos principais expoentes de uma nova geração de cantores e cantoras.

“O disco abriu uma portinha, destravou uma tranquinha. Vamos pensar que aquele ferrolho ainda tem uma chave tetra que tá empacando [risos]. A hora que eu abrir a tetra, tudo vai mudar. Mas, o Taurina foi um bom ferrolho, que me deixou mais perto de outras possibilidades”, disse em conversa por telefone com o Hypeness.

“Essa onda do ódio é perigosa, eu tenho uma mãe branca, vó, tia filho, não posso virar as costas”

Aliás, esta foi a primeira entrevista de Anelis desde o Prêmio Multishow. Sim, a cantora foi surpreendida com uma estatueta entregue pelo júri especializado por causa do disco Taurina, eleito o melhor de 2018.

“Eu fiquei muito surpresa com o prêmio [Multishow]. Eu nunca fui jurada, mas fiz curadoria para a Natura e é muito difícil. Tem que considerar muitas coisas para escolher um bom disco. Não deve ter sido fácil não dar este prêmio para a Elza. Você entende o tamanho do disparate?”

Desde que recebeu a notícia de que estava indicada, Anelis refletiu sobre ir ou não até o Rio de Janeiro. Pesaram os custos da viagem – ela teria que arcar com as passagens, transporte, hospedagem e uma questão sobre compactuar ou não com o sistema. Entretanto, mais uma vez, a amiga Elza Soares deu uma palavra de incentivo.

“A Elza Soares falou uma coisa linda. A gente fica incomodada, não quer compactuar com o sistema e tal. Eu não queria ir, porque a gente tem que pagar tudo, o negócio é na Barra da Tijuca. É longe. Uber, ai meu Deus. Tive que ir sozinha, não dá pra pagar para duas pessoas irem. Bom, fui sozinha pagar o mico [risos]”.

“Fiquei feliz, mas quase constrangida. Ela [Elza] estava lá”

Enquanto dividia as angústias com a experiente cantora, Anelis disse ter ouvido de Elza Soares que “‘toda a oportunidade que você tiver de estar, esteja’. É uma fala carregada de vários símbolos. A gente fica nesse lugar de ‘ai, mico, é a Globo, indústria golpista, não vou’. É escroto também o que a gente não quer que aconteça com a gente”, reflete.

Embora estar nos palcos não seja nenhuma novidade para Anelis Assumpção, que entre 2010 e 2011 comandou ao lado de Max B.O. o programa Manos e Minas, da TV Cultura, o fato de concorrer na mesma categoria que um nome como o de Elza Soares, causa certo incômodo.  

Eu e ela concorrendo na mesma categoria. Isso é uma desordem que vem de antes. É preciso considerar esse aspecto. A Elza Soares tinha que estar sendo homenageada neste prêmio. Concorrendo ao lado da Ivete Sangalo por peso de carreira, obra realizada. São muitos pontos. Eu não imaginei que ela não fosse ganhar. Fiquei feliz, mas quase constrangida. Ela estava lá. Eu já tinha visto ela por ali. Eu falei muito naturalmente, porque não tinha pensando no que dizer, porque não achei que fosse ganhar. Achei que fosse levar o Melhor Capa e não Melhor Disco.

“Muita gente me adicionou, inclusive a Ivete Sangalo. Fiz um crop. Eu nem sigo ela, mas ela me segue”

O céu nublado pairando na cabeça de Anelis naquele momento é um convite para uma reflexão importante sobre a cena da música atual. Ao dedicar o Prêmio Multishow aos artistas independentes, ela tocou direto na ferida que não quer calar. O que e quem são os artistas independentes na atualidade?

“Eu sou uma artista independente, porque não tenho uma gravadora. Antes, os artistas independentes estavam mais atrelados a essa questão de quem faz um disco independente de uma gravadora. Mas, hoje eu acho que isso também mudou, muito porque as gravadoras se apropriaram dos termos”.

Para Anelis Assumpção, o cenário da música nos dias de hoje é desleal. Atenta aos sinais, ela provoca com uma comparação aparentemente absurda. Mas não se deixe enganar, afinal, você já parou pra pensar que cantoras históricas estão concorrendo na mesma linhagem que os novos nomes?

Todo mundo se apropriou de um termo, as artistas, gravadoras. A gente vive num cenário onde a Gal [Costa] é uma artista independente. Então, eu tô tentando ver se a gente cria um outro nome, uma outra categoria. De certo modo é bom porque democratiza um pouco e fica mais claro para as pessoas o que significa ocupar um espaço de forma independente. Mas, ainda existem as castas. Eles todos vieram pro lado de cá. Eu me considero [artista independente], porque não tem um outro lugar pra mim no mercado. Quando eu me inscrevo em um edital de patrocínio, como no caso do Taurina, lançado pela Natura Musical, também estão estes mesmos artistas concorrendo, fazendo o mesmo pedido. Preciso de dinheiro para fazer um disco.

O mercado fonográfico não é mais um Amor Sustentável. Desde o surgimento do Ipod, chegando até o domínio das plataformas digitais, um músico dificilmente sobrevive apenas de shows e discos. Aliás, se apresentar nos dias de hoje não é nada fácil.

“Eu fui fazer o Refavela em um festival independente. Se a gente pensar que o Gilberto Gil e o Refavela têm uma grandeza e naturalmente uma facilidade diferente de artistas que estão começando para conseguir realizar o show. Então, a gente acaba ficando num lugar um pouco injusto, né? Existe esta característica do mercado.

Essa estrutura é muito mole. Um terreno muito mole que nós andamos. Dentro dos nosso mercadinho aqui, temos grandes artistas, com cachê, atingindo mais pessoas. Mesmo assim, é muito mole. Daqui a pouco cai. Some. Não sei o que é. É muito instável. Por isso acho a fala da Elza importante.

Eu acho que você sabe, se você tem consciência do seu trabalho, não se envergonhe de receber um prêmio. Se orgulhe. Quando não ganhar, não fique cabisbaixo, eles são símbolos”.

Anelis embarcou a trupe de Gil no ‘Refavela 40’

Daí a sabedoria ancestral expressada pelo conselho de Elza Soares. As oportunidades devem ser agarradas com unhas e dentes. Ainda mais se tratando de televisão. Quem consegue se esquecer da apresentação do Racionais MC’s na MTV?

“É um prêmio visto muito pela TV, é sim uma oportunidade das pessoas me conhecerem. Muita gente me adicionou, inclusive a Ivete Sangalo. Fiz um crop. Eu nem sigo ela, mas ela me segue [risos]. Esse é o novo business, iremos atingir mais pessoas.

Eu consigo mais shows, mais entradas em outras mídias, então tem o lado positivo. É para todas as pessoas que estão nesse barco do underground correndo do jeito que eu corro. Fazendo show de bilheteria. A gente mata um leão por dia mesmo.

São muitas reflexões a serem feitas. É bem importante receber de um jeito positivo. Receba isso. Quem sabe a gente consegue uns 500 reais a mais no cachê. Quem sabe o prêmio paga o aluguel. Podia ser uma joia para vender [risos]”.

Quando rocheia sobre nuvem

Taurina é uma novidade bem-vinda na carreira da cantora. Com uma mistura de gêneros como MPB, afrobeat, dub e permeado por poemas e áudios de conversas do WhatsApp de Anelis com amigos como Tulipa Ruiz e Liniker, o trabalho elevou seu nome para um outro patamar. Isso é inegável.

“Existe um amadurecimento da minha parte, na escrita, no canto, eu sinto isso. Não que eu não goste, eu amo meus outros discos, mas eu acho que ele transparece um pouco um estado mais seguro. Talvez isso num campo mais energético tenha feito com que as pessoas olhassem com um ouvido diferente. Meu primeiro disco tinha muito de ‘ver o disco da filha do Itamar’. O segundo é transição, entre querendo uma afirmação mais individual. Agora, tem um atrelamento com uma banda, o fato de eu precisar estar cercada das pessoas que estavam acreditando no meu trabalho. Nesse eu quis afrouxar isso. Tudo isso apresenta um estado de maturidade”, reflete.

‘Taurina’ reflete o amadurecimento da carreira de Anelis Assumpção

A nova fase gera satisfação por outro sentimento, o de liberdade. Não que ela tenha algum tipo de problema com o legado deixado pelo pai, o cantor e compositor Itamar Assumpção. Na real, o que Anelis queria era se livrar dos estereótipos e rótulos colados ao longo do tempo.  

“Isso está refletido na maneira como eu falo da minha figura como compositora, a relação com meu pai, o que eu herdo e até onde consigo conciliar. ‘Legal, eu tive essa referência, mas não importa agora’. Pensar nestas coisas sem sofrer”.

Taurina é um disco triste. Pois é, este repórter que vos escreve também tem dificuldades de detectar esta tristeza. Tudo dentro do protocolo proposto por Anelis, que ainda está entendendo as feridas geradas pela perda do pai (morto em 2003) e recentemente de Serena, vítima de câncer em 2016.

“Eu acho ele triste. Mas é um triste diferente do primaveril, ao mesmo tempo que não tem aquele ar verão.  Diria que ele é outonal, um disco de maio mesmo. Isso tem muito a ver com a escolha do nome Taurina. Ele tem essa energia do outono onde o céu é azul, os dias são lindos e de noite esfria. Tem ainda uma certa preparação química das plantas, da natureza, da gente mesmo pra encarar o frio.

Ele tem esse estado. Não é triste Maísa, não é deprê. É uma tristeza importante, sabe? É muito chato fingir euforia o tempo todo. A tristeza é uma consciência também. Coloca algumas coisas no lugar. Ele foi feito muito das músicas do período em que minha irmã estava doente. Depois, enfim, dela passar por tudo e vir a morrer, eu entendi alguns textos meus.

Eu entendi várias coisas que estava fazendo. Não era exatamente consciente, é mais no estado poético. As pessoas nem conseguem identificar onde está”.

Serena nos deixou com tesouro chamado ‘Ascensão’

Falando em Serena Assumpção, a última colaboração entre as irmãs foi em Ascensão, um ode aos orixás, ao universo e todos os elementos que compõem a natureza. O álbum conta com participações luxuosas de Curumin, Tetê Espíndola e Caetano Veloso.

Em Taurina, precisamente na faixa Escalafobética, Anelis mostra a sensibilidade de sua faceta compositora. Com melodia de João Donato, sem perceber ela teceu uma conversa com Serena.

“Em Escalafobética, eu quis desconstruir um pouco. Tinha feito uma leitura de Manoel de Barros. Depois de vários exercícios, o João Donato mandou a melodia e foi. Aos poucos tudo foi fazendo sentido pra mim. Como ela é minha irmã.

Quando rocheia sobre nuvem’, é uma frase da música que quando minha irmã morreu, seus lábios ficaram imediatamente roxos. Você vê a última respiração de uma pessoa, ver ela arrochear. É muito impactante, doido, triste e muito natural.

É muita coisa junta e nós temos que acreditar que aquele sopro faz algo que não vemos. Chamamos de espírito, fé. Algo que vai para outro lugar no céu. A gente cresce com esse imaginário”.

Os orixás guiam os caminhos de Anelis, que condensa urbanidade e natureza

Trata-se de uma sensibilidade proposta pelos orixás. Amante das plantas, do mar e da mata, Anelis Assumpção se apresenta como uma mistura perfeita entre urbanidade e os elementos da natureza, sobretudo a água. Estes são atributos suficientes para captar a mensagem deixada por Serena e os ensinamentos de uma perda tão complicada de entender.

“Eu notei que muitas coisas que escrevi se relacionavam com ela. Quando eu falo que ele é triste, talvez seja porque eu sei das tristezas e eu acho bom que elas não estejam evidentes. Não é para as pessoas sentirem ou se arrastarem atrás da porta chorando.

Ele tem um sol, um calor. Mas tem tudo isso. Muitas coisas relacionadas com ela [Serena]. A consciência é muito flutuante. Tem o instinto, a intuição e a antecipação de experiências coletivas que ficam ali. Então, se eu escrevi isso antes de acontecer, será que intui, projetei? É interessante como conhecemos pouco nossa capacidade mental. Tem um conto lindo de Exu sobre a pedra. ‘Exu matou um pássaro ontem, com a pedra que arremessou hoje’. É o balanço do tempo suspenso, do agora, ontem, amanhã. Eu já vivi a morte, na verdade, simbolicamente a morte da minha irmã tem um lugar. Mas eu tenho uma experiência de corpo, uma memória dessa tristeza que eu sabia que ia acontecer. Então, eu busquei uma memória do meu corpo lá. Um medo, uma aflição. A gente nunca sabe como vai ser.

Enfim, é bonito pontuar essa tristeza e a melancolia. Não só por isso, estamos aqui atravessando esse momento misterioso das emoções. As doenças mentais e psíquicas têm mais espaço para serem interpretadas como doenças que requerem atenção”.

Sou suspeita, estou sujeita, não sou santa

“Eu tenho necessidade de conexão com elementos naturais por um histórico de família, por ter uma ligação com uma religião que é sobre isso. Embora eu não seja filha de santo como minha irmã era, o Candomblé é a religião que orienta a gente desde criança. Alimento, os orixás dentro da natureza, as forças, o que se move em equilíbrio. Isso é muito natural e presente”.

A resposta dada acima por Anelis Assumpção ilustra outro aspecto importante do seu amadurecimento. Mulher negra, periférica, sofreu ao longo dos anos com agressões provocadas pelo machismo e racismo.

“Fui mãe jovem, tive filho com outra pessoa. O preconceito é uma coisa…muitas vezes achava que estava sofrendo preconceito por ser mãe jovem, que existe sim, mas ele era muito maior por eu ser negra. Eu não entendia. São pequenas coisas, eu já ganhei menos em festivais sem explicação alguma. Meu empresário é um homem branco. Eu preciso falar pra ele que não tem que me convencer. Ele trabalha pra mim, é um lugar diferente, vamos nos acostumando aos postos”.

“Política é um corpo de tesão, se forçar fica falso”

Frutos da ascensão do movimento feminista. A luta travada por Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e agora continuada por Djamila Ribeiro, Carla Akotirene e muitas outras mulheres negras vai dando segurança para que outras jovens e adultas da cor da pele preta possam se sentir seguras diante dos desafios de uma sociedade tão complexa.

“Hoje estou mais segura. Quando eu falo pra minha mãe (que é branca), que me sinto negra, ela fala que tenho toda a razão. Tenho que me sentir sim. É um país mestiço. Eu sei que meu filho branco vai ter menos dificuldades do que minha filha negra. A família do meu filho branco tem posses, dinheiro. A família da minha filha negra não. Eu sou pobre, meu pai morreu e temos suas músicas.

Minha mãe não tem casa própria, a gente não tem um imóvel. Sei disso. Eu preciso ter mais firmeza para que dentro desse pequeno grupo, que é uma família, haja essa compreensão de privilégios. Se unir para fortalecer. O movimento feminista negro é o mais importante do país.

As pessoas têm que olhar com atenção para esta fala. A elaboração do pensamento feminista é o mar completo e vai abraçar todas as pessoas”.

Publicidade

Fotos: Reprodução/Facebook Oficial


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Estátua ‘roubada’ de Banksy pode arrecadar mais US$ 1 milhão em leilão