Debate

As reações ao vídeo de Ariel Barbeiro revelam muito sobre os preconceitos da sociedade

por: Kauê Vieira

As redes sociais foram inundadas com a imagem de um topete gigante e colorido. O trabalho realizado por Ariel Barbeiro está fazendo a cabeça de jovens e adolescentes da zona norte de São Paulo.

O trabalho é uma verdadeira obra de arte e se diferencia pela resistência. O topete é tão grande e bem projetado, que Ariel chegou a colocar um aparelho de ar-condicionado para amassar o cabelo e mesmo assim ele volta para a posição normal. Seria um sonho para dias de chuva?

A ideia por si só é das mais inovadoras do mercado estético. Primeiro, Ariel está levando conceitos de beleza para a quebrada. Acessibilidade. Mas, o que chama mesmo a atenção, é o fato do barbeiro ser um ex-presidiário. Ele aprendeu o corte conhecido como ‘pompadour’ quando esteve preso.

A ‘zueira’ diz muito sobre preconceitos sociais

Embora tenha caído nas graças dos jovens, o corte blindado revelou a faceta preconceituosa e racista da sociedade. Ao invés de reconhecerem o fato de um ex-presidiário estar aproveitando a chance de ressocialização e de crianças e adolescentes periféricos serem beneficiados, muita gente preferiu ridicularizar o penteado.

Choveram comentários irônicos e desdenhando do barbeiro e dos meninos. Alô, você já parou para pensar que o Brasil é dono da terceira maior população carcerária do mundo? São mais de 700 mil pessoas com privação de liberdade. Sendo que 64% dos presos são negros da periferia, como Ariel e seus clientes.

Ou seja, além de ter sobrevivido ao ambiente calamitoso e opressor das cadeias brasileiras, Ariel Barbeiro está evitando que outras crianças sigam o mesmo caminho. A questão da representatividade mora nos mínimos detalhes. A estética é um deles. Ao sair na rua com um cabelo diferente das pessoas ao redor, estes jovens elevam sua autoestima para níveis que você nunca sentirá.

É como dizem por aí, se você não tem coragem de ser diferente, não deposite suas frustrações nos outros. Não despeje preconceitos do tipo “coisa de favelado” ou “que merda” para algo que você não entende. Se for preciso, leia o texto novamente.  

Se você não tem coragem de usar um penteado assim, já sabe…

Assim como Ariel Barbeiro, outros movimentos reconhecidamente periféricos são alvos rotineiros de preconceito. Se você pensou no funk, pensou certo. Assim como o samba chegou a ser proibido no início do século 20, o ritmo da virada do século foi alvo de um projeto de lei proibicionista.

Em 2017, o Senado analisou uma proposta que pretende criminalizar outro ritmo periférico e negro. A proposta é de Marcelo Alonso, webdesigner de 47 anos e morador de um bairro da zona norte de São Paulo.

Para ele, o ‘funk é lixo’. Aliás, Marcelo possui até um site criminalizando o movimento. “Não somos uma página de ódio, você é quem odeia a verdade”, diz o texto descritivo.

Na verdade é uma página de ódio sim. Como no caso de Ariel, Marcelo Alonso não se dá ao trabalho de perceber como o funk e a estética são iniciativas fundamentais para que pessoas que não têm acesso à cultura possam, de alguma forma, se sentirem pertencentes ao mundo. Quem não consegue enxergar isso, está sim contribuindo para o racismo e outros preconceitos.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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