Arte

Estas obras de 1874 são os avós dos tradicionais mangás japoneses

por: Vitor Paiva

Em meados do século XIX, enquanto o Japão rapidamente atravessava – e era atravessado – por uma intensa abertura ao ocidente que encerrou o feudalismo milenar e modernizou o país, um artista em especial soube registrar, criticar e até mesmo debochar desse processo: Kawanabe Kyosay, artisticamente conhecido como Shöjö Kyösay, foi o mais importante desenhista e pintor de sua época no país, e é hoje reconhecido como o inventor dos mangás.

Ainda que seu traço fosse semelhante ao de outros artistas de então, era seu olhar mordaz e a escolha de seus temas que davam destaque ao trabalho de Kyösay. Misturando demônios verdes vestidos com roupas ocidentais em grandes orgias plenas em detalhes críticos, a partir de 1874 se tornou um popular cartunista da realidade japonesa – e, assim, inventou a mais importante forma de quadrinhos do país.

A radicalidade de seus desenhos, no entanto, se apresentava também no seu processo de criação – e em sua vida: reza a lenda que ele precisava estar bêbado para pintar, e que secava três garrafas de saquê só na hora do almoço.

Shōjō Kyōsai

Apesar do sucesso, seu caminho não se deu de forma suave: por conta de suas sátiras, Kyösay chegou a ser preso por um ano e receber 50 chibatadas. O artista faleceu em 1889, mas sua herança tornou-se imortal – e, misturando detalhes pornográficos, crítica social, tradição e imaginação, Kyösay fundou uma nova forma de arte japonesa, o mangá, até hoje admirada em todo o mundo.

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© arte: Shöjö Kyösay


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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