Entrevista Hypeness

Nego Bala driblou vida na Cracolândia para virar músico: ‘Faltou tudo, só não faltou amor’

por: Vinícius Lima

Publicidade Anuncie

Quando você anda pelo centro de São Paulo, mais especificamente, pela Cracolândia, o que você vê? Numa primeira analise, você pode falar usuários de crack, traficantes, policiais e algumas crianças. Já parou para pensar no que uma criança que cresce ali, na “Boca do Lixo” vai se tornar? “Para uma criança que cresce no meio da Cracolândia não tem essa de, ‘vou arrumar um trampo’.

Quem deu essa resposta foi Nego Bala, músico e MC que acaba de lançar o seu primeiro single “Buraco No Céu”. Marcelo Abednego Generoso, como é seu nome de origem, é uma dessas crianças e conseguiu trilhar outro caminho após uma história cheia de altos e baixos, mas como ele mesmo diz “que nunca faltou amor”.

Nego Bala, hoje com 21 anos, está apenas começando na música, mas o seu talento sempre o acompanhou onde quer que ele fosse, inclusive quando esteve privado da sua liberdade, “o que me mudou foi a música, não foi a prisão”, ele diz.

Foto: Daniel Zacharias

É sobre essa história inspiradora que ele trocou uma ideia com o Hypeness de mais de uma hora de papo para falar um pouco sobre tudo. Vale a pena conferir:

Hypeness – Queria que você começasse falando o seu nome e um pouco da sua história.
Nego Bala – Meu nome mesmo? É Marcelo Abednego Generoso. Meu pai e minha mãe me tiveram lá em Guarulhos em 1997, mas sempre morei aqui no centro na “Boca do Lixo”, na Cracolândia. Aí começou a historia. Quando eu era criança, cresci no Rio Pequeno com a minha mãe e minha irmã, a Vanessa. A gente sempre vinha aqui pro centro pedir uma alimentação na Avenida Paulista. Minha mãe colocava a gente pra vender bala no farol, mas eu mais comia do que vendia e a gente foi crescendo assim. Minha mãe começou a usar droga, eu tinha um ano de idade. A gente vendia bala, ela usava o crack dela e a gente ia vivendo a vida.

Hypeness – E seu pai?
Nego Bala – Em paralelo a isso, meu pai morava no albergue nessa época, eu acho. Aí, um dia ele foi lá no Rio Pequeno falando que tinha conseguido um lugar no centro e que queria levar a gente pra morar com ele. Eu tinha uns 5 anos de idade.

Hypeness – E vocês foram?
Nego Bala – Nesse dia aí foi ‘mó’ tumulto. Minha mãe tumultuava, a negona era zica. Ela falava, “você não vai levar eles, principalmente o Abednego porque ele vai te dar trabalho. Esse moleque é o demônio”. Aí ele me levou, trouxe a gente para o centro e viemos morar numa pensão que era só pernoite.

Hypeness – Como que foi esse período?
Nego Bala – Então, meu pai deixava a gente numa praça e ia vender as coisas dele. Ele sempre foi trabalhador. Aí, um dia eu pensei, “caramba onde meu pai vai?”. Então, eu segui ele e vi ele vendendo as coisas no farol. Ele me viu, também, mas ele nem deu bronca, só levou a gente pra casa, deu banho na gente, fez o jantar e pronto. Faltou tudo: roupa, sapato, comida, mas nunca faltou amor.

Aí, quando ele ia trabalhar, ele via minha mãe na Cracolândia e ele não desviava o caminho. Ele ia vender as coisas no farol porque ele estava focado em cuidar da gente, mesmo amando muito ela. Eles não separaram porque não se amavam mais, foi por causa da droga, né.

Foto: Daniel Zacharias

Hypeness – E você cresceu com o seu pai, então?
Nego Bala – Na escola, eu conheci o Renato e colava na casa dele, como em casa não tinha nada e não queria ficar na praça. Aí, a Dona Maria, mãe dele, me chamou pra família e me adotou como um filho. Ela não deixava mais eu sair, andar com os moleques errado, chamou meu pai, quis conhecer ele e me protegeu mesmo.

Eu lembro que pra ir pra escola, eu tinha que passar pelo fluxo e a Dona Maria já espantava todos usuários que ficavam na porta de casa pra gente passar e ir pra escola. Quando a gente passava, os caras gritavam “olha o anjo”, sinalizando que tem criança para quem está fumando parar de fumar.

Hypeness – Nessas idas pra escola, você já encontrou sua mãe?
Nego Bala – Deu 10 anos de idade, eu já não era o mesmo moleque porque as fichas vão caindo e você já entendeu que o seu pai trampava para caramba e você quer ajudar ele, você também percebe que aquela mulher que todo mundo chama de “loucona” no meio do fluxo é sua mãe. Eu sabia que a Dona Maria não era minha mãe, mas nunca tinha visto minha mãe daquele jeito. Quando eu me liguei que aquela era minha mãe, a Edna. Abracei a Dona Maria muito forte. Ela já sabia que essa hora ia chegar, então ela me falou “aquela que é sua mãe, é por ela que você tem que lutar”.

Começou a ficar mais frequente essa história de ver minha mãe, via todo dia. Aí, meu pai lutando, lutando, vendendo os bagulhos no farol, tocando musica no trem porque ele toca violão também.

Hypeness – Como você lidava com isso?
Nego Bala – Aí, eu pensei, “se o problema é dinheiro, vou ajudar meu pai”. Quando entrei na quinta serie, comecei a me envolver com as coisas. Eu já roubava, mas só uns furtos, nunca tinha colocado a mão em arma, nem tocado em droga, ainda. Sempre foi com consciência, era pra ajudar em casa. Sempre pensava que não dava pra machucar as pessoas. Com 11 anos, já conhecia todo mundo e os cara já conheciam o Nego Bala. Aí, eu comecei a vender crack. O Nego Bala começou a vender crack, mas não era o Nego Bala ali dentro de mim, era o Marcelo. O Marcelo estava presente, muito vivo. o Nego Bala era só aquele personagem para ganhar um dinheiro. Eu queria ajudar meu pai de algum jeito e tirar minha mãe das drogas, mas mano, eu não sabia nem cuidar de mim e queria cuidar dos outros, tio.

Publicidade

Hypeness – Como que surgiu o nome Nego Bala?
Nego Bala – Eu era muito pequeno, mas era porque eu era muito rápido, falava rápido e corria rápido. Aí um mano falou uma vez e o apelido pegou.

Hypeness – Você sempre quis ser músico?
Nego Bala – Pra uma criança que cresce ali na quebrada, no meio da Cracolândia, não tem essa de “vou crescer e vou arrumar trampo”. Ela não pensa “eu sou capaz de fazer isso”. Isso morre dentro do moleque, na verdade, nem nasce. Então você já nasce com essa meta de vida de virar bandido. Isso atinge muito as crianças da quebrada que não são ouvidas.

 

Hypeness – E como foi esse contato com a música?
Nego Bala – Com 12 anos fui preso. Fui lá pra Fundação CASA em Franco da Rocha. Lá, tinha aula de informática, decoração e um monte de outros cursos. Eu escolhi percussão, poesia e bordado, que eram os menos escolhidos. Os mais escolhidos eram informática e culinária.

Esse de poesia foi legal porque eu não sabia encaixar as palavras direito, mas a melhor aula era a de percussão do professor Café. Ele ensinou a gente a tocar, ler partitura e ouvir coisa boa.

Teve um dia, em 2010, que ele colocou uma musica do Criolo “Freguês da Meia Noite” e disse “vocês têm que ouvir esse cara”. Os moleques nem ouviram, nem curtiram muito. Aí, o professor perguntou “quem gostou?”. Eu disse, “eu gostei”, mas na época eu nem me ligava que a música falava de uma biqueira, nem sabia o que queria dizer.

Depois fui falar com ele e ele me mostrou mais coisa, mostrou Sistema Negro, mostrou outras do Criolo. Quando mostrou “Grajauex”, todos piraram e nem acreditaram que era o mesmo cara que cantava a música da outra semana.

Eu tenho música na família, meu pai vem de família de sertanejo, então está no sangue. Só que ali que eu entendi que dava para fazer alguma coisa com o talento que eu tinha.

Foto: Daniel Zacharias

Hypeness – E como foi o resto dos dias até você sair, depois que se apaixonou pela música?
Nego Bala – FEBEM não muda ninguém, prisão não muda ninguém. Nenhuma privação muda ninguém. O que me mudou foi a música, não foi a prisão. Lá, você só pensa em sair, a música que me salvava. Faltava 4 meses nessa neurose.

Hypeness – Como foi quando você saiu?
Nego Bala – Tinha um senhor que sempre ia lá dar as boas noticias. Aí, um dia ele falou “tem duas liberdades na casa!”. Nesse dia eu estava entediado e sai lá pra quadra e fiquei cantando no meio da chuva. Como todo mundo tinha que ficar lá dentro, a inspetora me pegou e ia me deixar de castigo. Só que isso nunca acontecia, ela sempre deixava eu ficar lá fora. Aí os caras já ganharam que eu era um dos dois que ia embora e já vieram me abraçar, chacoalhar e comemorar.

Ela não cedia, não queria falar que eu ia embora, falava que era castigo, mas aí eu pense, “se eu for embora ou para o castigo, tenho que me despedir dos caras”.

Aí saímos e apareceu o diretor da unidade e falou, pega essa caneta, assina essas folhas e vai porque essa é sua liberdade.

Os funcionários começaram a me dar parabéns, do nada cai um monte de caneta da minha camiseta que eu tinha roubado dos cursos. Os inspetores zoaram, “então era você que roubava as canetas?” – “alguém tinha que escrever lá dentro, né?” – eu respondi.

Hypeness – Você lembra o dia 1 quando você saiu?
Nego Bala – Abracei muito meu pai e choramos muito. Quando eu sai, vi o caminho que meu pai fazia pra me ver. Vi o quanto que ele andava da estação do trem até a unidade. Foi ali que tive pai mesmo. Sempre tive, na verdade, mas foi ali que percebi a importância dele e valorizei isso. Na rua eu era revoltado. Eu e meu pai brigávamos porque eu levava dinheiro do tráfico e ele não aceitava. Eu entendi cada vez mais o amor dele.

Hypeness – Quantas vezes você foi preso?
Nego Bala – Pode por aí umas 5 na fundação e uma na prisão.

Hypeness – E o que mudou nesse tempo?
Nego Bala – Nas ultimas eu já era uma referência, o Nego Bala não era mais um moleque que traficava, já era um MC, uma referência. Minhas atitudes e minhas músicas já refletiam nas pessoas que estavam por perto. Essa vontade de viver de música, mesmo com os vacilos, foi crescendo.

Com 13 anos de idade, depois de uma saída dessas da Febem, eu conheci o Charada e o Dedê. Eu ainda traficava, mas eu queria mesmo era ser artista. Aí a gente montou um grupo e ia em todos os bailes, tocava em tudo. Podia ter uma pessoa na plateia que a gente tocava. Eu queria viver de música, pesquisava sobre isso todo dia, visitava os estúdios pra conhecer, ia no baile, não para curtir, mas para pegar o celular do organizador.

Foto: Daniel Zacharias

Hypeness – Aí que começou sua carreira?
Nego Bala – Ainda não. Eu fui preso com 18 agora, mas eu já estava de boa e muito focado, já tinha conhecido o Gu que hoje é meu produtor e queria ficar firmeza.

Sabe o que aconteceu? O sonho da ronda escolar ali da região era me pegar quando eu fosse “de maior” porque eu causava muito, queriam, mas que queriam prender o Nego Bala.

Quando eu sai de lá, procurei o Gu, aí que começou.

Hypeness – A ultima vez que você foi preso foi diferente por estar focado já na musica?
Nego Bala – Da hora que você perguntou isso porque lá na prisão acolheram muito o trampo. Sou muito grato. Toda hora vinha um mano pedir pra eu fazer uma rima, no dia de visita eu fazia show. Então, não tinha tempo pra ficar triste, eu tinha que ajudar os outros. Os caras só queriam ouvir o Nego Bala. Isso era uma satisfação muito grande. Eu só pensava, “quando eu sair, vou cantar”. Às vezes, quando eu estava dormindo eu ouvia os caras cantando minha música nos outros barracos.

 

Hypeness – Por que o single chama Buraco no Céu?
Nego Bala – Fiz essa musica, eu morava no Castelinho (Fundação CASA), eu estava numa agonia que eu queria só fugir e me veio essa melodia. Aí peguei essa melodia no ar. Já colei no mano e falei, anota isso aí e comecei “o homem pra fugir de si, faz um buraco no céu…”.

Hypeness – O que mudou do Abednego lá atrás pro nego bala?
Nego Bala – Mudou muita coisa por fora, mas o miolo é o mesmo. Eu não tenho mais os mesmos interesses. Vi que a vida é mais que roupa, tênis e carro. Consigo olhar pro próximo, olhar pra mim, entender a vida. Eu aprendi que coisas ruins acontecem com pessoas boas e coisas boas acontecem com pessoas ruins. O Marcelo mudou pra caramba. Aprendi que tem mano que tem privilégios, mas todo mundo tem sua prisão e todo mundo é ser humano.

O que mudou em mim é o que eu quero mudar na gente. Não porque a gente precisa, mas queria que as pessoas vissem o próximo como ser humano e vissem a si mesmo no próximo, desde o catador até o polícia. Se alguém me falasse pra eu me ver num polícia, não conseguiria nunca. Não digo que eu sai da minha prisão, mas um cadeado eu consegui abrir.

Hypeness – Qual seu sonho?
Nego Bala – Eu quero muito abrir um centro cultural no meio da Cracolândia, um dia. Quero trabalhar com a molecada. Me chama pra cantar em escola que eu gosto muito. Na Fundação CASA, então, nem se fala. Eu até choro se isso acontecer um dia.

Publicidade Anuncie


Vinícius Lima
Gosta muito de São Paulo e das histórias das pessoas que vivem nessa cidade. Por isso, criou o "SP Invisível". Histórias mudam nosso coração e nossas ideias, assim como faz com ele todos os dias. Sempre mudando.


X
Próxima notícia Hypeness:
Emilia Clarke estudou discursos de Hitler e outros ditadores para ‘Game Of Thrones’