Matéria Especial Hypeness

Protagonista de Cidade de Deus agora é Uber. E isso expõe nosso racismo mais perverso

por: Kauê Vieira

A semana terminou com uma fotografia do ator Alexandre Rodrigues dirigindo um Uber. A imagem foi divulgada pela passageira Giovana. Não sabe quem ele é? Isso diz muito sobre as dificuldades enfrentadas por pessoas negras que pretendem se aventurar no mundo das artes.

Em 2002, Alexandre estrelou um dos principais filmes do cinema brasileiro. É ele que interpreta Buscapé em Cidade de Deus. O longa dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund rendeu muitos prêmios, entre eles o BAFTA, além de ter dado fôlego aos profissionais da sétima arte no Brasil.

Achou engraçado? Então, você não entendeu nada

O mesmo reconhecimento não foi possível para os atores negros, entre eles Alexandre Rodrigues, que precisa dirigir Uber para complementar a renda. Nada contra a profissão, pelo contrário. A pergunta que fica é, você achou engraçado ou normal? Se sim, você não está entendendo nada sobre como o racismo limita a vida de pessoas negras.

Cidade de Deus possui um elenco mesclado com atores consagrados e então iniciantes. Alice Braga, por exemplo, desde o lançamento do filme, acumula um sucesso atrás do outro. A sobrinha de Sônia Braga esteve no elenco de Eu Sou A Lenda, protagonizado por ninguém menos que Will Smith e se tornou figurinha carimbada em Hollywood.

Diferente dos colegas negros, Alice Braga saltou ao estrelato depois de ‘Cidade de Deus’

Alexandre? Bom, além de ter um perfil limitado no Wikipédia, o ator teve participações discretas em novelas e filmes. A maioria delas debaixo do guarda-chuva estereotipado do personagem negro. A última aparição na TV foi em O Outro Lado do Paraíso, em 2017.

A exclusão não é exclusividade dele. Lembra de Zé Pequeno? O jovem negro foi interpretado por Leandro Firmino. Trata-se de um personagem central na trama. Seus bordões caíram na boca do povo. Sem Zé Pequeno, não tem história.

Leandro Firmino precisa se equilibrar entre o racismo e o estereótipo

Leandro não teve a mesma sorte. Seu talento nunca foi reconhecido. Como outros atores negros, ficou limitado ao imaginário violento disseminado pelo filme e desde então sofre para manter vivo o sonho de atuar. Em 2015, o jornal Extra publicou uma reportagem mostrando que ele, ao lado da ex-mulher, estava vendendo semijoias para sobreviver.

O ator participou ainda de um quadro duvidoso no Programa Pânico, onde executava outro estereótipo do homem negro (a violência) para resolver problemas sociais.

A naturalização do racismo

O problema é que essas histórias são encaradas como exemplos de superação. Os veículos de comunicação noticiam tais acontecimentos como algo ‘inusitado’ ou ‘exemplar’. No caso de atores negros, claro.

Você se lembra do ‘mendigo gato’? Um rapaz branco de olhos azuis foi encontrado perambulando nas ruas de Curitiba. A história rapidamente ganhou o mundo e as pessoas não disfarçaram o choque de ver um homem branco em situação de rua.

 

Reportagens de grandes portais narraram com tons de drama a luta do garoto para se livrar do crack, como ele se virava para tomar banho e dormir. Rafael Nunes virou estrela de programas de TV e ganhou até tratamento em uma clínica no interior de São Paulo.

Oi? Você já contou o número de pessoas de pele preta que vivem nas ruas das cidades brasileiras? Você já notou como elas são ignoradas por grande parte da sociedade? Quantas delas causaram comoção ou ganharam espaço na TV ou um tratamento em uma clínica de reabilitação? Sim, meus amigos, é o racismo.

Em entrevista à Carta Capital, Conceição Evaristo, escritora vencedora do Prêmio Jabuti, falou sobre a inviabilidade do sujeito negro viver em sua plenitude.

“É essa a invisibilidade que paira sobre nós. Mas a esperança é que talvez a juventude hoje tenha mais possibilidade do que nós. Essa demora da descoberta é muito devida a essa invisibilização que paira sobre o sujeito negro”.

Cinema negro no Brasil: um ato de coragem

Historicamente, o cinema negro no Brasil esteve em segundo plano. Com poucos incentivos e preso ao imaginário da violência, atores, atrizes e diretores batalham muito para conseguir patrocínio e espaço nesse mercado tão competitivo.

Camila de Moraes enfrenta a dura batalha de ser mulher negra no audiovisual

O Hypeness conversou com a diretora gaúcha Camila de Moraes, que teve seu filme, O Caso do Homem Erradocotado para representar o Brasil no Oscar. A jornalista contou um pouco sobre a batalha não só para a produção, mas para conseguir espaço nas salas de cinema Brasil afora.

“Tenho batido na tecla que é preciso repartir esse bolo, que queremos a nossa fatia também, precisamos produzir os nossos filmes com um orçamento justo de produção de audiovisual”.

Em tempo, Camila de Moraes é a primeira diretora negra a ter um filme no circuito comercial em 34 anos.

“A gente não comemora este dado que nos colocou na história do cinema brasileiro, pois esse dado nos revela o quão racista é o país no qual vivemos, que leva mais de três décadas para que outra mulher negra consiga colocar um longa-metragem em circuito comercial”, diz.

Joel Zito Araújo, Jeferson De, Viviane Ferreira, Lázaro Ramos, Sabrina Fidalgo, Camila de Moraes, Alexandre Rodrigues e Leandro Firmino. Talentos provando que ser negro no Brasil é foda.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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