Seleção Hypeness

10 discos maravilhosos que provam que foi muito f*da ser jovem em 1999

por: Vitor Paiva

Ser um aficionado por música é quase sempre ver e ouvir no passado a era de ouro dos melhores discos de sua discografia. Para quem nasceu nos anos 1980 e cresceu na década seguinte, o final dos anos 1990 é muitas vezes visto como um período musical árido, passado os bons dias do grunge, do britpop, do manguebeat e da geração de 1994.

Exatos 20 anos depois, porém, fica claro que o ano de 1999 reservaria ainda alguns grandes discos para o fim do milênio.

E para isso serve também nosso amor e nossa relação com a música: como relógios que marcam a passagem do tempo e nos fazem lembrar com clareza onde estávamos, quem éramos e o que sentíamos quando escutamos um determinado disco pela primeira vez. É ou não é espantoso concluir que já fazem exatamente duas décadas que o mundo ouviu Britney Spears cantar pela primeira vez?

Ou que o inesgotável sucesso do álbum Millenium, dos Backstreet Boys aconteceu há 20 anos?

Britney no clipe de Baby One More Time

O ano de 1999 marcou a explosão das boybands e das cantoras teen que se tornaram onipresentes nas rádios e TVs de uma época em que a internet ainda engatinhava. Mas se Britney, Christina Aguilera e os Backstreet Boys comandavam comercialmente a indústria fonográfica, outros artistas definiram crítica e esteticamente a trilha sonora daquele fim de século e milênio com alguns de seus melhores trabalhos – que, para espanto de quem hoje tem entre vinte e tantos e trinta e tantos anos, completam 20 anos em 2019.

O estilo dos Backstreet Boys

Assim, separamos 10 dos melhores discos lançados em 1999, que envelheceram lindamente e permanecem obras interessantes soando muito, muito bem em nossa vitrolas. Ou em nossas plataformas de streaming.

Aliás, para darem play nos discos no Spotify, basta clicar nos nomes dos álbuns.

Bora lá revisitar a sua (e a minha) juventude?

1.Rage Against The Machine – ‘The Battle of Los Angeles’

Eleito pelas revistas Time e Rolling Stone como o melhor disco do ano de 1999, o terceiro disco de estúdio da banda Rage Against The Machine viria a ser também o último lançamento original da banda (“Renegades”, lançado em 2000, é um disco de releituras de outros artistas). “The Battle Of Los Angeles” alcançou o topo das paradas americanas, e teve em “Testify” seu maior sucesso (com direito a vídeo dirigido pelo documentarista Michael Moore).

O posicionamento político radical anticapitalismo, as letras afiadas pela pena e a voz rascante (e gritante) de Zack de La Rocha e os riffs sujos e sincopados da guitarra de Tom Morello fazem desse um típico disco da banda: o que, nesse caso, quer dizer muita coisa. Ruidoso, provocador, corajoso, furioso e cheio de grooves, The Battle of Los Angeles finaliza com louvor a discografia de uma das mais importantes bandas da década.

2. Red Hot Chili Peppers – ‘Californication’

Se “Blood Sugar Sex Magic”, de 1991, foi o disco que catapultou o Red Hot Chilli Peppers do underground ao sucesso comercial, Californication, de 1999, levou a banda californiana ao topo desse sucesso. Marcando a volta do guitarrista John Frusciante ao time, com 15 milhões de discos vendidos, “Californication” é até hoje o trabalho comercialmente mais bem sucedido da banda, ampliando vastamente o repertório de seus sucessos, com músicas como “Otherside”, “Scar Tissue” e o hit que batiza o disco.

Mais bem comportados e melódicos, diminuindo a intensidade do funk que tanto caracterizou o som da banda em favor de um sentido mais pop e amigável (sem perder, porém, a energia e vibração) o disco confirma o bem que as guitarras a lá Hendrix de Frusciante fazem às boas canções pop que formam seu repertório. Produzido pelo lendário Rick Rubin, não é exagero afirmar que o sétimo disco de estúdio do RHCP colocaria a banda como a maior do mundo naquele momento.

3. Eminem – ‘The Slim Shaddy LP’

Um dos primeiros rappers a ser lançado por uma grande gravadora, Eminem aproveitou muito bem a deixa com “The Slim Shaddy LP”. O álbum chegou às lojas em fevereiro de 1999 para tornar um artista underground em um sucesso global em questão de instantes. Produzido por Dr. Dre, o disco alcançaria a impressionante marca de 18 milhões de cópias vendidas no mundo todo – e tem em “My Name Is” seu maior sucesso.

A cadência, o repertório imagético e a criatividade de Eminem o colocaram rapidamente no topo do mundo do rap naquele ano – mas junto com o sucesso vieram as controvérsias. Muitas de suas letras trazem afirmações misóginas e homofóbicas, alcançando sugestões de violência e preconceito que também marcariam a persona do rapper a partir de então. Coisa que, claro, hoje ele tenta esconder.

4. Cássia Eller – ‘Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo’

Conta a lenda que foi Chicão, filho de Cássia, que inspirou a cantora a gravar um disco mais suave e calmo, quando o pequeno afirmou que sua mãe não cantava, mas berrava. Ouvir o conselho do filho fez muito bem à carreira de Cássia, que alcançou um grande sucesso comercial e de crítica com o disco “Com Você…”, que a alçaria ao intocável hall das grandes cantoras da música brasileira em todos os tempos.

O sucesso do disco só seria superado pelo seu Acústico MTV, mas “Com Você…” permaneceria como uma das grandes obras da rica carreira de Cássia – o disco que a colocaria na boca do povo, especialmente pelo sucesso de “O Segundo Sol”. Outras canções, como “Gatas Extraordinárias”, “Um Branco, um xis, um zero” e a faixa-título, de Nando Reis – que também produziu o disco –, fazem desse trabalho provavelmente o mais impactante disco de estúdio de toda a discografia de Cássia.

5. Beck – ‘Midnite Vultures’

Apesar de não ser um imenso sucesso comercial, o sétimo disco de estúdio do cantor americano Beck é sim um de seus mais interessantes trabalhos. Dividindo a crítica – alguns o consideram um dos piores discos da década, enquanto outros o colocam como um dos melhores da história – “Midnite Vultures” traz Beck em seu habitat característico, misturando estilo e ritmos com riqueza dançante e melódica.

Indicado ao Grammy de Melhor disco do Ano, o disco tem em “Sexx Laws” provavelmente o último grande hit de Beck – desafiando as leis do sexo, como diz a letra, a música super dançante não deixa nada a dever aos clássicos de discos anteriores, como “Mutations’ e “Odelay”. O videoclipe é também inesquecível, estrelado por Jack Black e com direito a uma geladeira transando com um fogão.

6. Silverchair – ‘Neon Ballroom’

Tendo alcançado o sucesso comercial ainda como uma banda de adolescentes, na esteira do fim do grunge com o disco de estreia “Frogstomp”, de 1995 (cerca de um ano após a morte de Kurt Cobain), em “Neon Ballroom” o Silverchair se tornou uma banda mais adulta. Não por acaso, o líder Daniel Johns considera esse o primeiro disco “de verdade” da banda.

Esse é também o disco em que a anorexia que o cantor havia desenvolvido nos anos anteriores tornou-se pública e tema das canções, o que ajudou, somado ao clima do fim do século e milênio, a tornar a música da banda mais densa e profunda. “Anthem for the Year 2000”, “Miss You Love” e “Ana’s Song (Open Fire)” ajudaram o disco a chegar às 2 milhões de cópias vendidas. Mas esqueça os hits e foque sua energia no “lado b” do álbum, repleto de arranjos de cordas em contraponto às guitarras do grunge.

7. Blur – ’13’

Se na cena britpop o Oasis tornou-se uma banda maior que o Blur, a verdade é que o Blur era uma banda “melhor” – mais complexa, rica e densa. “13”, o sexto disco da banda, aprofunda-se ainda mais no experimentalismo, na psicodelia e na melancolia que já marcavam o disco anterior, Blur. Com sucessos como “Tender”, “Coffee & TV” e “No Distance Left To Run”, é possível afirmar que esse é o último grande disco de uma das mais interessantes bandas da década.

À época a banda apresentou-se no Brasil, para uma casa vazia no Rio de Janeiro e outra lotada em São Paulo, mas foi o inesquecível clipe de “Coffee & TV”, com as aventuras de uma caixinha de leite animada a procura do personagem de uma pessoa desaparecida (vivido no vídeo pelo guitarrista Graham Coxon), que solidificou o relativo sucesso do Blur por aqui – e um tanto mais no mundo. Triste, agressivo, melódico, variado e profundo, “13” é um dos melhores discos do ano, que chega aos 20 anos soando tão bem quanto soava em 1999.

8. Tom Waits – ‘Mule Variations’

Um dos grandes compositores e cantores da música popular americana, Tom Waits lançou em 1999 um de seus melhores trabalhos: “Mule Variations” oferece não só a sonoridade ruidosa e densa, como o canto rouco e extremo e a qualidade inigualável das composições que marcam toda a carreira de um dos grandes artistas vivos. Para além de sua sonoridade ou canto, porém, o ponto mais forte desse disco é mesmo suas canções.

O repertório de Mule Variations o coloca à altura de discos históricos de Waits, como “Rain Dogs” e “Swordfishtrombones”. Estão lá clássicos instantâneos como “Chocolate Jesus”, “Take It With Me”, “Hold On”, “House Where Nobody Lives” e “Come On Up To The House” – que ajudam a definir ainda mais a posição do artista como um dos grandes criadores de nossos tempos.

9. O Rappa – ‘LadoB LadoA’ 

O terceiro disco da banda carioca O Rappa consegue um feito raro no cenário musical brasileiro: LadoB LadoA é experimental, pesado, mantêm um discurso político afiado e crítico, e ainda se tornou extremamente popular. Além do sucesso comercial, o disco alcançaria pelas mão da crítica o status de um trabalho essencial – um disco que define a cena musical carioca e a realidade social da cidade ao fim do século 20.

As mais importantes músicas do repertório do Rappa, como “Me Deixa”, “O Que Sobrou do Céu” e “Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)” estão nesse disco, produzido por Chico Neves. Misturando estilos diversos LadoB LadoA se tornaria o ponto mais alto da discografia de uma das mais populares bandas de sua época.

10. Foo Fighters – ‘There Is Nothing Left to Lose’ 

O primeiro disco do Foo Fighters ainda era basicamente o disco do baterista do Nirvana. Com o imenso sucesso do segundo, “The Colour and The Shape”, Dave Grohl e sua banda mostravam que viriam para ficar – e enfim com o terceiro, “There Is Nothing Left To Lose”, o Foo Fighters mostrava que poderia não só fazer sucesso, mas ser de fato uma banda interessante – com sonoridade própria e boas composições.

O cargo de mais popular banda de rock do mundo, então ocupado pelo U2 ou pelos Chilli Pepper’s, começava então com esse disco a cada vez mais se moldar ao formato dos Foo Fighters. Melódico, um tanto mais experimental e calmo que os discos anteriores, “There Is Nothing Left to Lose” – com os hits “Breakout” e principalmente “Learn to Fly” – é o disco que solidificou o incrível feito de Dave Grohl: depois do Nirvana, voltar ao topo do mundo com sua própria banda.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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