Entrevista Hypeness

As Bahias e a Cozinha Mineira jorra o leite mau na cara dos caretas em novo single

por: Kauê Vieira

As Bahias e a Cozinha Mineira está prestes a servir à mesa o terceiro trabalho autoral da carreira. Antes, o conjunto formado no curso de História da USP (Universidade de São Paulo) celebra  mudança do selo independente para o guarda-chuva de uma grande gravadora, a Universal, além do lançamento do single e videoclipe de Das Estrelas.

“É o início de um disco que traz uma nova sonoridade, mais pop e abrangente”, diz Assucena Assucena, compositora da canção.

Disponível às vésperas do Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, a faixa dá algumas pistas do que será o novo álbum do grupo formado por Raquel Virgínia, Assucena Assucena (as Bahias) e o mineiro Rafael Acerbi.

Grupo tão necessário em tempos hostis

“Estamos fazendo um trabalho orgânico, de acordo com as artistas que nós somos. Temos a possibilidade de fazer com que a nossa arte ganhe horizontes mais amplos. É uma grande alegria e uma oportunidade única”, explica Raquel Virgínia em conversa com o Hypeness.  

Raquel é mulher trans e negra e assim como a colega Assucena é alimentada pelas influências de nomes como Gal Costa, Alcione, Zezé Motta e Elza Soares. Não esqueçamos de Caetano Veloso. Araçá Azul, disco lançado em 1973, é seu favorito. Durante o papo, a cantora destaca a influência de figuras consagradas da Música Popular Brasileira para o momento expansivo de agora.

A banda mescla liberdade sexual com elementos urbanos

“Gal Costa, Elza Soares, Maria Bethânia, Alcione, Zezé Motta, Ney Matogrosso, Cazuza, Renato Russo, todos estes artistas contribuem muito para mim enquanto artista. São inspiração para lidar com tabus que ainda precisamos enfrentar. Estes artistas são finalizadores. Finalizam possibilidades e toda vez que a gente precisa de inspiração, vamos no baú e vemos eles lá”.

Raquel Virgínia, que chegou a se mudar para Salvador atrás de realizar o sonho de virar cantora de axé, diz que o momento atual da música popular brasileira é especial. E é mesmo. Liniker, Anelis Assumpção, Elza Soares, Karol Conka, MC Soffia, Emicida, Criolo, nomes que juntos fazem jovens e adultos refletirem sobre questões de gênero, representatividade e finalmente, a importância de ser livre.

“Estamos passando por uma transformação de discurso. Falamos de questões de gênero e sexualidade de forma escancarada. Não fui contemporânea dos artistas do passado para saber como eles lidavam e nunca pesquisei profundamente, mas essa fase que nós estamos vivendo agora, é de falar abertamente de temas diversos, como sexualidade e gênero. São assuntos recorrentes, tanto no repertório [musical], quanto nas posturas como figuras públicas que os artistas são”.

Para Raquel, falta espaço para lideranças negras dentro do movimento LGBT

Os dois discos lançados por As Bahias e as Cozinhas Mineiras, Mulher (2015) e Bixa (2017), este último produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral – antigos colaboradores de Criolo, dão força para o ode à liberdade.   

Ambos os trabalhos refletem sonoridades urbanas colhidas ao longo da complexa vivência em uma metrópole como São Paulo, ao mesmo tempo que enfatizam uma vida despida de padrões de gênero ou sexualidade. Para Raquel, enquanto mulher negra trans, é importante fazer as pessoas dançarem e refletirem sobre estruturas de poder. Mesmo dentro de um campo tão estigmatizado socialmente como o movimento LGBT+.

“Ainda temos que discutir muito a questão da marginalização de pessoas negras dentro do movimento LGBT+. As lideranças dos movimentos LGBT+ ainda são embranquecidas e com uma mentalidade branca. Não à toa, acabamos, sem querer, sempre elegendo divas que se apresentam com os cabelos lisos e loiros. Existe sim essa postura”, pondera.

A nova MPB canta liberdade na cara dos caretas!

Daí a importância de Raquel para elucidar, sem rodeios, o debate sobre a visibilidade negra dentro do movimento LGBT+.

É comprovado, pessoas negras LGBT são as que mais morrem, então meu trabalho é de resistência. Inclusive, faço resistência dentro da própria Bahia [e as Cozinhas Mineiras] e nos lugares que estou. Venho trabalhando fortemente nesta lógica. O momento que vivemos pede o máximo de discussões para que o Brasil reveja suas posturas, revisite suas ações. Mais que isso, o Brasil precisa aprender que é um país hegemonicamente negro, não branco. É um país hegemonicamente negro. É preciso olhar para a cultura, que tem a obrigação de desafiar este lugar e fazer com que as pessoas possam enxergar.

Errei, desculpa?

O mercado consumidor LGBT não para de crescer no Brasil. Em 2015, o potencial de compra estava na casa dos R$ 419 bilhões, cerca de 10% do PIB brasileiro.

O cenário despertou o interesse de outros artistas, nem sempre defensores da liberdade de gênero, mas de olho no poder monetário. O resultado foi o surgimento do termo pink money (‘dinheiro rosa’, em inglês), caracterizado por pessoas que miram apenas o lucro.

“O pink money é uma rede de proteção e quem quiser ganhar nosso dinheiro, terá que compactuar com nossas pautas e transfobia não passa mais por nossas pautas. O movimento LGBT não admite falas transfóbicas e quem fizer tem que perder dinheiro”.

A última polêmica com o conceito envolveu o nome de Nego do Borel. O cantor usou um termo transfóbico para responder o elogio de Luísa Marilac. A repercussão negativa, com direito a vaias, gerou dois pedidos de desculpas do funkeiro.

Para Raquel Virgínia, o buraco é mais embaixo. A cantora diz aceitar as desculpas, mas prefere não consumir o conteúdo.  

Nego do Borel pediu desculpas pelas ofensas, mas…

O caso do Nego do Borel é muito importante, porque ele está movendo toda a cena artística. Ele promoveu [nas redes sociais] uma fala muito transfóbica. Não existe transfobia maior para uma pessoa trans do que você dizer que ela não é do gênero que ela transicionou. Ele fez exatamente isso. Não fez sem querer, fez de caso pensado. Eu li, ‘você é um homem muito bonito e deve estar cheio de gatinha atrás de você’.  

Para uma das cantoras de As Bahias e a Cozinha Mineira, a situação se agrava por ele ter sido transfóbico com uma fã. “Ele falou isso para uma mulher trans. Cometeu um ato transfóbico sem a menor necessidade. Com uma fã! Luísa era fã dele. Foi ofensivo com quem admirava ele e porque era uma pessoa trans. Ou seja, transfóbico”.

Embora peça para que pessoas como Nego do Borel não sejam crucificadas, Raquel Virgínia chama a atenção para o momento urgente atravessado pelo Brasil. “Mais do que nunca, precisamos nos proteger”.

Para Raquel, é preciso mais que desculpas

E ela tem razão. O Brasil hoje é um dos países que mais mata LGBTs no mundo. Um relatório do Grupo Gay da Bahia, aponta que entre 2016 e 2017, a quantidade de assassinatos no país cresceu 30%.

Da minha parte como mulher trans, eu não sou Luísa [que tem que perdoar ou não], tá desculpado. Mas isso é diferente de passar a consumir Nego do Borel. Acho sim legítima a exigência das pessoas para que artistas que querem pessoas LGBT+ em seus shows não façam parceria com ele. Não é radical, é legítimo. Se alguém cometer um ato racista e eu ver um artista firmando parceria, vou deixar de consumir também. Se fosse da equipe dele sugeriria a doação de dinheiro para a promoção de políticas para pessoas trans. Ele precisa fazer na prática, porque um pedido nas redes sociais não resolve.

O clipe de Das Estrelas, é dirigido por Rafael Carvalho e retrata a violência contra pessoas LGBT+, que ainda não possuem o espaço devido nos principais veículos de comunicação.

Aproveite o lançamento: 

 

 

Publicidade

Fotos: foto 1: Pedro Dimitrow/fotos: 3, 4, 5: Reprodução/Instagram/foto 2: Luiz Signorini/foto 6: EBC


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Festival Radioca ecoa por Salvador celebrando 5 anos de muita música