Roteiro Hypeness

Cores, calores e sabores provam que o Jalapão deve ser seu próximo destino

por: Gabriela Rassy

Ir ao Jalapão era um sonho antigo. Como boa viajante apaixonada pela natureza, a ideia de visitar dunas que bem lembram um deserto no Marrocos, caminhar entre cânions forrados de pedras rosas e me banhar em rios e cachoeiras de águas quentes parecia a melhor possível. O roteiro começava a ser traçado.

Fazendo algumas pesquisas vi que seria necessário um carro 4×4 para fazer com tranquilidade os passeios, além de reservar uma casa ou acampar em alguma das cidades próximas ao Parque Estadual que movimenta o Tocantins. Era necessário ainda um guia, já que lá não pega sinal de celular – sério, soube de gente que foi com GPS via satélite e ficou perdidinha.


Nesta correria que é a vida e com poucos dias para viajar, o plano ficava cada vez mais distante. Toda a preparação e alugueis picados mereciam um tempo livre que eu não tinha. Ainda nas pesquisas, achei a experiência de Safari Camp da Korubo, com tudo incluso e por um preço bastante razoável. Com tudo acertado, encerrei a pesquisa e passei apenas a aguardar o grande dia. O roteiro escolhido foi o de 6 dias, que era o mais completo possível.

Chegando em Palmas, o transfer já nos aguardava para seguirmos para o hotel passar a primeira noite. Encontramos já uma pessoa bastante simpática que varia a viagem conosco e pensei por um segundo que seríamos em cinco ou seis viajantes. Dormimos prontamente já que no dia seguinte deveríamos estar prontas às 8h.

Café da manhã tomado, seguimos para o carro que nos levaria a Ponte Alta do Tocantins. Ali percebemos que estávamos em um grupo de pelo menos 25 pessoas de todas as idades e lugares do Brasil. Já me bateu o alerta “grupão de turismo”. Devo dizer desde já que não costumo fazer viagens assim. Em roteiros de natureza, gosto de ir para lugares reservados, tirar fotos onde outras pessoas não apareçam, viver a experiência com meus amigos e só. Analisamos ao longe o grupo bastante diverso e torcemos pelo melhor – afinal, para escolher um passeio desses devem ser todos maravilhosos.

Em Ponte Alta, um almoço caseiro bem preparado nos recebeu pouco antes das 12h. De lá, seguiríamos para o primeiro passeio: o Cânion do Suçuapara. No caminho perdemos o sinal de celular e assim ficaríamos pelos próximos 6 dias. Um alívio, devo dizer. Já estávamos a bordo de um ônibus com mirante para ver as belezas do cerrado no caminho. A viagem era longa, mas foi uma oportunidade para conhecer nossos companheiros de estrada, ver o longo e verde horizonte que nos cercava e ainda avistar seriemas correndo pela mata baixa.

Chegamos então ao Suçuapara. O lugar é estruturado com uma longa escada de madeira até chegar ao fundo. Com o sol batendo entre as fendas, descortinamos um espaço mágico, com a natureza reinando em meio a goteiras de água que caiam ao redor iluminando as rochas multicoloridas. Nunca tinha visto pedras cor de rosa como aquelas, mas a maior surpresa estava por vir. Ao fundo, já sem os raios de sol, uma queda d’água daquelas que arrancam o biquíni de tão forte. Fui me preparando psicologicamente para a surra de cachoeira até que entrei e… a água era quente. Não fervendo, mas um abraço.


Saímos de lá renovados, conectados uns com os outros e animados para conhecer nosso camping. O pessoal não tinha muita pinta de que acampava. Eu mesma tenho mais uma confissão: detesto me trocar sentada. Larguei essa coisa de barraca nos meus 25 anos e nunca mais retomei. Mas chegando ao acampamento da Korubo, nada de barraca comum. Os quase chalés – vou chamar assim por que são lindas e de uma chiqueza sem fim – são altos, montados em cima de um deck, com duas camas e um banheiro ecológico de madeira no fundo. Sério! Eu falei banheiro dentro. Moraria ali uns bons meses.


O acampamento tinha ainda um redário com vista para a prainha de areias claras do Rio Novo, refeitório e um banheiro coletivo para os banhos quentes do fim do dia. Para quem gosta de acampar, uma delícia. Para quem não gosta, a oportunidade para se apaixonar.

Conhecemos ali também a equipe que nos cuidaria pelos próximos dias. Walley, nosso guia, nasceu no Tocantins e tem a família toda, até seu irmão com quem faz a dupla Gêmeos Tour, trabalhando com o turismo local. Escritor e poeta, o garoto é um showman. Também nosso guia, Rafael se mostra uma grande companhia para todos os momentos. Junior é o motorista atento, que não só nos guia, mas avista os animais que cruzam nosso caminho. Marcelo e Chiquinho cuidam para que engordemos felizes nas quatro fartas refeições do dia. Mesmo fora do acampamento, em meio aos passeios, a estrutura de almoço era finamente montada com boa opções. Eu que não como carne me fartei com as criações deliciosas que saltavam da cozinha – até demais, diga-se de passagem! Preciso aqui dar destaque para a lasanha de berinjela, que evaporou em minutos, para o peixe Pacucaranha fritinho, e para o jiló – saudades, inclusive.

No segundo dia, descemos o Rio novo de caiaque. Uma mini aventura muito gostosa que já queima o pão de queijo do café da manhã (rs). Munidos de colete e capacete, passamos por três corredeiras até o fim do percurso de 1h rio abaixo. Bem leve, bem gostoso, mas passe repelente – no meio das águas, o banque somos nózes.


Tivemos alguns momentos antes do almoço para mais uma vez percebermos que estávamos rodeadas de pessoas incríveis. A cada minuto a conexão entre o grupo aumentava. Do animado casal de cariocas de 70 anos ao grupo de mulheres poderosas de Vitória, entendemos que a diversidade ali só nos unia. Éramos casais, amigos, viajantes solo, todos vibrando na coletividade. Gente do nordeste e do sul, da praia, do interior e das cidades grandes. Amigos para toda uma vida.

Neste mesmo dia partimos para as tão esperadas dunas na Serra do Espírito Santo. Momento “melhores fotos da vida” chegou. De um lado uma chuva negra imponente se aproximando, do outro o pôr do sol dourando as areias. Ao longe, o verde intenso e rasteiro do cerrado misturado à lagoas rasas e paradisíacas. Que dia especial. E que momento doce – lembranças lindas do quarteto de mulheres capixabas mais do que inspiradoras.

Terceiro dia, acordamos bem cedinho e, ainda com o céu nublado, seguimos para os fervedouros. Essas nascentes de rios são os principais atrativos do Jalapão. A água brota com tanta energia que é impossível afundar! O Fervedouro do Soninho tem cerca de 30 metros de profundidade e a corrente de convecção traz consigo partículas de areia criando um fundo falso. Uma loucura essa experiência. Já começa pelo lugar, cercado de bananeiras e com água transparente reluzindo. Entramos em pequenos grupos na água e ficamos testando as melhores sensações naquela mistura de água e areia rosada. Leve óculos para ver embaixo d’água que vale demais.

Fui em novembro, uma época que por um lado é bastante chuvosa, mas que por outro não é tão quente. Em teoria isso seria uma questão para entrar na água, mas mais uma vez o Jalapão vem nos surpreender. A temperatura, mesmo das cachoeiras, chega a 27º. Caia uma tempestade quando fomos para o banho na Cachoeira do Formigueiro. Mesmo com a chuva, a água era azul, cristalina e com essa temperatura de amor. Ah, vale a passagem pelo barzinho que tem ali próximo para provar umas cachacinhas deliciosas de vários sabores.

A parada final é na cidade de Mateiros para ver artesanato e tomar sorvete com frutos do cerrado. Quase todos os moradores da região trabalham com turismo, artesanato feito com capim dourado e produtos da terra, como o buriti. Artesanato na cidade tem mais variedade, mas no acampamento é também lindo e mais em conta.

Quarto dia acordamos 5h, tomamos café da manhã leve e partimos para a trilha. A subida da Serra do Espírito Santo é íngreme e cheia de pedrinhas soltas. É uma escalaminhada intensa, mas achei que seria pior. Subimos os 800m até a chapada no alto, caminhamos 3km até o mirante que dava para o paredão que forma as dunas onde estivemos no segundo dia. Uma vista de tirar o fôlego. A descida é a parte mais delicada, então atenção com esses joelhinhos. Ao final, fomos recebidos com água, barrinhas, frutas e jalapower, uma mistura deliciosa de caju, limão, sal e açúcar que recupera os sais perdidos.

Nos restou ainda uma tarde ao sol na prainha do camping. Momento lindo regado a boa música, ótimas caipirinhas e companhias melhores ainda. Nos amamos ali até escurecer já antecipando o fim da viagem. Olhava todos em total sintonia e via que cada um ali largaria tudo por mais um par de dias só jogado à beira do Rio.



No último dia já saímos de mala e cuia do camping, nos despedindo com dor no coração de Marcelo e suas mãos mágicas que tão bem nos alimentaram. Entramos em uma antiga fazenda de Pablo Escobar que hoje recebe os visitantes que vêm para ver a imponente Cachoeira da Velha. Dizem por ali que o nome da cachoeira vem de uma mulher da região que gostava muito das águas. Depois que ela morreu, seu o espírito permaneceu no lugar. No caminho, vimos ainda um veadinho saltitando entre a imensidão verde, corujas e até uma jibóia. Para terminar no melhor estilo, um banho na praia do Rio Novo e um lindo almoço em grupo.


O Jalapão é de fato um lugar muito especial. Ao final de 6 dias, ficam as quebras de barreiras e preconceitos, as energias lá no alto e a total sintonia com a natureza e com as maravilhosas amizades de norte a sul, com um salto até a Alemanha, que fizemos. Saldo final: coração conquistado e retorno certo. Até a próxima!

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Fotos destaque: Gabriela Rassy
Fotos texto: Gabriela Rassy, Wagner Costa e Adriana Busico


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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