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Debaixo de chuva, SP ocupa a rua e comemora aniversário com música e resistência

por: Gabriela Rassy

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Quem é de São Paulo já está mais do que acostumado com a chuva. Enquanto em outras cidades uma simples garoa já espanta todo mundo da rua, o paulistano tira de letra. Nasceu debaixo dela e nela fica se for preciso. Neste dia 25 de janeiro, a cidade da garoa completava seus 465 anos com uma programação mais do que deliciosa das 12h até perto das 00h.

Chegando pela São João, sentido Anhangabaú, já senti o peso do som old school da DJ Donna. Vinda diretamente de Brasilia, essa potência de mulher abriu o palco dedicado aos coletivos e à música negra. Ali, em frente à linda Praça das Artes, já chegava o público rebolante que se misturava aos frequentadores diários da região. Pessoas em situação de rua, ambulantes, moradores de ocupações, todos dançavam emocionados no set de Donna.

“Fiquei muito feliz por que todas as festas do palco são de resistência: Discopédia; Batekoo; Seu Osvaldo, o primeiro DJ do Brasil; KL Jay, referência nacional dentro do rap”, diz Donna. “Aqui tem todo tipo de público e todo mundo bem adaptado. Moradores em situação de rua, galera LGBTQI, os manos do rap, todo mundo se respeitando”.

Ela está chegando pouco a pouco em São Paulo e já mostrou a que veio. Levou para casa, em dezembro de 2018, o prêmio de melhor DJ do ano no WME – Women’s Music Event Awards. A premiação é totalmente focada nas mulheres que trabalham com música no Brasil e está já na sua segunda edição valorizando os trabalhos.

“Fazer cultura de rua com apoio da prefeitura é muito mais fácil. Então um evento desse é um passo importante para esse começo de ano, por tudo que a gente tem visto acontecer, como Jean Wyllys tendo que ir embora. Ao mesmo tempo que a gente se assusta e quer recuar, essas iniciativas mostram que a gente tem condição sim de ocupar a rua – e não tem melhor forma de fazer isso se não for com música, com arte. O rap já salvou a vida de muita gente e com certeza a arte agrega muito mais na vida das pessoas”, conclui Donna.

Mal começou a tarde, enquanto falava com Donna e ouvia o batidão que se aproximava com Batekoo e seu convidado KL Jay, e uma tempestade caiu sem dó em cima do público. A ventania saiu arrastando tudo e levava a chuva por todos os lados. Pegos de surpresa, alguns foram embora não só do palco na Praça das Artes como do palco principal, aonde Paulinho da Viola se apresentava com sua filha Beatriz Rabello, a cantora Fabiana Cozza e o músico Rodrigo Campos. O sambista agradeceu a persistência das centenas de pessoas que não arredaram o pé. Boa parte do público correu para se protejer das pancadas de chuva que duraram, diferente dos outros dias de verão, pelo menos 3 horas.

As DJs e primas Aisha e Yaminah mandaram ver no set, a convite da Batekoo

As DJs e primas Aisha e Yaminah mandaram ver no set, a convite da Batekoo

Um público mais jovem voltou a lotar o Anhangabaú para o show em homenagem ao Charlie Brown Jr. Com Supla e Dinho Ouro Preto no palco, percebi que ainda sei de cor cada letra da banda de santos. Sabendo esse primeiro álbum completo e resistindo debaixo do aguaceiro que vinha do céu, uma sensação de juventude prolongada bateu forte. Decidi ficar até o fim.

Do outro lado do Vale estava o palco dedicado às brasilidades. Ali, o DJ Rodrigo Bento, residente e responsável pela festa Pilantragi, reunia uma pequena multidão de pessoas muito animadas. Contagiantes, DJ e público pulavam emocionados ao som de “Pequena Eva”, da Ivete Sangalo. Moradores de rua cumprimentavam Bento, felizes da vida, e fãs da festa rodopiavam junto na mesma frequência, tudo ainda debaixo de chuva.

DJ Rodrigo Bento colocou todo mundo para dançar

DJ Rodrigo Bento colocou todo mundo para dançar

Prova da mais pura resistência foi a noite caindo e a pista de música eletrônica estava em seu ápice. A DJ Cachu, que concorreu com Donna no WME, se revezava com Laura Diaz, da banda Teto Preto, em batidas graves e intensas. As duas comandam a Mamba Negra, uma das melhores festas de sons eletrônicos da cidade. As também ótimas Gop Tun, Selvagem e ODD passaram por ali ao longo do dia.

A festa também tinha atrações interativas. Um sistema de som com palco ao lado e um pequeno camarim cheio de fantasias formavam o palco de karaokê, que reuniu público fiel durante todo o dia, cantando junto com os amadores. Munidas de perucas, plumas e óculos gigantes, as pessoas faziam fila para cantar uma música. Logo ao lado, brinquedos de ar divertiam as crianças. Uma fofura só.

A chuva finalmente parou já eram 20h e tanto. A festa continuava linda e as pessoas animadas para os encerramentos. Resistência pura e crua, o show de Rael foi politizado do inicio ao fim. A plateia fazia o coro “ele não”, contra o presidente eleito Jair Bolsonaro, enquanto o músico lembrava o desastre ambiental sofrido em Brumadinho nesta semana. Falas repudiando a facilitação da posse de armas e de apoio a Jean Wyllys também marcaram o show que teve Rachid e Pabllo Vittar como convidados. Pabllo já era convocada por gritos do público desde o início da apresentação. Em sua rápida aparição, cantou duas músicas de seu mais recente álbum e lançou: “Espero para os próximos anos muita resistência, respeito e muita igualdade, sim”. Ludmilla fez o show de encerramento com muito funk.

Os paulistanos provaram ali que nasceram debaixo da chuva e, na medida do possível, sabem lidar com ela. Provaram também que estão do lado da diversidade e do respeito. Com os dedos enrugados pela humidade, segui também até o fim. Fui embora ao som de Yuka: “A minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego. Pois paz sem voz, paz sem voz, não é paz é medo”. Seguimos pela paz, ocupando e resistindo. Como a vida na cidade pede. Parabéns, essepê.

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Fotos: Gabriela Rassy e Ariel Martini


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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