Matéria Especial Hypeness

‘Nosso Sagrado’: documentário pede liberação de itens afro-religiosos apreendidos pela polícia

por: Kauê Vieira

O Candomblé sempre esteve associado com conceitos de resistência. Inspirada na força exalada pelos orixás Xangô e Iansã, esta religião afro-brasileira, trazida por volta do século 19 como um elo de ligação de negros escravizados – sobretudos os nagôs, convive até os dias atuais com a perseguição. Coisas do racismo não tão velado, que paira sobre a pátria amada Brasil.

A expressão religiosa surgiu oficialmente na Bahia, região onde até hoje se encontra o terreiro mais antigo do Brasil. A Casa Branca fica no Engenho Velho da Federação e segundo registros feitos pelo Iphan – responsável por documentar o patrimônio histórico brasileiro, está ativa há mais de dois séculos.

Sua fundação ocorreu entre 1735 e 1890. A construção foi erguida onde atualmente localiza-se o bairro da Barroquinha. O processo de nascimento da comunidade Ilè Asé Airá Intilè foi encabeçado por homens e mulheres negras escravizados e que trabalhavam em engenhos de cana. Pelas contas de historiadores, são pelo menos 300 anos de existência. Ao longo do tempo, o Ilê perdeu espaço, se concentrando às margens da Avenida Vasco da Gama.

O Terreiro Casa Branca é tombado pelo Patrimônio Histórico há apenas 30 anos

Diante de tanta história, é impossível não pensar no número de objetos, documentos e elementos fundamentais para traçar a linha do tempo dessa representatividade religiosa tão brasileira. Porém, dá pra contar nos dedos os museus ou espaços de cultura que prestam este serviço.

Se você estiver pensando na influência do racismo neste cenário, acertou. Desde a década de 1920 – tempo em que ser do candomblé era considerado uma prática criminosa, inúmeros objetos foram apreendidos pela polícia e simplesmente jogados em um espaço com um nome bastante sugestivo. O Museu da Magia Negra abrigou imagens, vestimentas e instrumentos musicais, que com a falta de cuidado começaram a se deteriorar.

O acervo possui por volta de 200 peças – sem qualquer informação sobre conservação e distinção. Atabaques, roupas, agogôs, enfim, itens preciosos, que pasmem já chegaram a ser expostos por autoridades policiais ao lado de símbolos do nazismo e cocaína.  

O documentário nasce para exigir a liberação de itens históricos das religiões negras do Brasil

Esta história é desconhecida de muitas pessoas. Então, para jogar luz sobre o assunto e reivindicar o que lhe é de direito, foi lançado em 2017 o documentário Nosso Sagrado. O filme integra campanha iniciada por membros do movimento negro, lideranças da Umbanda, Candomblé e pesquisadores.

“É difícil mensurar ainda os efeitos, mas vimos o documentário como uma forma de contar essa história por meio de vozes diretamente impactadas com o racismo religioso e ainda contextualizar os motivos pelos quais ele ainda resiste em nossa sociedade. Por meio do audiovisual conseguimos penetrar em espaços que não alcançaríamos apenas com palestras ou protestos”, explica ao Hypeness Viviane Tavares, uma das produtoras do documentário feito em parceria com a Quiprocó Filmes.

A campanha possui representações na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro

Nosso Sagrado chega também para cumprir a missão de debater o crescimento dos casos de racismo religioso. Segundo a Secretaria dos Direitos Humanos, órgão ligado ao Ministério da Justiça, grande parte das vítimas são praticantes de religiões de matriz africana. O Rio de Janeiro é o líder com o maior número de denúncias.

Os ataques acontecem de diferentes formas e vão desde ofensas verbais, passando por agressões físicas – como o caso de uma jovem apedrejada por vestir roupas de ração (vestimentas usadas tradicionalmente em dias de culto), culminando por fim na destruição completa dos barracões.

Fundamentalistas e até traficantes foram responsáveis por destruir barracões no Rio de Janeiro e Salvador. Para Viviane, o fato do povo de santo ser alvo constante de práticas discriminatórias, reforça a corrente de que não existe liberdade religiosa. Pelo menos para candomblecistas e umbandistas.

As religiões negras são símbolo de resistência em um país tão racista quanto o Brasil

“De jeito algum. Defendemos o termo ‘racismo religioso’ porque acreditamos que justamente as religiões de matriz africana ainda sofrem intolerância e silenciamentos. Isso pode ser comprovado por conta dos números de violência com essa religião. No ano passado foram mais de 40 terreiros atacados por traficantes e fundamentalistas só na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Cerca de 70% dos boletins de ocorrências registrados como intolerância religiosa são de praticantes de religiões afro-brasileiras”, ressalta a produtora de Nosso Sagrado.

A inércia das autoridades e a falta de propostas consistentes para acabar com o problema são os pontos centrais do documentário dirigido por Fernando Sousa e outros dois cineastas. Para isso, a produção evidencia práticas discriminatórias protocoladas ainda do tempo da Primeira República.   

A imagem de Zé Pilintra foi presa para evitar ataques de fundamentalistas

A persistência sistêmica dos atos de racismo religioso são retratados pela história da Mãe de Santo Luizinha de Nanã. A yalorixá teve seu terreiro de Candomblé totalmente destruído durante o processo de remoção da Vila Autódromo para a realização das Olimpíadas. Perceba como o Estado faz parte desta engrenagem negligente.

“É a reprodução de um discurso que prevalecia ainda na primeira República, quando criminalizam o samba, a capoeira e as religiões de matriz africana. No entanto, os dois primeiros gozam de liberdade enquanto as religiões ainda precisam conviver com diversas violências, como essa de seus objetos sagrados ainda estarem apreendidos como caracterizados como práticas criminosas. Ou ataques a seus praticantes e seus templos sagrados, como os terreiros”.

O lançamento do documentário aconteceu no Circo Voador, no Rio

O entrave é proporcionado pela desinformação alimentada por conceitos estereotipados disseminados por veículos de comunicação e personalidades. Não faz muito tempo, o Padre Fábio de Melo precisou se desculpar por ter feito uma piada esdrúxula sobre as oferendas durante uma missa.

A novela Segundo Sol, da TV Globo, que está no centro de uma polêmica sobre a ausência de personagens negros foi outra. O folhetim reforçou a ideia ‘magia negra’ ao mostrar a personagem interpretada pela atriz Adriana Esteves ameaçando outra pessoa com um ebó – termo em iorubá usado para nomear oferendas e agrados servidos aos orixás.

Para Viviane Tavares, “a desinformação também é racismo”. Citando o caso da novela global, a produtora critica a participação do cristianismo nesta história.

Uma coisa sustenta a outra. Quando vemos a aula de religião nas escolas, ela não discute as religiões, ela impõe as de origem cristã. Da mesma forma são as piadas e/ou as formas pejorativas que as religiões de matriz africanas são tratadas. Recentemente vimos um caso em uma novela na maior emissora do país”.

Trocando em miúdos, a existência de campanhas como a Nosso Sagrado é a semente de esperança de tempos melhores. Não, a Umbanda, tampouco o Candomblé, são motivo de chacota. Não há como existir evolução social de maneira orgânica e decente sem a valorização das raízes. A fé nasce e deve permanecer livre.

Mãe Senhora, candomblé Ilê Axé Opô Afonja, Salvador, Brasil, em retrato de Pierre Verger

“Queremos mostrar uma narrativa pela ótica da fé, do sagrado, humanizar a pauta. Explicar o que é o sagrado para as pessoas é mostrar como essa violência toca. Quem tem religião, quem tem um sagrado, sente quando ouve o filme, independente de sua crença”.

Assim como o trabalho do povo de santo e profissionais do audiovisual do Rio de Janeiro, a história ancestral de figuras icônicas como Mãe Stella de Oxóssi são combustível para a renovação da esperança e da luta pela reparação histórica.

Uma das yalorixás mais respeitadas do Brasil, a baiana se caracteriza por fazer questão de colocar o Candomblé como representante imortal da cultura brasileira. Ao longo de mais de meio século de dedicação ao orixá, Mãe Stella acumula honrarias.

Ela é membra da Academia Baiana de Letras, além de possuir diversos livros lançados sobre o assunto. Aos 93 anos de idade, a líder religiosa soteropolitana estrou canal no YouTube para dividir um pouco do conhecimento sobre a religião.

Mãe Stella é uma das grande representantes do Candomblé

“Para nós, o apoio de mães, pais e filhos de santo é o que nos move, é o mais importante. Sem eles não faria sentido. Queremos ajudar essas e outras barbaridades. Estamos vivendo tempos sombrios. Precisamos de um pacto coletivo para ajudar a denunciar e cobrar essa reparação histórica e que ela nunca mais se repita”.

Nosso Sagrado é exibido em comunidades e terreiros de Candomblé. Os produtores dizem que a luta pela liberação dos objetos religiosos junto ao governo é árdua, mas continua. Nossos passos vêm de longe.

“Estamos lutando incansavelmente para isso. Temos apoio de diversos pesquisadores, parlamentares, sociedade civil, e, o mais importante, das mães, filhos e pais de santo. Fizemos audiência pública, diligência e uma representação no MInistério Público Federal assinado por diversas representações e ainda tivemos um abaixo-assinado muito representativo com mais de mil assinaturas de diversos terreiros ratificando o apoio à campanha”.

Viviane ressalta que a ideia é fazer um museu que dê o devido valor aos artefatos. “Defendemos que o que pode ser exposto – teremos uma avaliação espiritual das religiões – deve ser exposto, admirado e ajudar a contar um pouco mais dessa história de luta e resistência. Agora como religião, arte, construção de nossa história, de nossas raízes e, não expostas como troféus de crime”.

 

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Fotos: foto: Wikipédia/foto 2: Reprodução/Facebook Oficial/foto 3: Paula Jardim Duarte/foto 4: Fotos Públicas/foto 5: Reprodução/Facebook Oficial/foto 6: Pierre Verger/foto 7: Reprodução/Facebook Oficial


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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