Matéria Especial Hypeness

O dia em que o Museu do Futebol foi inteirinho das pessoas em situação de rua de SP

por: Vinícius Lima

O Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido como o Estádio do Pacaembú, já foi palco de muitas histórias. Lá, aconteceram alguns jogos da Copa do mundo de 1950, centenas de Corinthians e Palmeiras, o famoso Derby Paulista. Jogadores como Ronaldo, Pelé e Marta já balançaram as redes por lá e deram alegria a sua torcida. História é o que não falta.

Todas essas histórias estão registradas no Museu do Futebol que existe dentro do estádio desde 2008 com memórias tanto do estádio do Pacaembú, quanto de todo futebol mundial. Copas do Mundo, nossos craques, as camisas dos times, os clássicos e muito mais coisas lá nesse ambiente muito moderno e interativo.

O Museu conta também com um Núcleo Educativo. Graças a esse núcleo, essas histórias do futebol puderam se misturar com outras histórias da cidade, histórias que ninguém nunca ouviu de pessoas que ninguém vê, histórias sobre as pessoas em situação de rua.

Junto com o Coletivo “Tem Sentimento”, o Núcleo Educativo do Museu do Futebol realizou uma visita exclusiva para um grupo de 20 moradores e moradoras de rua no museu que foi conhecer a história do esporte mais popular no Brasil e o Hypeness foi acompanhar essa visita. Quer saber como foi essa experiência? Leia aqui alguns relatos sobre essa visita.

 

Katia da Silva

“Eu estou a 18 dias sem crack e sem pinga. Isso é uma vitória. Vir para cá é maravilhoso porque eu nunca havia saído do fluxo desde que eu cheguei lá. Na Cracolândia, a gente só vê aquilo. É droga, droga, droga o dia inteiro.

Meu nome é Katia da Silva. Eu torço para o Corinthians. É um prazer imenso estar num estádio e num museu. É uma experiência muito boa. É muito maravilhoso tudo isso. Isso afasta a gente das drogas e nos dá oportunidades. Não oportunidades de emprego, mas oportunidades de conhecer uma outra vida, uma nova forma de viver.”

Poeta

“Como eu sou conhecido como Poeta, quero deixar aqui uma frase de minha autoria que eu sempre repito todo dia que eu acordo – “Acredite sempre que o amor existe para que você possa continuar”. É só o amor que faz a gente continuar.

Tem muita coisa que a gente só vê pela TV e não viu os bastidores. Aqui tem esses bastidores dos títulos, do esporte. É muito bonito e fácil de aprender.

Eu também quase fui jogador. Tenho um gingado, até que eu mando bem. Eu era um meia atacante, jogava muito parecido com o Muller. Sou santista, torço pro Santos e sou lá da cidade de Santos, também.

Hoje eu ainda assisto, mas jogar, não jogo muito mais não. Eu não consegui prosperar porque a situação foi ficando muito difícil. Infelizmente, a vida é assim aqui no Brasil”

 

Maicon Ferreira

“Já vim aqui três vezes, mas nunca tinha entrado. Sempre fique na praça. Hoje a gente foi muito bem recebido. Talvez, as palavras que definem o dia de hoje são ‘união’ e ‘paz’. Pra mim, isso resume e é o que todo mundo precisa.

Meu nome é Maicon Aparecido Ferreira. Aqui é bem bacana, bem interessante. Foi legal conhecer a história do futebol e a história dos nossos ídolos. Todo mundo tem uma história, um jogador de futebol e alguém que está na rua. Mostra também a luta, o futebol teve muita luta para virar esse esporte que o Brasil todo gosta hoje.

Eu tive um tio que me incentivou a entrar numa escolinha de futebol quando eu era criança, mas eu saí. Lá eu aprendi a gostar, assisto a todos os jogos do Corinthians. Só que jogar não é para mim.

Hoje em dia, as pessoas estão melhorando quanto a homofobia no futebol. Eu uso a camiseta do Corinthians tranquilamente com o meu companheiro e não sofro por causa disso. Só que eu falo por mim. Já ouvi de muitos amigos que foram discriminados.”

Bruna Marquezine

 

“Meu nome é Bruna Marquezine. Igual ao da atriz.

Sabe o que é mais legal disso tudo? É que a porta está aberta. As portas, para quem está na rua, nunca estão abertas. A gente vai pedir comida num lugar e tem a porta fechada, vai procurar um emprego e tem a porta fechada. Não imaginaria que um museu iria abrir a porta pra gente.

Esse espaço cultural é excelente, eu achei tudo muito bom. Eu achava que aqui era menor, mas quando eu entrei, vi que tem muitas coisas.

Eu não gosto muito de futebol, gosto mais de volei. Torço pro Corinthians em todos esportes. O que tem que mudar no futebol é essa homofobia, né. Se eu boto uma camiseta do Corinthians e vou pro jogo, ou arrancam de mim ou me batem.

Esse foi o terceiro museu que eu fui. Já fui na Pinacoteca e no Museu da Língua Português, antes de pegar fogo, né. Agora eu quero ir pro MASP.”

Silvério Silva 


“Cara, eu não torço para nenhum time. Eu não sou muito fã de futebol, eu gosto mesmo é de golf. Eu assisto mais aqueles jogos que todo mundo assiste, finais de campeonato, jogos do Brasil, da Copa do Mundo. Aí eu torço pra quem estiver ganhando.

Meu nome é Silvério Silva Nascimento. O golf eu conheci porque tinha um lugar que o pessoal jogava perto da casa do meu pai. Aí eu jogava lá com eles toda terça-feira, aí me chamaram pra treinar mais sério. Quando eu vi, eu já estava disputando campeonato e tudo.

Aqui eu gostei muito do museu. O que eu mais gostei foi da história do futebol. Não sabia de tudo isso, não sabia como o futebol se tornou essa paixão que é para as pessoas. Depois de ver isso aqui, passei a entender melhor.

Essa é minha primeira vez num museu, minha primeira vez num estádio, também. To gostando muito e quero muito ir em outros.”

Todas essas histórias se cruzaram no Museu do Futebol, graças ao Núcleo Educativo, e podem ser encontradas tanto aqui, quanto no SP Invisível.

Quer conhecer as histórias do futebol? É só ir ao museu que estão todas por lá. Agora, quer conhecer as histórias das ruas? É só andar pela cidade com seus olhos e seu coração abertos.

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Vinícius Lima
Gosta muito de São Paulo e das histórias das pessoas que vivem nessa cidade. Por isso, criou o "SP Invisível". Histórias mudam nosso coração e nossas ideias, assim como faz com ele todos os dias. Sempre mudando.

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