Debate

‘Quero me manter vivo’. Jean Wyllys desiste de mandato e deixa o Brasil

por: Kauê Vieira

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Jean Wyllys não vai assumir o novo mandato de deputado PSOL-RJ a que foi eleito, pela terceira vez, em outubro de 2018. Com medo das ameaças, vai se afastar do Brasil por um tempo. A decisão foi revelada em entrevista à Folha de São Paulo a desistência do mandato. “Quero cuidar de mim e me manter vivo”, disse ele.

Wyllys está de férias no exterior e não tem planos de voltar ao Brasil. O político eleito com 24.295 votos pretende se dedicar à carreira acadêmica. O baiano radicado no Rio de Janeiro explica que a decisão ganhou força com o assassinato da vereadora Marielle Franco e a intensificação das ameaças de morte. Há mais de um ano, o jornalista anda com escola policial.

“O [ex-presidente do Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou para mim: ‘Rapaz, se cuide. Os mártires não são heróis’. E é isso: eu não quero me sacrificar”, comenta.

Jean afirma que pretende ‘se manter vivo’

Jean Wyllys salienta que a ascensão de grupos conservadores e extrema-direita e o surgimento de supostas conexões entre a milícia do Rio de Janeiro e funcionários do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) pesaram na decisão.

“Me apavora saber que o filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário. O presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim”, encerra.

O deputado foi o primeiro parlamentar assumidamente gay no Congresso Nacional. Jean Wyllys se transformou em um dos grandes vocalizadores e defensores da agenda e dos direitos da comunidade LGBT, uma das grandes vítimas da violência homofóbica no Brasil. Com isso, acabou se tornando alvo principal de grupos conservadores em Brasília. Além de perseguido pelas redes sociais, era abordado com frequência em locais públicos.

Com a saída de Jean, quem assume a vaga no Congresso é o também representante da comunidade LGBT, David Miranda (PSOL-RJ), até então vereador pela capital fluminense.

 

#VaiParaCubaJean e cusparada

Após o anúncio, o presidente Jair Bolsonaro comemorou a decisão de Jean usando o Twitter.

A hashtag #VaiParaCubaJean era, às 16h49, a segunda mais popular no Twitter entre os brasileiros, atrás apenas da #JeanWyllys.

O histórico entre o agora ex-deputado pelo Rio de Janeiro e o clã Bolsonaro é tenso. Em 2016, após anunciar seu voto de “não” ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff, o deputado afirmou ter sido insultado pelo colega e atual presidente da República, Jair Bolsonaro, com gritos de “veado”, “queima-rosca”, “boiola” e outras ofensas homofóbicas e que ainda tentaram agarrar seu braço violentamente na saída. Em resposta, Jean Wyllys cuspiu (ou pelo menos tentou) na direção do político do PSC.

Em sua página do Facebook, Wyllys, na época, explicou que o cuspe não foi só pelas agressões homofóbicas, mas também pelas palavras de Bolsonaro no momento da votação. “É o mínimo que merece um deputado que “dedica” seu voto a favor do golpe ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército durante a ditadura militar”, bradou o deputado do PSOL. “Não vou me calar e nem vou permitir que esse canalha fascista, machista, homofóbico e golpista me agrida ou me ameace. Ele cospe diariamente nos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais”, arrematou.

Para conhecer mais da trajetória de Wyllys no Congresso, o Hypeness sugere um perfil publicado pela revista piauí em novembro de 2015, com o nome “A bancada de um homem só”.

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Fotos: foto 1: EBC/foto 2: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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