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‘Vontade de chorar e de gritar’: 4 moradores de Brumadinho contam o que sobrou após a lama

por: Vinícius Lima

“Fica a saudade, né?”, diz o Seu Francisco ao olhar para um rio todo marrom na cidade de Brumadinho, Minas Gerais, e lembrar de seus sobrinhos e de seu vizinho que se foram no último dia 25 de Janeiro quando o município foi vítima do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, da Vale, um pouco mais de três anos depois do crime ambiental ocorrido na cidade de Mariana, também em Minas Gerais.

A Maria Aparecida, nascida e criada em Brumadinho, diz que “não perdeu coisas, mas que perdeu pessoas” e para a senhora de 60 anos, “basta da Vale em Brumadinho, pois o que vale mesmo é o amor e a paz no coração, não ganhar dinheiro destruindo o meio ambiente”.

Até esse domingo (27), 58 mortes foram confirmadas e 305 pessoas estão desaparecidas. Segundo o G1, a Vale recebeu uma multa do governo de Minas Gerais de 99 milhões de reais e uma multa de 250 milhões de reais do IBAMA. Além disso, tem mais de 11 bilhões de reais bloqueados pela justiça.

Já o sentimento do Geraldo é muito diferente da dona Maria, ele trabalha na empresa há 26 anos e é extremamente grato a ela, pois acredita que “a cidade precisa da empresa”. Segundo o funcionário da Vale e morador de Brumadinho, “não é porque não encontram o meu irmão que vou denegrir a imagem da empresa”. Geraldo trabalha na barragem e só não estava lá, pois está passando por um período pós operatório após realizar uma cirurgia na coluna.

Todos esses relatos foram contados para o SP Invisível na série Brumadinho Invisível, onde você acompanhará mais desdobramentos de mais um crime ambiental sem precedentes no Brasil, na já machucada Minas Gerais de Mariana.

Durante esta semana, o SP Invisível estará em Minas Gerais para contar as histórias das vítimas dessa tragédia e estão arrecadando dinheiro para contribuir com o fundo de reconstrução da cidade e para ajudar as famílias locais através de um financiamento coletivo no Catarse.

Maria Aparecida

“Sou nascida e criada aqui em Brumadinho. Meu nome é Aparecida, tenho 60 anos.

Eu não perdi nada das minhas coisas, mas eu perdi pessoas, perdi colegas.

Já deu esse negócio de Vale, né? Eles podem sair daqui, parar de querer ganhar dinheiro destruindo o meio ambiente. Dinheiro não é tudo. O que vale é o amor e a paz no coração. Basta deles aqui.

Na hora que soube, deu uma vontade muito grande de chorar e de gritar. Fico muito triste por quem perdeu coisas, mas mais triste ainda por quem perdeu pessoas. As coisas, mesmo que demore, a gente consegue de novo, mas as pessoas não.”

Francisco

“Eu tenho 77 anos, moro aqui faz 45 anos e trabalhei na Prefeitura durante 38 anos. Nunca tinha visto isso na minha vida. Meu nome é Francisco.

Ninguém entendeu nada que aconteceu aqui. Diziam que a barragem estava fechada e que não tinha risco nenhum de acontecer isso.

Perdi vários sobrinhos e muitos amigos. O Rogério se foi, o meu vizinho de frente. Ele era uma pessoa muito boa. Trabalhava na Vale.

Meus sobrinhos, o mais velho era o Luciano que tinha uns 30 anos. Todos eram muito jovens.”

Geraldo

“Eu tenho 26 anos de empresa, meu nome é Geraldo. Eu tinha amigos lá, pessoas que chamo de irmãos. Eu trabalhava na barragem mesmo. Só não fui nessa porque eu estou durante um período pós operatório de uma cirurgia que fiz.

Ninguém sabe o real motivo, mas agora é hora de se unir e ajudar, não de criticar. Por exemplo, eu não vou denegrir a empresa só porque não acham meu irmão. Agora tem que dar a mão e ir junto.

Temos que olhar as próximas barragens, dar mais atenção na hora de construir outras. Tudo isso fica de aprendizado. Tem que priorizar a vida, sempre! Não pode economizar na hora de investir em segurança.

Quero ver como vai ser quando voltar, mas vou continuar trabalhando. A cidade precisa da empresa, 65% da população trabalha lá.”

 

Gilmar

“Lá em Mariana, as famílias perderam muitos bens materiais. Perderam casa, móveis, roupas, comida. Aqui, tiveram muitas mortes e muitas pessoas desaparecidas. Essa é a diferença. Tem muito pai de família, muito trabalhador que está aí embaixo desse negócio.

Para falar a verdade para você, eu não sou muito otimista quanto a achar as pessoas. Infelizmente, eu acho que já foi todo mundo que está desaparecido e tem corpo que nem vai achar.

O pessoal quer ganhar dinheiro, não tá muito interessado em achar as pessoas, não.

Eu trabalhei dois anos na Vale, hoje trabalho em comércio. Na verdade, trabalho com caminhão, tanto pra Vale, quanto para as lojas, trabalho com transporte. Infelizmente, o que resta é pedir para Deus para cuidar da cidade e das pessoas, mas de novo, não sou muito otimista.”

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SP Invisível


Vinícius Lima
Gosta muito de São Paulo e das histórias das pessoas que vivem nessa cidade. Por isso, criou o "SP Invisível". Histórias mudam nosso coração e nossas ideias, assim como faz com ele todos os dias. Sempre mudando.

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