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5 desfiles que prometem ser os mais politizados e problematizadores do Carnaval 2019

por: Vitor Paiva

A história dos desfiles das escolas de Samba no Rio e em todo o Brasil é marcada por momentos de claros, provocadores e importantes posicionamentos políticos por parte das escolas.

Seja através do humor e do deboche, seja pelo viés da denúncia e da contundência, o fato é que a Sapucaí e as outras passarelas por onde desfilam as escolas no país servem como um importante palco para se debater e apontar injustiças e mazelas de nossa história, assim como para se exigir justiça, igualdade e reparação.

Os “Heróis da Liberdade” da Império Serrano, em 1969

E não teria como ser diferente: trata-se não só da mais popular das festas brasileiras, como também de uma festa ligada em sua essência e raiz às populações mais pobres – e mesmo que hoje trate-se de uma festa com altos cifrões, são essas populações quem trabalham e desenvolvem o carnaval; tal ligação não se perdeu. O Carnaval, em seu melhor sentido, é um amplificador da alegria e do espírito comunitário do povo, mas também das dores e mazelas do país – da voz desse povo.

O Cristo “proibido” da Beija-Flor, em 1989

Se o Carnaval do ano passado foi marcado por desfiles especialmente politizados – com destaque para a Paraíso do Tuiuti, escola praticamente desconhecida que realizou não só um belíssimo desfile, como também um dos mais politizados, conquistando a segunda colocação -, 2019 não será diferente: no Rio e em São Paulo, algumas escolas prometem aquecer o caldeirão carnavalesco debatendo a política nacional, a história do país e colocando o dedo nas muitas feridas que marcam o Brasil.

 

O “vampirão” da Paraíso da Tuiutí, de 2018

1. Mangueira (RJ)

A história do Brasil será contada pela verde-e-rosa na avenida através da ótica da resistência dos heróis populares. Em “História de Ninar Gente Grande”, gigantes da cultura negra brasileira, como Zumbi e Dandara, Luiza Mahin, Jamelão e Leci Brandão – além da vereadora assassinada Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, também morto – serão celebrados no desfile da Mangueira. A ideia é oferecer o protagonismo popular na história que a narrativa oficial não oferece.

“Quem foi de aço nos anos de chumbo/ Brasil chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles e Malês/ Mangueira, tira a poeira dos porões/ Ô, abre alas/ Pros seus heróis de barracões/ Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões/ São verde e rosa as multidões”, diz um trecho do samba.

 2. São Clemente (RJ)

A preta e amarela da Zona Sul do Rio de Janeiro irá reler seu melhor desfile, de 1990, no Carnaval de 2019. “E o Samba Sambou” será um manifesto pelo Carnaval, como uma critica ao desvirtuamento dos desfiles – mas o final da passagem da escola trará faixas com “recados” ao atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella, que decidiu cortar verbas de investimento municipal no Carnaval, por sua “falta de cuidado” com a festa e a cultura da cidade.

3. Águia de Ouro (SP)

A escolar paulista Águia de Ouro trará uma denúncia mais vaga mas nem por isso menos contundente a respeito da política nacional. “Brasil, eu quero falar de você! Que país é esse!” pretende narrar como a exploração da riqueza do nosso país é causada pela ganância.

Estarão no desfile, portanto, os problemas de corrupção como uma exigência do fim dos roubos à nação. O samba também falará do racismo, em trechos como “Ontem preso na senzala, maldade e dor/ O negro suplicava: – ó meu senhor!/ Hoje amargo preconceito/ Liberdade é uma quimera/ Viver livre quem me dera!

4. Acadêmicos do Sossego (RJ)

Em tempos de intolerância e de nebulosidade sobre a laicidade do estado, a liberdade religiosa se torna um dos temas mais políticos. “Não se meta com minha fé, acredito em quem quiser” é o enredo do desfile da Acadêmicos do Sossego, como um apelo que nosso país “volte a ser uma nação acolhedora de todas as crenças e para que o mundo jamais volte a matar em nome de Deus”.


Com um samba denso, a denúncia é profunda: “Santo Deus, a justiça da terra ou do céu?/ No cálice da fé a intolerância/ O vinho tinto amargo de sangue/ Qual o caminho, meu pai? (…) Bom Deus, por que o ódio no planeta azul?/ Se crentes ou ateus no sangue a mesma cor/ Na mesquita, no templo, no terreiro/ O mesmo sentimento de aliança”. Isso sem contar o boneco do prefeito Marcelo Crivella… Ops, quer dizer, uma representação humana do diabo.

5. Paraíso do Tuiuti (RJ)

A sensação do carnaval passado prometeu não se intimidar com o sucesso de 2018 e levar novamente com força a política para a Avenida. O “vampirão” e os “manifantoches” do ano passado serão substituído pelo Bode Ioiô, personagem lendário da cultura cearense, que flanava por Fortaleza no início do século passado e que, reza a lenda, teve expressiva votação para vereador – um candidato “animal”, eleito sem fazer campanha. “Ora meu patrão!/ Vida de gado desse povo tão marcado/ Não precisa de dotô/ Quando clareou o resultado/ Tava o bode ali sentado/ Aclamado o vencedor”, diz o samba em “O Salvador da Pátria”.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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