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Ativista que denunciou João de Deus se mata após ameaças constantes; caso é repleto de mistérios

por: Redação Hypeness

O domingo começou com uma notícia chocante. Sabrina Bittencourt, responsável pela publicização das denúncias de abuso sexual contra João de Deus se suicidou. A ativista citou Marielle Franco em uma longa carta de despedida publicada no dia 2 de fevereiro no Facebook.

“Marielle me uno a ti. Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos”, escreveu.

A morte pegou todo mundo de surpresa e familiares só acreditaram depois da confirmação de Gabriel Baum, filho de Sabrina. O grupo Vítimas Unidas se pronunciou sobre o assunto em nota. “A ativista cometeu suicídio e deixou uma carta de despedida relatando os porquês de tirar sua própria vida. Não tentem entrar em contato com nenhum integrante da família, preservando-os de perguntas que sejam dolorosas neste momento tão difícil”.

Sabrina temia pela segurança dela e da família

Apesar da comoção geral, algumas peças parecem não se encaixar. A embaixada de Angola, onde Sabrina aparece em foto no mesmo dia do suicídio, afirmou não ter informações da morte da brasileira. O mesmo aconteceu com a de Barcelona, onde a ativista vivia e teria sido encontrada morta.  

Hospitais e a própria polícia da cidade espanhola não dão detalhes. Em casos de suicídio, explica a corporação, não é possível confirmar o óbito por se tratar de uma situação originada por um evento de saúde mental.

A reportagem do Universa diz ter conversado com o plantonista do Consulado Geral do Brasil, em Barcelona, ele nega ter recebido informações sobre a morte. Segundo ele, em casos de óbitos de brasileiros, é normal que o departamento de assistência receba um comunicado por e-mail. O setor não opera aos finais de semana.

Maria do Carmo, presidente da ONG Vidas Unidas, conta que Sabrina e família recebiam ameaças de morte constantes, sobretudo depois das denúncias que levaram à prisão de João de Deus.

João de Deus está preso desde 16 de dezembro

Alguns amigos próximos de Sabrina apostam em uma “morte simbólica”. Ou seja, ela teria criado uma identidade nova para levar a vida com mais tranquilidade. A repórter Nina Lemos recebeu uma mensagem de Sabrina no sábado falando sobre ameaças de morte.

“Estou sendo perseguida por um homem chamado Paulo Pavesi. Um guia que trabalha na Casa Dom Inácio de Loyola marcou vários matadores de João de Deus pedindo para me localizarem. Esse é o perfil dele. Ele é louco. Eu avisei que essa semana fariam milhares de Fake News ao meu respeito”.

Pavesi negou e no Facebook disse que muitas ameaças são invenções. “Porque não tinha como provar e sabia que era a única saída”.

No meio-dia de sábado, Sabrina Bittencourt foi marcada em uma foto tirada em Angola. O registro é de Anderson Lago, amigo próximo da ativista. Ele citou a imagem como parte de uma estratégia traçada por Bittencourt e colegas para confundir os ameaçadores. O cineasta revela que o registro é de 2014 e confirma que ela estava em Barcelona no último fim de semana.

O filho de João foi preso acusado de coagir testemunhas

Sabrina Bittencourt deixa três filhos. Graças ao trabalho dela e de outras mulheres ativistas, mais de 500 denúncias de abuso e estupro contra João de Deus tornaram-se públicas. Ele está preso desde dezembro e o caso segue em análise no Ministério Público. No sábado, o filho do médium, Sandro Teixeira, foi detido em Goiás sob suspeita de coação e corrupção de testemunhas.  

Sabrina Bittencourt revelou nuances de uma rede de prostituição infantil na Europa. A atuação lidava com gente perigosa e continha o nome do próprio João de Deus. 

“A gente tem recebido relatos, desde as mães adotivas dessas crianças que foram vendidas por US$ 20 mil (cerca de R$ 74 mil) a US$ 50 mil (cerca de R$ 185 mil) na Europa, EUA e Austrália, até ex-funcionários e cidadãos de Abadiânia que estão fartos de serem coniventes com a quadrilha de João de Deus”, explica no vídeo.

A ativista foi uma das criadoras da plataforma Coame – Combate ao Abuso no Meio Espiritual, ferramenta que concentra denúncias de violações sexuais cometidas padres, pastores e gurus.

A postagem de Sabrina Bittencourt no dia 2 de fevereiro: 

“Marielle me uno a ti. Somos semente. Que muitas flores nasçam dessa merda toda que o patriarcado criou há 5 mil anos! Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos. VOCÊS TERÃO MILHARES DE MÃES NO MUNDO INTEIRO. Minhas irmãs e irmãos na dor e no amor, cuidem deles por mim… ❤️ Eu sempre disse que era só uma pequena fagulha. Nada mais. Só pó de estrelas como todos. USEM A SUA PRÓPRIA VOZ. A SUA PRÓPRIA VONTADE. TOMEM AS RÉDEAS DE SUAS PRÓPRIAS VIDAS E ABRAM A BOCA, NÃO TENHAM VERGONHA! ELES É QUEM PRECISAM TER VERGONHA. Não aguento mais. Todas as provas, evidências, sistemas de apoio, redes organizadas e sobretudo, meu legado e passagem por aqui está entregue ou chegará às mãos corretas. As REDES DE APOIO AOS BRASILEIR@S FORAM CRIAD@S E SE EXPANDIRÃO NA VELOCIDADE DA LUZ! Não se desesperem. Dessa vida só levamos o mais bonito e o aprendido. Paulo Pavesi, eu sinceramente sinto muito pela morte do seu filho. Tenha certeza, que se eu soubesse da sua história na época, implicaria minha vida e segurança como fiz com centenas de pessoas. Damares, eu sei que você não teve tratamento psicológico quando deveria e teve sequelas, servindo de marionete neste sistema de merda que te cooptou, acolheu e com o qual você se sente em dívida o resto da sua vida. Não tenho dúvidas que você amou e cuidou da sua “Lulu” como gostaria de ter sido cuidada e protegida na sua infância, mas ela nao é uma bonequinha bonita que você poderia roubar e sair correndo… Giulio Sa Ferrari, eu te considerei um irmão e você sabia de todas as minhas rotas de fuga… eu vi em você a pureza de um menino que nunca foi notado por uma sociedade neurotípica que não entendia os neuroatípicos, mas reputação é algo que se constrói e não é de um dia ao outro. Gabriela Manssur, muito obrigada por me fazer ter esperança de que elas serão ouvidas e atendidas em suas necessidades. João de Deus, Prem Baba, Gê Marques, Ananda Joy, Edir Macedo, Marcos Feliciano, DeRose Pai, DeRose filho, todos os padres, pastores, bispos, budistas, espíritas, hindús, umbandistas, mórmons, batistas, metodistas, judeus, mulçumanos, sufis, taoístas, meus familiares, Marcelo Gayger, Jorge Berenguer, eu desconheço a sua infância e a sua criação pelo mundo, mas sei no meu íntimo que TODO MENINO NASCEU PURO e foi abusado, corrompido, machucado, moldado, castrado, calado, forçado a fazer coisas que não queria, até se converter talvez, cada um à sua maneira, em tiranos manipuladores (em maior ou menor grau) que ao não controlar os próprios impulsos, tentam controlar a quem consideram mais frágil e assim praticam estupros, pedofilia, adicções diversas… Eu sei, eu sinto, eu vi. Mas ainda assim, preferi SEMPRE ficar do lado mais frágil nesta breve existência: mulheres, crianças, idosos, jovens, povos originários, afrodescendentes, refugiados, ciganos, imigrantes, migrantes, pessoas com deficiência, gays, pobres, lascados, fudidos, rebeldes e incompreendidos… Essa vida é uma ilusão e um jogo de arquétipos do bem e do mal, de dualidades… desde que o mundo é mundo. Vivo num outro tempo desde que nasci e sempre senti que vivia num mundo praticamente medieval. Volto pro vazio e deixo minha essência em PAZ. Aos meus amigos, amadas e amantes, nos encontraremos um dia! Sintam meu amor incondicional através do tempo e do espaço. SIM e FIM.”

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Fotos: foto 1: Reprodução/Facebook/foto 2, 3 e 4: EBC


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