Reportagem Hypeness

Carnaval é tempo de empoderamento da mulher e luta contra o machismo

por: Helena Bertho

Chegou a fase do ano em que o Brasil para. Hora de ir às ruas com pouca roupa para pular, brincar, pegar e aproveitar. E para muitas mulheres, pular carnaval está sendo também sinônimo de empoderamento feminino. Seja nos blocos comandado por elas, ou na escolha dos looks cada vez mais diminutos, elas estão indo para a festa munidas do discurso da liberdade feminina e da luta contra o machismo. Mas como pode uma festa, cujo principal foco é a diversão, ser a hora de falar de feminismo? Como é que pular, dançar ou sair sem roupa pode de fato trazer qualquer mudança para a vida das mulheres?

“Os momentos de festa, assim como as piadas que fazemos, as músicas que cantamos, trazem em si reproduções daquilo que se aprende em sociedade, ao mesmo tempo que produzem cenas outras, de enfrentamento, de emancipação, de virada do jogo”, explica a psicóloga doutoranda do Núcleo de Estudos de Gênero e Masculinidade, da Universidade Federal de Pernambuco, Fernanda Ximenes.

Para ela, o machismo está em tudo que fazemos, sobretudo na cultura. “Então o carnaval, como ritual cultural de extrema importância e participação em massa no Brasil carrega em si estas opressões de alguma forma e simultaneamente tem o potencial de ser um território cultural de empoderamento para as mulheres”.

Quando as mulheres assumem as baterias, fundam seus próprios blocos ou decidem elas mesmas mostrar seus seios, o que estão fazendo não é só curtir a festa, mas assumir a forma como esse evento cultural sempre foi feito pelos homens e dar a ele um novo significado. É uma forma de resistência. Não à toa, o movimento LGBT também tem se apropriado cada vez mais do carnaval como espaço de luta.

Elas fazem os blocos

Foi exatamente essa questão de dar um novo significado ao machismo que deu origem ao bloco Mulheres Rodadas, que sai desde 2015 no Rio de Janeiro. “Teve uma foto de um homem segurando um cartaz que dizia: ‘eu não mereço mulher rodada’. Esse post viralizou e a gente surge nessa esteira de pegar um rótulo machista e transformar isso numa afirmação dos direitos da mulher”, conta a jornalista Renata Rodrigues, fundadora e coordenadora do bloco.

Esse bloco é parte de um movimento crescente de surgimento de blocos liderados por mulheres. O que, para Renata, é algo muito poderoso. “A gente combate o machismo mandando um recado de que  o lugar da mulher no carnaval não é um lugar de assédio, mas sim de sujeito, de construir e pautar essa festa. E de uma maneira mais geral, de fazer repensar o lugar que a própria mulher tem no  mundo e na sociedade”.

Assim, a mulher deixa de ocupar o lugar da musa do carnaval, do corpo objetificado que sofre assédio, para se tornar parte das forças que fazem o carnaval acontecer e orienta seus rumos.

Um movimento que existe há anos, mas que se torna cada vez maior e vai além dos blocos de rua: ganha forma também na presença feminina nas baterias de escolas de samba, na ocupação por mulheres nas baterias dos blocos mais tradicionais, nas vozes femininas participando da composição das músicas que vão pautar a festa e até nas campanhas de combate ao assédio.

Não é não e meu corpo é meu

Até porque falar de carnaval e não falar de assédio é quase impossível. O puxões de cabelo, passadas de mão, beijos roubados e até violências mais extremas sempre assombraram as mulheres que curtem a folia. “Para citar um exemplo clássico de como o assédio esteve e está de certa forma entranhado sistematicamente no carnaval temos as clássicas ‘rodinhas do beijo’. Basicamente consistem em um grupo de homens encurralando uma mulher num círculo para que ela beije um deles. ‘Só sai se beijar! Beija, beija!’ Essa é uma prática muito comum e típica do carnaval de rua. Cada ano a vejo menos presente, com campanhas de combate a este tipo de prática inclusive feitas por órgãos do Estado e das Prefeituras aqui no nordeste”, comenta Fernanda.

Essas campanhas são fruto também da popularização do movimento feminista, que reivindica o combate à violência por parte dos governos e também toma suas próprias iniciativas. Como o projeto “Não é não”, que distribui tatuagens pelas ruas durante o carnaval, lembrando os homens de que é importante respeitar a palavra da mulher.

Isso inclusive ganha forma na opção de algumas – cada vez mais numerosas – mulheres que optam por sair com os seios à mostra durante a folia, como uma forma de dizer que seus corpos são somente seus e merecem respeito. Como explica Fernanda: “A cultura de objetificação do patriarcado nos dita que somos feitos para consumo dos homens. Cantar, dançar e às vezes se desnudar pela reivindicação da emancipação de nossos corpos é uma quebra no sistema de opressão que grita: eu sou minha”.  

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Helena Bertho
Jornalista e roteirista, é apaixonada por boas histórias e acredita no poder da informação de mudar o mundo. Gosta de falar de diversidade, sexualidade, direitos humanos e gênero. Não perde uma chance de passar vergonha e acredita que todo jornalismo deva ser feminista.

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