Cobertura Hypeness

Carnaval inclusivo vai da fantasia ao bloco de rua para pessoas com deficiência em São Paulo

por: Brunella Nunes

O Brasil tem aproximadamente 45,6 milhões pessoas com deficiência, equivalendo a 23,9% da população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar do público ser grande, ainda existe uma carência enorme no mercado. Indo na contramão dos padrões, os projetos Meu Corpo É Real e a consultoria de acessibilidade Sondery elaboraram um Carnaval inclusivo, que foi desde a criação de fantasias adaptadas para diversos tipos de corpos até o desfile de um bloco de rua em São Paulo.

O oficina Meu Corpo é de Carnaval aconteceu nos dias 22 e 23 de fevereiro, no Museu de Arte Moderna – reconhecido por ações de acessibilidade, como a festa Sencity, para surdos -, e na faculdade ESPM da Vila Mariana. Glitter, papel colorido, fitas, tiaras, ombreiras e outros materiais de apoio forravam as mesas para inspirar as mulheres a entrarem na folia com estilo e personalidade.

O Meu Corpo É Real começou em 2016 com um mini documentário, na busca de democratizar a moda sob o ponto de vista das pessoas com deficiência. Mas a ideia evoluiu, saindo da teoria para a prática. “Hoje se tornou uma plataforma onde a gente tenta vincular ações e desenvolver produtos que possam trazer uma maior informação sobre o universo desse público específico”, explicou a estilista Michele Simões, idealizadora da iniciativa, que o Hypeness divulgou logo no lançamento (relembre aqui).

A gente está falando de uma das maiores festas que temos no Brasil, e quase nunca percebemos que existem corpos sendo invisibilizados. E não só isso, mas estamos falando de muita gente que, por muitas razões, inclusive representatividade, não fazem parte desses lugares. Então a nossa oficina buscou estimular isso, através de você ir lá, colocar a mão na massa e fazer os seus acessórios, para poder tomar esse espaço na rua. E o Carnaval é uma festa para todo mundo.

Do outro lado da parceria está a Sondery, consultoria com foco em consumo e acessibilidade, com o intuito de transformar as experiências de consumo, seja produto, serviço, conteúdo ou ações pontuais, o mais inclusivas possível. “Acreditamos muito na ocupação de espaços e um deles é a rua. A militância também passa pela folia, mesmo que seja de uma forma leve e divertida. Se todos os demais estão indo pra a folia fantasiados, vamos fantasiados também. Por isso pensamos em tirar o peso que um produto assistivo, como um andador, uma cadeira de rodas ou uma bengala, pode trazer. São coisas que fazem parte do todo, do personagem nessa festa”, explicou a fundadora Ana Clara Schneider.

É mais comum, se é que podemos chamar assim, ver marcas usando pessoas com deficiência em suas campanhas como personagens inspiradores dispostos a compartilhar uma história de superação. Mas o fio da meada não se limita por aí, afinal, estamos falando de uma grande pluralidade anatômica, física e psíquica. Michele aproveitou a oportunidade para relembrar que dentro destes termos também existe não apenas a demanda de representatividade, mas de consumo. “Nós queremos que os corpos estejam em mercados onde não são trabalhados, como por exemplo a indústria da moda. Eles não percebem o corpo com deficiência como um corpo consumidor. Então precisamos tomar esses espaços e mostrar que a gente existe sim e que temos o direito de fazer parte disso.”

Veja mais: Tommy Hilfiger cria linha de roupas para pessoas com deficiência

Exemplo de como a cadeira de rodas pode se incluir numa fantasia criativa!

A blogueira e jornalista Heloísa Rocha, que nasceu com osteogênese imperfeita – condição rara de fragilidade óssea -, estava lá para fazer pela primeira vez um adereço de Carnaval. Super ligada em moda, ela contou ao Hypeness o que achou da iniciativa. Estou adorando! Vou sair daqui com purpurina até 2030!, brincou. “Já participei de alguns bloquinhos, me jogo com a cadeira e tudo. Mas eu acho que o Carnaval serve não só para a folia, mas também para abordar alguns temas e questões de conscientização. Por exemplo, temos falado muito sobre feminicídio, em algumas campanhas. Então por que não falar sobre inclusão, acessibilidade, que o amor é livre independente do corpo?”, sugeriu. Ao mesmo tempo, ela aproveitou para ressaltar a importância da visibilidade:

Também acho importante que os foliões se unam. É legal para as pessoas sem deficiência entendam que nós também dançamos, curtimos, beijamos, paqueramos, como qualquer outro ser humano. Uma cadeira de rodas não é um impedimento.

Heloísa pondo a mão na massa com Camila Bueno, da Leppé Calçados, marca vegana que vai do número 32 ao 43

Heloísa, como boa integrante do mundo dos blogs, aproveitou para passar suas dicas de looks para a ocasião. “Como sou muito básica no meu dia a dia, aproveito o carnaval para me jogar nas cores. É o momento de ousar. Os cílios postiços são uma boa opção, especialmente porque não são impactados pelo calor. O glitter no corpo e um batom bem chamativo também são opções para testar. É bacana também investir nos acessórios que você consiga usar depois, como um brinco ou colar mais chamativos”, finalizou.

Entre as participantes também estava a bailarina, blogueira e cadeirante Mariana Araújo Pedroso, de 30 anos, integrante da companhia de dança De Rodas para o Ar. Animada, ela já desfilou em escola de samba, é fã de Ivete Sangalo e já até conheceu a diva. “Gritou tanto no show que ela a chamou no camarim”, contou a mãe, Magali de Araújo. A foliã entra na conversa. “Aquele dia pra mim foi mágico! Um dia ainda vou no trio elétrico da Veveta, você se prepara”, avisou.

A princípio, Mariana foi ao evento para decorar sua cadeira de rodas, mas saiu cheia de glitter no rosto, no cabelo, com asas e uma tiara nova em folha. A mãe e parceira de aventuras da filha nem gosta muito de Carnaval, mas acabou fazendo ombreiras para entrar no espírito carnavalesco de Mariana.

A intérprete de Libras Diane repassava o que era dito pela maquiadora Priscila Carvalho, da Delírio Glitter

A amiga e parceira no grupo de dança, Laila Canuto, também se empolgou durante a oficina e, além de criar duas tiaras, também tomou um banho de glitter e confete. A mãe Cristina Canuto revelou que ela já esteve em desfiles da Vila Maria e Leandro de Itaquera quatro vezes. Só de pensar nisso meus joelhos já doem! “A dança mudou a vida dela, tanto na parte física quanto no humor, na autoestima. Ela chega em casa e já quer fazer as coreografias!”, contou.

Mariana e Laila devidamente purpurinadas.

A folia ficou completa com o desfile do bloco acessível Sim Podemos, dedicado a pessoas com deficiência, que debutou nas festividades carnavalescas da cidade no ano passado. A segunda edição do desfile aconteceu em Moema no último domingo, 24, contando com direito a intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), audiodescrição e banheiros químicos adaptados. As bandas tiveram a participação de pessoas com e sem deficiência. De Pernambuco veio o grupo Batuqueiros do Silêncio, com seis percussionistas surdos que tocam alfaias, atabaques e cowbell.

A festa, enfim, foi para todos.

A figurinista Magê foi a primeira escolhida para a aula de maquiagem

Primeira turma da oficina de Carnaval, realizada no MAM.

 

Cadeirantes curtindo o Bloco Sim Podemos, no último domingo (24).

 

Publicidade

Fotos da oficina na ESPM: Brunella Nunes para o Hypeness | Foto da oficina no MAM: Mayara Maluceli | Fotos do bloco: Laisa Kaos | 


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Paraense cria absorvente íntimo masculino para evitar que urina pingue na cueca