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Coisa de preto é ganhar o Oscar. O maravilhoso e histórico discurso de Spike Lee

por: Kauê Vieira

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Certa vez, o jornalista William Waack, durante cobertura das eleições presidenciais dos Estados Unidos, reclamou da buzina incessante de um carro. “É preto. É coisa de preto”, disse em áudio vazado nas redes sociais. Ele foi demitido.

A visão racista do jornalista está equivocada. Coisa de preto é roubar a cena no Oscar. “Deus é bom o tempo todo”, exclamou uma emocionada Regina King – vencedora da estatueta de melhor atriz coadjuvante pela atuação em Se a Rua Beale Falasse.

“Mãe, eu te amo tanto. Obrigada por me ensinar que Deus está e sempre esteve se inclinando sobre mim. Deus é bom o tempo todo”, confessou a atriz para mãe, que acompanhou tudo na plateia.

‘Coisa de preto’ é brilhar muito no Oscar

O início de uma noite mágica e como há muito não se via no Oscar. Desde 2015, época do lançamento da campanha #OscarsSoWhite (Oscar tão branco), muita coisa mudou em Hollywood. Negros e negras vencendo virou regra. Não exceção. 

Recordes foram quebrados neste ano. Um elegante Mahershala Ali se tornou o segundo ator negro a conquistar duas estatuetas do Oscar. Afro-americano e muçulmano, ele levou a estatueta de melhor ator coadjuvante por Green Book. Ali, que já havia se consagrado por Moonlight, figura ao lado de Denzel Washington.

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Ele lembrou da presença da avó, “que esteve em meus pensamentos por toda a minha vida, dizendo que se eu não fosse bem-sucedido, que tentasse novamente. Ela me fez otimista. Me levantou em cada obstáculo da jornada”.

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O que dizer de Pantera Negra? Além do fato de ter se tornado norte para gerações a fio de homens e mulheres negras, o longa entrou para a posteridade com louvor. Nunca antes na história do cinema um filme de super-heróis recebeu tantas indicações. Foram sete. A produção do reino de Wakanda levou três Oscars para casa.  

“Deus é bom o tempo todo”, Regina King

Dois momentos tiraram lágrimas dos olhos. Hannah Beachler é a primeira pessoa negra a vencer como melhor design de produção. Com um vestido vermelho estonteante, ela agradeceu o diretor Ryan Coogler. O tamanho da emoção dá o tom da relevância da representatividade.

“Estou mais forte do que ontem. Eu permaneço firme por causa do apoio de Ryan Coogler. Você não fez de mim apenas uma designer, mas uma pessoa melhor. Estou aqui porque esse homem me ofereceu uma perspectiva diferente da vida”. O Hypeness publicou uma matéria falando sobre a visão sem estereótipos proposta por Pantera Negra.

Não ache que os feitos acabaram. Ruth Carter entrou para o livro dos recordes ao se transformar na primeira mulher negra a conquistar a categoria de melhor figurino. Adivinhem por quem? Pantera Negra, claro.

A vitória de Hannah mostra que o protagonismo é fundamental no cinema

“Eu esperava isso há muito tempo. A Marvel pode ter criado o primeiro super-herói negro, mas nosso figurino o transformou em um rei africano”.

Carter, nominada em 1993 e 1998, agradeceu ao amigo Spike Lee. Os dois trabalharam juntos em Malcolm X e Faça a Coisa Certa.

Spike Lee: Hollywood, finalmente, fez a coisa certa

É chocante pensar que Spike Lee não tinha nenhum Oscar. Talvez o diretor mais importante para o fomento do debate sobre a segregação racial nos Estados Unidos, Lee ganhou ontem (24) seu primeiro prêmio. Não foi o de melhor diretor, no entanto o norte-americano levou pra casa os louros de melhor roteiro adaptado.

Foi o ápice de uma cerimônia que há algum tempo não empolgava. Vestindo roxo em homenagem ao cantor Prince, Spike Lee foi anunciado pelo colega e amigo Samuel L. Jackson.

Já era tempo!

Samuel não se conteve. Primeiro, ele informou que o New York Knicks – time de basquete de Spike, havia vencido depois de quase 20 derrotas seguidas. Não tinha como dar errado. Sim, Spike Lee foi, finalmente, selecionado pelo trabalho em Infiltrado na Klan. Jackson gritou e o diretor foi correndo e pulou no colo do amigo. Os dois trabalharam juntos em Faça a Coisa Certa.

Faça a coisa certa. Assim terminou a fala potente do morador ilustre do Brooklyn. O discurso alfinetou a visão racista de Donald Trump e lembrou a ancestralidade negra e o período da escravidão.

Hoje é 24 de fevereiro, o mês mais curto do ano. Também é o mês do ano da história negra. 1619… Há 400 anos nós fomos roubados da África e trazidos para a Virginia, escravizados. A minha avó, que viveu até 100 anos de idade, apesar de sua mãe ter sido escrava, conseguiu se formar. Ela viveu anos com seu seguro social, e conseguiu me levar para a universidade NYU. Diante do mundo, eu gostaria de reverenciar os ancestrais que construíram esse país, e também os que sofreram genocídios. Os ancestrais que vão ajudar a voltarmos a ganhar nossa humanidade.

“Diante do mundo inteiro, esta noite, eu louvo nossos antepassados que ajudaram a construir este país e [inaudível] hoje junto com o genocídio de seu povo nativo. Se todos nós nos conectarmos com nossos ancestrais, teremos amor, sabedoria, recuperaremos nossa humanidade. Será um momento poderoso”.

Sobre Trump, “a eleição presidencial de 2020 está chegando. Vamos todos nos mobilizar. Vamos todos estar do lado certo da história. Faça a escolha moral entre amor versus ódio. Vamos “fazer a coisa certa”! Vocês sabiam que eu tinha de dizer isso!” Encerrou usando uma par de Air Jordans dourados.

Esta reportagem histórica é a prova viva de como durante décadas o Oscar ignorou o talento de profissionais negros. Não se trata de reverter a lógica, mas de abrir espaço para a diversidade. Façam a coisa certa!

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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