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Como a representação da cadeira torna a festa da Vogue ainda mais racista

por: Kauê Vieira


Donata Meirelles celebrou o aniversário de 50 anos em uma festa luxuosa em Salvador. Cercada de celebridades como Caetano Veloso, Preta Gil e Ivete Sangalo, a diretora da revista Vogue foi criticada por uma foto racista.

Sorridente com seu vestido rosa de grife, a poderosa aparece sentada em uma cadeira ao lado de duas mulheres negras com trajes tradicionais de baianas do acarajé. São tantos os signos presentes na fotografia, que fica difícil crer na abolição concreta da escravidão.

Salvador é uma cidade negra. Dos três milhões de habitantes, mais de 2,5 milhões se autodeclaram negros. A cidade é ponto turístico de figuras com a paulista Donata, que todos os verões deixam o Sudeste em busca da chamada “baianidade”. Afinal, o que é baianidade?

A naturalização da escravidão

“Donata Meirelles é uma mulher perversa que desejou reviver um dos maiores tormentos do povo negro para satisfazer sua fantasia sórdida de hegemonia branca. Uma supremacista desprezível que é diretora da @VogueBRoficial, até quando vamos aceitar o lado asqueroso dessa elite?”, escreveu no Twitter o autor Ale Santos.

O caso de Donata revela certo fetiche de parte da chamada elite brasileira de “brincar” com elementos da cultura negra. Como se a negritude estivesse à venda ao lado de uma bolsa de grife. A diretora da Vogue agiu depressa dizendo que não se tratava de um ode à escravidão. Na verdade, segundo Donata, o evento #DoShow50 celebra o Candomblé.

“Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição”, justificou

Mãe Hilda Jitolu em retrato de Mário Cravo Neto

De acordo com Donata, não era uma cadeira de sinhá, mas sim de Candomblé. Ué, então deve-se encarar com naturalidade a teatralização de símbolos sagrados? Caro leitor você, sinceramente, consegue enxergar um trono papal ocupando o mesmo espaço?

O antropólogo Hélio Menezes publicou uma longa análise sobre a cadeira utilizada por Donata. O objeto ganhou notoriedade com grandes ativistas negros, como Huey P. Newton, fundador e então Ministro da Defesa do Partido dos Panteras Negras e mais recentemente, Mãe Hilda Jitolu – Ialorixá negra retratada pelo fotógrafo Mário Cravo Neto. A cadeira traduz a amplitude do poder negro.

“O símbolo é forte demais, negro demais, ancestral demais para ser profanado por sinhazinha moderna, socialite-diretora descafeinada de revista de moda. “Não é possível”, pensei comigo, “ela não pode estar fazendo isso”. Mas como não poderia, se o desuso, posse e destruição de símbolos negros por mãos brancas é ato simbólico-prático corriqueiro desde que os primeiros colonizadores europeus pisaram em África? Há quem chame isso de “apropriação cultural”; acho o termo ambíguo, despistador, por isso o chamo pelo seu nome próprio: racismo estrutural, profanação cultural, apagamento de autoria e autoridade negras”, encerrou.

A fala faz refletir sobre ondas geradas pelo empoderamento negro. Não matemos o mensageiro, mas ultimamente “ser do axé” ou “afro qualquer coisa” se tornou moda. No 2 de fevereiro – dia de Yemanjá, a praia do Rio Vermelho em Salvador parecia um desfile de moda. A sacralização? Talvez tenha se perdido em meio aos posts no Instagram.

A jornalista e youtuber Bela Reis fez um vídeo excelente tratando do tema. Aqui pra nós, que tal demonstrar apoio às religiões de matriz africana lutando contra o racismo e crimes de intolerância religiosa? Que tal traduzir ao amor pela cultura negra em representatividade concreta? Quantos homens e mulheres negras trabalham em cargos de destaque na Vogue de Donata? Silêncio. 

Silêncio conveniente e que remete ao aniversário de Donata Meirelles. A socialite é casada com o publicitário Nizan Guanaes, dono da agência Africa. A melanina carregada pelo nome sugestivo não se reflete na diversidade da empresa com sede em São Paulo. Lá, negros ainda preenchem o setor de serviços. Tal como as baianas cortejando a estrela do #DoShow50.

O time da agência Africa em mais uma campanha

“O que levamos em conta no recrutamento são as competências para a função e a aderência com a nossa cultura”, diz a agência de Nizan em nota.

Alguns, como Caetano Veloso e Preta Gil, defensores públicos dos direitos humanos, permaneceram nos arbustos. Amigos, amigos. Negócios a parte? Apesar a falta de palavras de Caê e Preta, a tropa de elite formada por nomes como Adriane Galisteu e Flora Gil, agiu rápido.

No terceiro dia de festa, a cantora Ivete Sangalo fez um pequeno discurso sobre se colocar no lugar do outro. Empatia, né? O pronunciamento quase emocionado de Veveta foi um afago para uma sofrida Donata. Aos seus olhos, claro. No entanto, Ivete pensou em algum momento no que homens e mulheres negras sentiram ao ver um registro que remete ao período mais nefasto de sua história?

“Não há nada de novo sob o sol. Não espero nada da elite branca. Estou aqui para fortalecer nossas redes; prosperar; financiar nossos projetos; transferir renda e sustentar nossos pares; chorar e honrar nossos mortos; cultuar nossos orixás e deles tirar força para seguir agindo para, um dia, contar uma nova História. É esse o meu manifesto”, pontuou a jornalista Flávia Oliveira no Instagram.  

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ESTOU AQUI A verdade é que o Brasil nunca deixou de ser o que sempre foi. Uma nação forjada na escravidão e profundamente desigual. A população carcerária é predominante preta. As mulheres assassinadas, pretas. Os jovens exterminados, pretos. Os jovens incinerados em contêineres, pretos. Homens e mulheres soterrados na lama sob a chuva ou resíduos da mineração, pretos. Nossa História é de repetição do trabalho escravo transformado, por eufemismo e migalhas, em precário, informal ou flexível. É de repetição do tronco e da senzala nos presídios, na ausência de Estado e serviços públicos nas favelas. É de repetição da exclusão nos salões e restaurantes e hotéis e elencos VIP. É de repetição da escolha seletiva de pretos para chamar de seu e validar as desigualdades História afora. Nós (os pretos ativistas, inconformados e nossos aliados) somos a repetição de Palmares, por aquilombamento ou resistência. Ou dos intelectuais negros que abraçaram os saberes acadêmicos eurocêntricos para tentar construir empatia entre uma elite branca que sempre se achou e se acha merecedora dos louros. E se vê generosa no espelho turvo da vaidade. Não há nada de novo sob o sol. Não espero nada da elite branca. Estou aqui para fortalecer nossas redes; prosperar; financiar nossos projetos; transferir renda e sustentar nossos pares; chorar e honrar nossos mortos; cultuar nossos orixás e deles tirar força para seguir agindo para, um dia, contar uma nova História. É esse o meu manifesto. Foto de Marta Azevedo

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Rita Batista, também jornalista, negra e soteropolitana, criticou o fetiche de parte da elite branca com a escravidão.

“A própria escrava era um objeto de ostentação do dono, um objeto de luxo a ser mostrado publicamente’. Trecho do livro Jóias de Crioula, de Laura Cunha e Thomas Milz. A primeira foto foi tirada entre 1870 e 1880 por Guilherme Gaensly, a segunda é de 2019 mesmo”.

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“(…)Já as escravas de casas ricas eram adornadas por seus próprios senhores. Quando saíam para as ruas acompanhando suas senhoras ou crianças, eram exibidas em trajes finos e carregadas de joias.A própria escrava era um objeto de ostentação do dono, um objeto de luxo a ser mostrado publicamente”. Trecho do livro Jóias de Crioula de Laura Cunha e Thomas Milz. A primeira foto foi tirada em 1860. De acordo com @edercansino a foto que faz parte do acervo do @imoreirasalles, intitulada “senhora da família Costa Carvalho na liteira com dois escravos” foi feita na Bahia por fotógrafo desconhecido. A segunda imagem é de 2019 mesmo. #sóeuacheiestranho #Bahiaterradafelicidade #ritadeixederecalque #passeodedinhoprolado #osprincípiosacimadaspersonalidades #qualquersemelhança #nãoémeracoincidência

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O Brasil parece ter andado pouco desde 13 de maio de 1888. Não importa se Donata quis ou não relembrar o período escravocrata. Na verdade, que raios uma cadeira com significados tão importantes, inclusive religiosos, estava fazendo numa festa de aniversário? No Candomblé, cadeiras como estas são ocupadas por Babalorixás ou Ialorixás. Cargos de altíssimo grau. Na festa no Palácio Aclamação, uma mulher branca decidiu posar com a maior naturalidade. Cercada de mulheres negras, claro.

Confira a íntegra pedido de desculpas de Donata Meirelles:

“Ontem comemorei meus 50 anos em Salvador, cidade de meu marido e que tanto amo. Não era uma festa temática. Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição. Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir”

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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