Debate

Fernando Pessoa chegou a escrever que a ‘escravatura é lógica e legítima’

Vitor Paiva - 17/02/2019 | Atualizada em - 18/02/2019

As graves acusações de racismo recaem já há algumas décadas com contundência sobre o poeta português Fernando Pessoa, e a sombra de tal rótulo foi retomada com a escolha do nome de Pessoa para um programa acadêmico pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Os protestos diante de diversos escritos em que o poeta defende e justifica a escravidão foram retomados a partir principalmente de jornais angolanos.

O jovem Fernando Pessoa

Os escritos teriam sido redigidos por Pessoa por volta de seus 28 anos, e tratam da questão da escravidão de forma impressionante: “A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul) ou um landim (moçambicano) não representa coisa alguma de útil neste mundo”, dizem os escritos.

“Escravizá-lo é que é lógico. O degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude”, estaria escrito. A Agência de Notícias Angolana questionou publicamente o motivo pelo qual outros autores abertamente contra a escravidão, como Eça de Queiroz, Jorge Amado, Alda Lara ou José Saramago não foram selecionados para o programa.

O poeta caminhando por Lisboa

O historiador e especialista na obra de Pessoa José Barreto contraria, porém, o diagnóstico. Para Barreto, os textos que comprovadamente foram de fato escritos pelo poeta sobre o tema eram rabiscos e rascunhos “fragmentários e meros pequenos esboços de coisas que nunca levou avante”.

Para ele, o poeta foi de fato classista mas não propriamente racista, e o sucesso de sua obra fez com que tais “papelinhos” acabassem publicados com destaque. O racismo em Pessoa reabre uma questão fundamental a respeito de tema tal central para a humanidade: o quão pouco se debate no próprio país o imenso papel de Portugal na chaga da escravidão.

Estátua de Pessoa em Lisboa

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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