Matéria Especial Hypeness

Foi um prazer passar todas as manhãs discordando de você, Ricardo Boechat

por: João Vieira

O jornalismo não é uma função de heróis. Muito pelo contrário. A profissão, ingrata como é, coloca no mensageiro da informação o peso de arcar com as diversas emoções que dominam seus leitores, telespectadores e ouvintes ao tomarem conhecimento daqueles fatos ali noticiados.

Como bem dizia um certo jornalista, quem decide entrar para a área, precisa estar pronto para sofrer. Esse jornalista era o gigante Ricardo Eugênio Boechat.

Houve tempos em que não entendia muito bem minha relação com Boechat. No começo da carreira, o tinha como um dos poucos heróis que essa profissão me permitiu ter.

Adorava a irreverência e me beneficiava do fato de concordar com praticamente tudo que o homem falava em suas manhãs de BandNews FM, sempre a partir das 7h30, ou por volta de.

Só que com o passar do tempo, as divergências foram ficando constantes e os pontos de acordo, raríssimos. Boechat passou a ser um real opositor da minha forma de pensar. E, assim, nos distanciamos.

Quer dizer, nos distanciamos mesmo?

 

Ricardo Boechat seguiu sendo uma presença nas minhas manhãs. Para o João mais velho e com mais discordâncias e diferentes rumos, o Boechat passou a soar – me desculpe, meu caro – chatíssimo. Eu sei que nada disso importava para ele. E dale comentários ácidos e com uma forma charmosíssima de ser desagradável com extrema elegância.

Boechat, esse argentino-carioca único, produzia em mim um magnetismo tão intenso que me fazia, quase que inconscientemente, girar o dial para o 96.9 FM e ouvir suas reclamações de mau-humor-bem-humorado tão cedo no dia.

Ontem, quando ele nos deixou, entendi que sentimento sem sentido era esse.

Boechat representa a exata relação que o jornalismo tem com aqueles que o consomem.

Ele não existe para agradar, e raramente agrada. A função é o incômodo constante, a provocação, é sair do lugar comum, mesmo que com excessos ocasionais. O jornalista não pode ser herói, pois, para ser herói, ele precisa deixar de ser jornalista.

Não há como amar uma profissão que nasceu para ser odiada. Porém, não dá para odiar algo que é tão fundamental para a vida cotidiana de cada um de nós.

Como amar Ricardo Boechat sendo que ele me incomodava religiosamente em todas as manhãs? Como odiar Ricardo Boechat se ele me fez ver como impossível a missão de viver os dias sem discutir via rádio com ele de forma absolutamente intensa e, por vezes, até um tanto deselegante?

Boechat cumpriu sua missão. Incomodou, cutucou. Mas a fez sem perder o gingado, o sorriso no rosto, a beleza do nó na gravata e a simpatia cariocamente argentina que o fazia ser uma figura impossível de não ser respeitada. Exatamente como deve ser o jornalismo.

Se faltava um nome para o sentimento que essa função tão fundamental para o mundo provoca em toda a nossa sociedade, não falta mais.

O jornalismo nos faz sentir uma coisa meio Ricardo Boechat. É agridoce, sabe? É ambíguo. Mas é essencial para os dias que seguem.

Toca o barco, Boechat. Eu vou tentar seguir. Mesmo sem poder discordar de você nesta manhã de terça-feira.

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Fotos: Divulgação/Grupo Bandeirantes


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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